Opinião

Manter o foco

Víctor Silva

O país anda atrás do prejuízo em quase todos os domínios, depois de anos de conflito militar e  anos em que se inverteram os valores comuns de uma convivência sã em sociedade.

 Criou-se, entre nós, uma ideia falsa de prosperidade, em que quase tudo era permitido, mesmo que, e sobretudo, à margem da lei. O anormal passou a ser normal e quem pugnasse pela normalidade era de imediato rotulado com um cabaz de adjectivações, algumas delas acabam na sua “condenação” ao ostracismo e, mesmo, à detenções prisionais.
Era o país do desenrascanço, como já escrevemos aqui, lembrando o que se passou no país vizinho nos tempo do “grand leopard”, Mobutu Sese Seko, com o seu “débrouillez-vous”.
Quando o Estado procura pôr “ordem na casa”, resgatando valores que são intrínsecos aos angolanos, ou quando pretende estender a autoridade a todo o território nacional, logo se levantam algumas vozes, dentro e fora de portas, no habitual cancioneiro do contra, alegando estarem em causa direitos humanos e a sobrevivência de milhares de famílias.
O facto de a maior parte dos garimpeiros ilegais que estão na mira da Operação Transparência serem provenientes da Republica Democrática do Congo não faz disso uma campanha contra os cidadãos daquele  país vizinho, como alguns pretendem insinuar e levado a vários apelos de organizações internacionais, todas elas, aparentemente, preocupadas com o destino dos imigrantes ilegais que ocupavam várias parcelas de Angola para a prática de  actividades ilícitas.
Além da imoralidade dessa preocupação, pergunta-se aonde estavam essas organizações quando esses mesmos congoleses e cidadãos de outras nacionalidades eram contratados quase como escravos pelas máfias do garimpo de diamantes e de outras riquezas angolanas. Sim, porque a maioria não vinha atrás do El Dorado, que lhes pudesse trazer riqueza rápida e fácil,  mas como mão de obra barata de  redes organizadas de traficantes, confrontadas com a “resistência” dos nacionais em fazerem esse tipo de trabalho, por migrarem para os grandes centros urbanos ou por rejeição pura de serem submetidos a esse trabalho escravo.
O mesmo se aplica, com as devidas distâncias, com a campanha de resgate que as autoridades estão a levar a cabo para que possamos viver na normalidade.
A autoridade do Estado tem de se fazer sentir em toda a latitude e nós todos temos de aprender a viver em sociedade, uma sociedade organizada, com regras, com disciplina, em que cada um sabe o que é permitido e é proibido e que as autoridades sejam firmes na manutenção da ordem e da disciplina.
Foram muitos anos de anormalidade, em que o anormal se tornou normal, e por isso é que esta operação faz todo o sentido, se queremos de facto viver num país normal.
A “Operação Resgate” não visa acabar com o comércio ambulante, mas discipliná-lo e pôr ordem em várias práticas que quase foram adoptadas como normais, ante o silêncio cúmplice da maioria, até mesmo dos que agora levantam a bandeira dos “coitadinhos”  dos vendedores que não terão mais a única fonte de renda.
O foco da operação está a ser ajustado à realidade, depois de um início onde a ideia era uma e se concluiu que, afinal, a sociedade estava tão doente de valores que era preciso pensar nas suas causas e minimizar as consequências. Porque tem-se visto  que  as próprias autoridades não estavam preparadas para atender às implicações que têm sido destapadas. Os serviços administrativos não estavam preparados para a quantidade de pessoas que exerciam actividades comerciais e outras na ilegalidade, muitas vezes atirados para a própria ilicitude pela excessiva carga burocrática e desfuncionamento dos serviços públicos.
Por isso, faz todo o sentido, mudar o foco da operação para a sensibilização e educação porque é precisamente aí que está o seu grande valor, já que não são apenas as zungueiras ou os vendedores ambulantes, os mamadus ou os armazenistas, as farmácias, os postos médicos, as igrejas, as escolas e até universidades. As próprias instituições públicas também precisam de ser sensibilizadas e educadas a resolverem as questões administrativas dos cidadãos em tempo útil e dentro do que estabelece a lei, sem esquemas e gasosas que alimentam a corrupção que se está a combater.
Neste exercício há que acautelar os excessos, sempre possíveis, por saber-se não se mudar as coisas  da noite para o dia e que, por isso, muitos dos vícios do passado presente ainda estão inculcados naquela que é a verdadeira batalha de todos nós, que é a da mudança de mentalidade.
Enquanto isso decorre não se pode ficar de braços cruzados, resignando-se com o dito mal fadado destino. Ordem precisa-se!

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