Opinião

Não desistamos de nós

Caetano Júnior

Os anos de 1980/90 talvez tenham sido, no pós-colonilização, os mais difíceis para os angolanos e estrangeiros que cedo escolheram o país para viver.

 A Independência estava ainda longe da consolidação e o contexto era de absoluta carência de quadros, de experiência nos diferentes sectores e de conhecimento técnico, científico e geral. A “máquina colonizadora” perdera utilidade, pelo menos no então Ultramar, e a sua inoperância forçara a retirada, para a Metrópole, de quem tinha por missão mantê-la em funcionamento.
Assim, o País que acabava de sair à luz apanhou os seus filhos desprevenidos, embora a Luta de Libertação constituísse um processo necessário, irreversível e calculado e a Independência uma conquista que chegaria, mais cedo ou mais tarde, pouco importassem os encargos. Aliás, a destruição, pela vontade popular, de residências, instituições e estabelecimentos de comércio ilustra bem o despreparo de herdeiros da terra, ao tempo, para o trabalho de reconstrução que se estendia pela frente.
Mas dificilmente seria de outra forma. A potência colonizadora tratou, ao longo dos anos de ocupação, não apenas de infligir castigos corporais e psicológicos aos “nativos”, como também cuidou de os distanciar de quaisquer que fossem os instrumentos que lhes permitissem cultivar o conhecimento. Procurou e conseguiu mantê-los sob as trevas, ignorantes, desconhecedores de tudo o que lhes pudesse ser útil no porvir. Aliás, um povo já pouco instruído e cuja principal preocupação fosse atender as necessidades vitais diárias dificilmente pensaria em obter, por exemplo, um livro ou buscar conhecimento formador.
Portanto, seguiram-se longos anos de gestão do país também por via do empirismo, do senso comum e não necessariamente do saber formalizado, do conhecimento científico. Para piorar, uma guerra fratricida eclodiu, postergando o sonho da reconstrução nacional e da normalização do dia-a-dia. Os tempos acabaram marcados por mortes, doenças, rusgas, profundas carências de bens e serviços, longas filas para a aquisição de bens básicos. Enfim, foram ainda períodos que ficaram na memória também pela angústia de jovens confrontados com a obrigação de incorporar as fileiras dos exércitos em confronto ou tentados a desertar, alguns, e a abandonar o país, outros.
Ao invés da exploração dos abundantes recursos naturais e do aproveitamento de um extenso e fértil solo para a prática agrícola - um entrave imposto pela falta de quadros e pela teimosa guerra-, o país dava a ver mutilados, órfãos, viúvas ou pessoas cujo equilíbrio mental era posto em causa e se endividava com potências estrangeiras que se juntaram ao conflito em auxílio às partes. Era o caos que as gerações subsequentes nunca conseguiriam idealizar, nem que recorressem à criatividade de mestres da ficção.
Hoje, e nos últimos anos, os angolanos continuam a viver provações, embora nada comparáveis às da dimensão que sofreram homens e mulheres que, hoje, no cimo dos seus mais de 45 anos, olham para o retrovisor da vida e se perguntam como sobreviveram a um tão caótico contexto. É verdade que a realidade actual é também de privações e de dificuldades que se acentuam todos os dias. Um quadro ao qual se chegou aos poucos, gradativamente, impulsionado, sobretudo, por uma gestão egoísta e, logo, danosa do erário. Mas não será o fim, como não o foi no período em que até para comprar pão era preciso “madrugar” e contornar o “recolher obrigatório”.
Como tem o condão de fazer qualquer cenário de dificuldade extrema, o desespero começa a ganhar espaço e a afectar quem acredita já não ter forças para resistir mais. Surgem, então, ideias não tão bem amadurecidas e decisões precipitadamente tomadas. O país passa por uma crise económica e financeira, o que acaba por prejudicar a generalidade dos outros sectores. Daí existir quem pense em retirar o voto de confiança que tinha depositado no Executivo e, em posse do seu livre arbítrio, decida o rumo a dar à vida, que afinal lhe pertence, o que, em muitos casos, passa por tentar nova experiência, preferencialmente fora de Angola.
Fica, realmente, difícil aquilatar a viabilidade da ideia de se abandonar o país à mínima contrariedade, à mais pequena ameaça de agravamento das condições de vida. Há sempre muito a perder, mesmo tendo os riscos calculados, no exercício de sair de um ambiente conhecido, natural, para outro, de futuro incerto, desconhecido na sua verdadeira acepção. Ainda mais quando na maior parte dos destinos possíveis esperam-nos condições precárias, degradantes, trabalho duro e mal remunerado. Em muitos casos, são também decisões influenciadas por terceiros, que avaliam o quadro à luz das suas próprias possibilidades e dos recursos que reúnem e não dos meios à disposição de quem aconselham a partir. É importante reter que as adversidades são mais facilmente suportáveis em ambiente familiar.
“As nossas comunidades encontram-se nos limites de uma diáspora de emergência ... Num outro grupo, encontram-se os naturalizados, desarreigados das suas origens ... apátridas, sem documentos e completamente marginalizados no mercado de trabalho.” É assim que o Instituto das Comunidades de Angola no Exterior e Serviços Consulares do Ministério das Relações Exteriores resume a condição geral do emigrante angolano. Dá realmente que repensar a opção pelo desconhecido. Não vão as expectativas sair goradas e o rescaldo mostrar que, afinal, melhor seria ter ficado em Angola. É o que se diz do arrependimento: “vem tarde”.
Portanto, é preciso renovar o voto de confiança no país; oferecer-lhe mais uma oportunidade, para que nos mostre que, com a nossa contribuição, é capaz de se reerguer; de ter forças para se reinventar. Não desistamos de nós! Pelo menos, não já! Porque ao calvário que foram os anos 1980/90 não retornaremos, de certeza. E não há Lei de Murphy que nos faça pensar o contrário.

 

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