Opinião

Mobilização geral

Víctor Silva

O país está mobilizado na prevenção e combate à pandemia da Covid-19, numa cruzada como poucas vezes se assistiu depois dos eufóricos anos pós-independência.

Se, por um lado, assiste-se ao reforço das capacidades sanitárias, com mais meios técnicos e humanos, infra-estruturas e conhecimento, que fazem relevar a importância de áreas meio esquecidas na governação, como o saneamento básico (não foi um conhecido político populista local que disse que isso não dava votos?), o abastecimento de água e uma rede de saúde que privilegie a prevenção; por outro, vamos somando exemplos de incremento de produção nacional, sobretudo na área agro-pecuária, que podem ser entendidos como sinais claros da possibilidade de se poder partir, definitivamente, para a tão propalada diversificação económica, há dezenas de anos proclamada mas que tem sido esmagada pela gula dos comissionistas das importações que, durante anos, se instalaram nos mais altos centros de decisão (e ainda permanecem).
Esta crise sanitária pode, assim, ser uma porta para as grandes transformações que se pretendem e a sociedade exige, corrigindo o muito que está mal e evitando ao máximo a repetição de erros que nos conduziram à bancarrota e ao estado de coma, do qual está a revelar-se difícil sair devido às grandes fragilidades estruturais que a pandemia tem vindo a destapar com maior acuidade, embora já fossem conhecidas de outros diagnósticos.
É significativo o esforço que tem sido feito para evitar a propagação do novo coronavírus entre nós, numa altura em que não abundam os recursos financeiros e, por isso, o país não se pode dar ao luxo de os desperdiçar por entre birras, ciúmes, guerras e protagonismos e soberba, ostracizando outras vozes abalizadas ou ignorando a experiência acumulada em outras crises sanitárias onde, por exemplo, os militares desempenharam papel determinante. Como não deve, igualmente, esquecer as habituais epidemias da malária, da tuberculose e do HIV.
Do mesmo modo, não se deve desperdiçar este momento, em que se somam os números e os exemplos de produtores que estão a procurar contornar a crise, para se abrirem as vias expeditas dos apoios institucionais indispensáveis, sem as conhecidas cargas burocráticas, desde o acesso ao crédito à protecção contra o lobby das importações, passando pelos incentivos fiscais, reparação das estradas, funcionamento dos caminhos-de-ferro e das bases logísticas de conservação e comercialização.
Só assim se conseguirá suportar melhor o impacto que a pandemia da Covid-19 está a ter na economia, muito dependente de factores exógenos - também eles em grande indefinição -, agudizando a crise interna que se arrasta perigosamente para o campo social, onde as famílias e os cidadãos estão a enfrentar cada vez mais privações, pesem os programas de ajuda que o Governo e parceiros têm patrocinado para os mais vulneráveis, quer com as cestas básicas, as transferências monetárias e os gestos de solidariedade da sociedade.
Não havendo um horizonte temporal para o fim da peste nem prognóstico dos seus reais efeitos na economia, impõe-se que os planos sejam o mais cautelosos possível, seja nas metas e consequentemente nos recursos, seja no realismo e objectividade da sua importância.
Tão importante quanto reler e reformular o Plano de Desenvolvimento Nacional para o biénio 2020/2022 ou rever o Orçamento Geral do Estado, importa adoptar assumidamente a política da manutenção, da conservação e conclusão de muitos projectos e obras, ao invés de se avançar para novas empreitadas que podem correr o risco de conhecer o mesmo caminho das anteriores.
O Programa Integrado de Intervenção nos Municípios (PIIM), cujo financiamento está assegurado, deve ser o reflexo desta nova abordagem que visa resolver os problemas da população e das empresas,focada nas acções práticas e funcionais e não mais com os projectos megalómanos que estão transformados em autênticos elefantes brancos, depois de deixarem muita gente com os bolsos bem aforrados.
A construção de equipamentos sociais deve obedecer a um plano e não a um desejo deste ou daquele governante. Deve ser estruturada e não serem actos isolados, embora politicamente correctos, como a construção de escolas, por exemplo, sem ter em conta o número de possíveis alunos ou as indispensáveis conectividades com o abastecimento de água, fornecimento de energia, mobilidade, etc.
Exige-se que os órgãos de supervisão exerçam a sua função, compatibilizando os desejos das administrações municipais com os planos de desenvolvimento nacional e os planos directores das respectivas províncias e fiscalizando as adjudicações, os custos e a execução, por se estar a assistir a discrepâncias assustadoras de preços para obras semelhantes, mesmo descontando as especificidades de cada região.
Não são poucos os casos em que se fica com a impressão que ainda se está no tempo passado recente, tal a fome insaciável que muitos projectos tentam esconder, num ver se te avias em todo semelhante ao anterior, desde o cabritismo à sobrefacturação, nepotismo, etc. Em muitos casos, no PIIM, não seria mais vantajoso concluir empreitadas que estão em avançado estado de execução e que paralisaram pela crise, pela falta de financiamento, do que iniciar novas que podem demorar mais tempo e que, mesmo com a garantia da fonte de financiamento, podem registar qualquer contratempo que impeça a sua conclusão?
Importa, pois, combinar as acções quer no plano sanitário, quer no plano da produção como das metas de desenvolvimento, aproveitando-se essa mobilização que a pandemia da Covid-19 está a gerar para se efectuarem as correcções que as mudanças impõem.

Tempo

você e o jornal de angola

PARTICIPE

Escreva ao Jornal de Angola.

enviar carta

Multimédia