Opinião

Maka de comadres

Víctor Silva

Angola é um Estado laico e que se pretende de Direito e Democrático, onde as liberdades, direitos e garantias estão consagradas constitucionalmente, incluindo, naturalmente, as de abraçar qualquer confissão religiosa desde que ela não atente contra os princípios fundamentais do próprio Estado.

É frequente ouvir dizer que na falta de respostas terrenas para os seus problemas muitas pessoas acreditam em forças divinas para os resolver, não sendo, pois, um fenómeno raro a proliferação de seitas e igrejas em Angola na mesma proporção que se vão agravando as condições de vida dos cidadãos.
Dados oficiais apontavam para a existência de mais de mil seitas ou confissões religiosas, a maior parte das quais, está bem de ver, em situação ilegal, mas que, ainda assim, mantém as suas actividades, quase sem qualquer intervenção punitiva de quem de direito.
Trata-se, na maior parte dos casos, de acções criminosas de extorsão e práticas de ilicitudes de toda a ordem, em nome de uma prosperidade que nunca chega e a bem da qual sujeitam os crentes às mais abjectas acções, que passam, inclusive, por violações sexuais, em algumas seitas de vão de escadas mas que podem chegar à organização criminosa naquelas que, apesar de recentes, ostentam títulos e templos cuja imponência e localização são, por si, motivo de questionamento.
Não é de hoje que se reconhece que as autoridades sempre tiveram dificuldades para lidar com o fenómeno religioso em Angola por inacção ou omissão. Em nome da liberdade de culto e das liberdades de expressão e de manifestação, o Governo foi passando panos quentes sobre várias denúncias de práticas ilegais que se cometem em algumas seitas e religiões. Chegou-se ao extremo de se legitimar um proponente que se apresentou como “unificador” e, de uma assentada, reuniu centenas de igrejas e igrejinhas, numa confederação que se sabia, ab initio, que iria resultar em nada, a não ser o verdadeiro oxigénio que alimenta a maioria delas que não tem nada a ver com a fé, mas sim com o vil metal, o lombongo, a kibaka, o kumbu!
Até nas situações mais complexas, como a dos muçulmanos que ganham terreno nas barbas de todos, as autoridades têm reagido com pinças, temendo eventuais respostas como umas que já foram dadas ver com a queima de bandeiras nacionais em frente de algumas missões diplomáticas angolanas no exterior ou, no pior dos cenários, o surgimento de grupos extremistas que possam vir a perturbar a paz militar que conquistámos em 2002, de que há exemplos muito próximos.
Também não é nenhuma novidade que, apesar da laicidade do Estado, política e religião mantém uma relação que passa o simples reconhecimento do papel de cada e assume compromissos de núpcias circunstanciais ou mais duradouras, consoante o momento.
Sabendo-se que um dos males do país está no facto de estar permanentemente em campanha eleitoral, não fica complicado entender a dificuldade que as autoridades têm para enfrentar, com a frontalidade que se exige, o debate sobre o fenómeno religioso em Angola e tomar as medidas que se impõem, em defesa do próprio Estado laico.
A novela da Igreja Universal do Reino de Deus em Angola tem revelado, em dose perfeita, o incómodo das autoridades em lidar com estas situações, se calhar sempre com a calculadora na mão a contar votos que os “fofuchos” apadrinham e prometem garantir, concedendo facilidades, autorizações e terrenos nobres para a construção de templos ou fazendo vista grossa ao ror de crimes que está associada à sua actividade.
Despeitados pela perda de rendimentos que obtinham, quer pelas dificuldades financeiras e cambiais por que passa o país ou pelas medidas preventivas contra o branqueamento de capitais, combate ao terrorismo, instalou-se por entre os seus lideres uma disputa de protagonismo que se resume na distribuição do dinheiro.
E assim, pretende-se transformar uma maka de comadres num problema político e diplomático entre Angola e o Brasil, porque a liderança da IURD é maioritariamente controlada pelos brasileiros e os angolanos relegados para planos secundários.
Há quem diga que a IURD é uma multinacional da fé, pela vida faustosa que os seus líderes levam, a começar pelo fundador Edir Macedo considerado um dos homens mais ricos do mundo e que não se coíbe de ostentar a sua riqueza, afinal a marca da sua igreja: a da prosperidade.
O “golpe de Estado” que alguns bispos e pastores angolanos pretendem consolidar, utilizando os mesmo métodos ilegais que os que querem substituir não pode levar a um alinhamento cego da defesa da dita comissão de reforma, só por se tratarem de cidadãos nacionais. Como tenho dito, não são nenhuns santinhos e os últimos episódios provam que são farinha do mesmo saco. São cúmplices nos actos criminais que a igreja foi cometendo ao longo dos anos em que se instalou em Angola e por isso devem responder em igual medida, independentemente da sua nacionalidade. Veja-se que nessa acção comercial da igreja até adoptaram o sotaque brasileiro para mais facilmente extorquirem as cada vez menores rendas dos enganados e desesperados que os acompanham. Os episódios revelados nos últimos dias são apenas parte de uma engrenagem muito mais complexa que não pode ficar pela classificação de “bons e maus”, porque, na realidade, nesta novela não há “bandidos e heróis”. É tudo o mesmo. Brasileiros e angolanos.
O Estado deve exercer o seu papel e tomar as medidas cabíveis, nem que isso passe pela proibição desta igreja em Angola e que eles depois resolvam as makas internas e ressurjam com outro nome, como já aconteceu, com a Maná, por exemplo. Porque não se está perante nenhuma reforma doutrinária da igreja, mas tão só a disputa do dinheiro, em que se inclui o património.
Tudo o resto que se disser, com ou sem ruído de Brasília, capital do Brasil, ou de S. Paulo, sede da TV Record, ou das conferências de imprensa em Luanda, é pura retórica para impressionar os menos atentos e que em nada deviam engajar o governo angolano.
Diz a sabedoria do povo que zangam-se as comadres, descobrem-se as verdades…

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