Opinião

Ler mais e escrever menos

Caetano Júnior

Em Janeiro do ano passado, este espaço dedicou algumas linhas a contrapor tentativas de opinadores supostamente independentes que "sugeriam" ao Jornal de Angola a produção de opinião que se aproximasse aos ideais por eles professados.

Na ocasião, um artigo sob o título "O nosso guião" tratou logo de mostrar a desarmonia na forma deles de pensar e deste diário, o que os torna inconciliáveis. É uma questão de alinhamento editorial, que, entretanto, tem abertura suficiente para que recolha sugestões e aceite críticas, justas e equilibradas. Só não tem lugar para a insensatez, para a leviandade, independentemente da forma como vier travestida.
A interacção com leitores ao longo do ano passado comprovou uma realidade que esta publicação sempre considerou: o escrutínio de que é alvo, sobretudo de pessoas que a folheiam com o único propósito de lhe descobrir defeitos ou apontar-lhe "alguns disparates", ainda que estes estejam apenas na maneira como elas próprias fazem a avaliação, quase invariavelmente sem critérios, nem ciência, tendo como balança o que gostariam de ver nas páginas e de que forma. É diferente da crítica equilibrada e sustentada, sobretudo, no conhecimento científico e não tanto no senso comum.
A opinião gratuita, oferecida indiscriminadamente, não sendo a especificidade do assunto razão suficiente para obrigar a alguma contenção, já era um mal entre nós, que, entretanto, ganhou proporções de irracionalidade com o advento das novas tecnologias. Hoje, um qualquer internauta que, por um qualquer acaso, descobriu que se pode expressar livremente já se arroga o direito de dizer o que lhe aprouver, sem medir consequências. Ele mal consegue reduzir o passivo que tem para com a literacia, mas acredita reunir saberes suficientes para, por exemplo, questionar a qualidade do jornalismo que se faz no Jornal de Angola ou colocar em causa os títulos por que opta o diário. É este o típico "opinador" forjado na escrita. Ele detesta ler; prefere escrever. De nada vale, portanto, falar-lhe em senso comum, ciência ou empirismo.
Esta casa de imprensa tem procurado guiar-se pelos princípios fundamentais que regem o jornalismo, enquanto ciência, que incluem, além dos aspectos técnicos, a moral, a ética e a deontologia. O respeito aos leitores e às fontes de informação e o direito à imagem e ao bom-nome são, igualmente, levados em consideração. É claro que, para atender aos elementos que orientam o exercício da profissão, são necessários quadros capazes; mentes comprometidas com o saber e com o respeito ao próximo. E tem o Jornal de Angola procurado dotar os seus recursos humanos das ferramentas que lhes permitam, de facto, responder às exigências do ofício.
Por reconhecerem limitações, por serem sabedores das lacunas que lhes chega a condicionar o exercício da profissão, os quadros do Jornal de Angola têm-se sentido perfeitamente à-vontade com eventuais críticas e sugestões. Sobretudo, quando estas nascem do desejo genuíno de ajudar, de contribuir para uma publicação sóbria, equidistante e abrangente, como deve ser a que, como esta, tem a particularidade de oferecer o serviço público de informação. Embora cientes de que o trabalho que fazem vá a escrutínio, os jornalistas desta casa olham-no de viés, quando, entretanto, chega carregado de preconceito.
Afinal, não é avaliação formativa perguntar: "quando é que o Jornal de Angola vai aprender a fazer notícia?". Colocada como o foi, a frase tem o único propósito de humilhar, o que é inaceitável. Alinha-se no mesmo diapasão "o que falta ao Jornal de Angola para fazer jornalismo?". São, pois, insinuações que não engrandecem quem as põe, nem dignificam as pessoas para quem são dirigidas. Constituem ofensas gratuitas, se calhar nascidas da frustração de pretensos intelectuais, que esperavam ver neste diário a reprodução de todo o ódio e maldade que lhes vai na alma.
O Jornal de Angola não se vai moldar à vontade, ao desejo ou ao formato de pessoas magoadas com situações pouco abonatórias que estejam a enfrentar e queiram vê-las reflectidas neste diário; não vai atender aos caprichos de leitores para quem o "bom jornalismo" só o é quando enche páginas com horrores ou na situação em que reproduz uma "agenda" com a qual estão de acordo. Não, definitivamente! Aqui, neste diário, o foco é o interesse público; é, sobretudo, a informação que diz respeito a Angola e aos angolanos. As tragédias, individuais ou colectivas, encontram espaços - e têm sido publicadas -, segundo critérios da notícia.
Neste diário, o produto final é resultado do trabalho de grupo; do labor colectivo; nada é feito isoladamente. Há, inclusive, um exercício democrático interno, que ajuda a definir o alinhamento hierárquico das matérias. A manchete, o assunto mais proeminente do dia, sai, muitas vezes, depois de aceso debate. Claro que haverá sempre quem discorde. É o preço da democracia. E é óptimo! Afinal, os consensos, além de perigosos, são desperdícios de tempo e exemplos do mau uso da disponibilidade. O Jornal de Angola sequer pode, por outro lado, ser acusado de sonegar a diversidade de opinião, quando figuras convidadas a fazer contraposição mal completam meia dúzia de escritos para logo desistirem; outros negam-se simplesmente a dar informação ou rechaçam a mais ténue tentativa de aproximação.
Portanto, é heresia avaliar negativamente a generalidade de um trabalho sobre o qual se desconhecem aspectos fundamentais. Uma notícia mal produzida ou um título toscamente elaborado não devem servir de princípio para aquilatar o conjunto da obra. É preciso separar a parte do todo. É necessário, ainda que a apreciação se sustente na leitura completa da abordagem. Ver um título e ouvir de terceiros o que diz a matéria leva não só a graves omissões, como também à disseminação de inverdades.
Procuremos, pois, ler mais e escrever (opinar) menos. Sobretudo nós, que só sabemos que nada lemos. Façamo-lo já a partir deste 2020.

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