Opinião

Mulher, sempre!

Víctor Silva

No dia em que se assinala a homenagem à mulher, mais que uma efeméride, o mundo regista, com regozijo, o papel único que ela desempenha em todas as sociedades, sejam elas as mais avançadas ou as em vias de desenvolvimento.


Hoje, ninguém ignora a importância da mulher no nosso quotidiano nas suas multifacetadas acções por maiores que sejam os avanços científicos e sociais que podem levar à confusão sobre a sua condição de geradora da vida.
Não se trata de desvalorizar o conhecimento ou as outras muitas funções sociais que desenvolvem no dia-a-dia nas várias sociedades em que estão inseridas, independentemente do seu estágio de desenvolvimento em que há, naturalmente, diferenças que não cabe aqui referir por demais evidentes.
Em Angola convencionou-se designar-se o Março Mulher como reconhecimento dos seus feitos e pela coincidência do calendário que lhe dedica especialmente dois dias, apesar da eventual falta de consenso para uma franja de cidadãos, sobretudo presos a ideologias e teorias de desagregação por que se bateram durante anos e que, ironia da vida, acabou por tornar mais evidente o papel da mulher na nossa sociedade.
O Dia Internacional da Mulher, que nasceu de uma reivindicação feminina nos Estados Unidos da América, logo foi “arrestado” pelos valores revolucionários comunistas e socialistas do início do século passado, acabando por ser adoptado pela Organização das Nações Unidas (ONU) numa clara demonstração de que pouco importa a origem, mas sim os princípios e objectivos.
O mesmo se poderá dizer, internamente, em relação ao 2 de Março, dia consagrado à mulher angolana que alguns querem polemizar, insinuando motivações políticas e ignorando o que realmente importa, que é valorizar a actuação do género nas diferentes etapas da História de Angola, desde a invasão e ocupação colonial aos dias de hoje.
Pode parecer retórica destacar a importância da mulher na evolução da sociedade angolana ao longo dos séculos, desde a resistência à colonização, à luta de libertação nacional e no desafio do desenvolvimento. É evidente que essa luta não se limita às heroínas nacionais conhecidas e por elas assumida como o símbolo da presença feminina em todo o processo de construção da angolanidade. Outras, muitas mais, tiveram protagonismos nessa epopeia que nos conduziu à independência nacional, em 1975, mas o facto de se ter escolhido simbolicamente o 2 de Março não lhes retira importância nem relevo, sendo que a causa se mantém, em diferentes modos, nos dias hodiernos em que, está mais do que provado, a mulher desenvolve uma acção exclusiva que é transversal à toda a sociedade.
Uma luta e um papel que se exalta não apenas nas datas festivas, mas que são sentidos ao longo de todos os dias e anos, seja na igualdade de direitos, que passa pelo seu cada vez maior empoderamento, seja pelo preenchimento de funções sociais a que tem sido obrigada por força da real situação do país, em que, até, estatisticamente são maioria.
A mulher está hoje, como antes, em todas as frentes por mérito próprio e não como apêndice de uma sociedade claramente ainda vincada por um machismo exacerbado, que se escuda, muitas vezes, em tradições que contrastam com a dita “civilização” masculina por onde desfila, garbosamente, a violação dos conceitos que conformam os chamados pecados capitais.
Talvez por isso precise, ainda, de políticas de incentivo e fomento do género que lhe permitam bater-se em igualdade de circunstâncias, sem ter, necessariamente, de recorrer à muleta das quotas e sim impor-se pela meritocracia, a igual que o resto da população, como temos um sem número de exemplos de que nos devemos orgulhar e promover.
As quotas podem ser uma alavanca, transitória, para esse empoderamento da mulher. Ainda assim, não devem ser confundidas com a promoção da incompetência, a inversão do conhecimento e o recurso ao nepotismo ou ao “feminicismo”, apenas para satisfazer dados estatísticos de que as organizações e países gostam muito, sem que disso resultem reais mais-valias para o desenvolvimento das sociedades.
As estatísticas mostram, também, o lado perverso desse papel das mulheres, com a violência doméstica a ganhar contornos que não devem ser atribuídos, apenas, aos instintos possessivos rebuscados nas ditas tradições machistas, mas que encontram muitas explicações na deterioração da estrutura familiar por culpa dos conflitos políticos e militares e pela crise económica e financeira por que passa actualmente o país.
Associando-se à data e sabendo que o tema está longe de esgotar-se em textos jornalísticos, parte da presente edição do Jornal de Angola é dedicada ao reconhecimento às mulheres, sobretudo as angolanas, por tudo o que lhes devemos, numa dívida que nunca será saldada, passem-se os anos que se passarem e cheguemos ou não ao dito Primeiro Mundo. Um suplemento, elaborado integralmente por mulheres e com mulheres, que é a homenagem que brindamos a todas neste Dia Internacional da Mulher!

 

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