Opinião

Liberdade e solidariedade

Víctor Silva

É costume dizer-se que o tempo é o melhor barómetro para se tirarem as conclusões e se medirem resultados de algum facto ou decisão, porque geralmente no calor das discussões e das acções há sempre posições que se extremam, transmitindo a ideia de clivagens insanáveis. Não faz muito (honestamente até aos dias de hoje só que em muito menor escala), especulava-se e insistia-se bastante na existência de uma crise política em Angola, como corolário de algumas decisões tomadas pelas novas autoridades do país na cruzada contra a corrupção e a impunidade, dois males que prejudicaram, e ainda continuam, o desenvolvimento nacional e uma melhor distribuição da riqueza que alguns julgavam tratar-se de herança.

Essa ideia, urdida a partir do exterior e alimentada por poderosas máquinas de propaganda que encontram nas novas tecnologias de informação canais abertos à sua ampla difusão, tem internamente vários apoiantes que não se conformam com a perda de privilégios gananciosamente obtidos num passado recente. Em surdina e, às vezes mais afoitamente, não escondem o seu desencanto com as políticas seguidas pelo Presidente João Lourenço e, volta e meia, vão buscando motivos, não apenas criticá-lo, o que é perfeitamente normal, como para desacreditá-lo junto da opinião pública através da desinformação, as chamadas fake news, buscando contradições entre as suas anunciadas intenções e as suas acções.
Especulou-se mesmo que, a continuar, a dita crise poderia culminar na implosão do MPLA enquanto organização política, tais as divisões internas muito em volta de alegados eduardistas e lourencistas. Na história do MPLA é público que contradições acabaram em facções e algumas vezes em actos de violência até porque as partes andavam de coldre na cintura e com armas que nem sempre eram para combater o inimigo colonial. Não havia muito a cultura, talvez porque as circunstâncias de guerrilha o não permitissem, para discutir as supostas divergências em debates abrangentes.
Há uma semana terminou em Luanda mais um congresso do MPLA, o terceiro em apenas três anos, o que demonstra que, de facto, os tempos são outros e que a dificuldade que havia no passado para se realizarem conclaves semelhantes para discutir problemas internos também foi ultrapassada.
A tal crise política de que tanto se fala não foi sentida nessa reunião do órgão máximo do partido no poder em Angola, nem mesmo depois que alguns factos políticos recentes levantaram o sobrolho de muitos por aquilo que consideraram excessiva benevolência para com uma personalidade controversa QB na História do país e que foi segurada e aproveitada ao máximo pelos seus seguidores, entre eles alguns desafinados batuqueiros europeus.
A democracia tem-se vindo a afirmar sobretudo nos seus pilares das liberdades de expressão, imprensa e manifestação, que tem permitido que seja possível fazer livremente eco de muitos dos actos que se vão praticando para travar as mudanças sem que os seus autores ou mentores sejam incomodados, como o seriam num período não tão longe assim. São essas liberdades, ou o seu respeito, que facilitam as articulações subterrâneas de que tanto se fala, com alianças espúrias, visando repor, de qualquer forma, os desequilíbrios do passado, juntando-se a fome com a vontade de comer, como diria o povo.
Nas redes sociais e nos meios de comunicação social convencionais esse exercício de crítica aberta ou velada é feito com a velocidade de um clique e na maior parte das vezes a coberto do anonimato se fazem as mais diversas acusações e insinuações, muitas delas sem qualquer prova, sem de que daí caia o Carmo e a Trindade. Todos os cidadãos têm direito a exprimir as suas opiniões, favoráveis ou desfavoráveis, sobre todos os assuntos e ninguém deve ser discriminado por manifestar a sua só porque desempenha uma função de Estado ou outra. É o jogo democrático que estamos todos a aprender e em que ninguém tem mais direitos do que outros.
Por isso se tem privilegiado o diálogo na tomada de decisões que a todos afectam, como aconteceu recentemente com a entrada em vigor do Imposto de Valor Acrescentado (IVA). Governo e empresários discutiram e continuam a discutir o melhor momento da sua aplicação, sendo ponto assente que tem havido a flexibilização suficiente para atender toda a franja de agentes económicos, mesmo sabendo-se que os grandes contribuintes estavam preparados para a cobrança desse imposto na data inicialmente prevista.
Do mesmo modo, resgata-se o princípio da solidariedade, tão intrínseco entre os angolanos e que se foi perdendo a favor do egoísmo e da ganância, com amplos movimentos de apoio às vítimas da seca na região Sul do país, que não podem aguardar pelo início ou conclusão dos vários projectos já elaborados para resolver as contrariedades naturais daquela parte do território nacional. Agora que se aproxima o período de maior estiagem, todos os esforços são poucos para que cada um, na medida das suas possibilidades, faça chegar às populações locais a sua ajuda independentemente do mérito e do ego que os promotores da campanha queiram retirar do gesto.

 

 

 

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