Opinião

Não fale com estranhos

Caetano Júnior

As ameaças que emergem nas redes sociais são cada vez mais uma realidade comprovada diariamente.

O perigo já não é uma possibilidade remota, nem o risco calculado, para quem delas faz uso desenfreado e ilimitado, desrespeitando conselhos de peritos ou do “Manual do Utilizador Consciente”. Pior é que até crianças e outros inimputáveis tenham livre acesso ao Facebook, ao Twitter ou ao Instagram, sem que pais, encarregados de educação e tutores receiem, sequer, a possibilidade de serem instrumentalizadas, manietadas, influenciadas ou descaminhadas do sentido no qual as gostariam de ter. Chega a assustar a leviandade com que estes, a quem cabe a função protectora, permitem que menores passem tanto tempo em plataformas digitais, não os inquietando o que estariam eles a fazer, a ver, enfim, a tramar.
Dia sim, dia também, chegam-nos evidências de que os perigos que povoam as redes sociais são maiores do que a nossa imaginação consegue listar. Aliás, estas mesmas plataformas denunciam crimes ali praticados, assim que, por exemplo, taxam como “FALSO” um “post” a revelar determinado evento ou informação. Também neste universo circula a “Fake Chat” (conversa falsa), quando no WhatsApp de alguém é introduzido um diálogo, que, entretanto, nunca ocorreu, entre o proprietário e um interlocutor. Ambos podem até nem se conhecer. São, pois, algumas das muitas manipulações que comprovam as ameaças na Rede e nos obrigam a questionar, sempre e sempre, o que, por esta via, nos entra para o telefone ou para o computador.
Os desmentidos, as denúncias de ocorrências falsas ou de eventos falseados há já muito tempo nos deviam impelir para uma mais detida reflexão sobre o que é divulgado nas Redes Sociais e se estas são mesmo, como muitos querem fazer crer, substitutas da imprensa convencional. Claro que não são! É a resposta, sem que represente uma diluição da importância que têm no contexto actual de comunicação e de informação. As plataformas digitais são veículos “virais” de disseminação de eventos, situações ou acontecimentos, entretanto, nem sempre autênticos. Por isso, carecem de confirmação; de que a veracidade seja comprovada.
As Redes Sociais representam, sim, boa fonte de informação e, em alguns casos, possíveis bases para matérias importantes. Não mais do que isso. Até porque o Jornalismo - o que faz a imprensa - assenta no conhecimento científico, evitando o risco de pretender ser o primeiro a noticiar e de disseminar informação sem critérios editoriais, nem respeito à ética e outros valores. Há, portanto, posturas de usuários destas plataformas que profissional de imprensa algum afivelaria, porque estaria a violar pressupostos que regulam o exercício da profissão.
Em defesa de que interesse, por exemplo, um jornalista se preocuparia, num acidente, em fotografar ou filmar, primeiro, as vítimas encarceradas no interior de um veículo, para logo espalhar as imagens, ao invés de tentar ajudá-las, antes de qualquer outra acção? É um quadro que as Redes Sociais fartam-se de nos oferecer; fotos ou vídeos, muitas vezes chocantes, que nos chegam sem prévia advertência. Nem o direito à informação, nem o desejo de tudo divulgar podem justificar o derrube da ética e da moral ou a quebra de princípios que devem orientar a nossa existência em sociedade.
São males destes, se calhar inspirados no desejo do homem de constranger o seu semelhante ou abrir-lhe feridas profundas, que nos obrigam a ter nas plataformas digitais lugares de frequência curta e de selectiva observação, devido aos imensos perigos que encerram. São, aliás, estes mesmos problemas que fazem cair por terra teorias que as dão como substitutas da imprensa tradicional. Nem munidos de muita boa vontade as conseguimos ver como detentoras de tamanha responsabilidade. Podem até ter a força que se lhes reconhece e capacidade para fazer disseminar um evento - real ou imaginário - a uma velocidade superior à do Covid 19 ... Mas não passa disso.
... A propósito da epidemia global do momento ..., haverá, por acaso, onde encaixar, no jornalismo, a notícia atribuída, segunda-feira, à Angop, segundo a qual a Total encerrava o Bloco 14, “por existir um caso confirmado de coronavírus entre os funcionários”? Esta agência noticiosa carrega uma tradição de anos no exercício do jornalismo, fundado na responsabilidade e no equilíbrio. Não serão, pois, as falsas informações a deturpar tão grato legado, nem a conspurcar uma memória de igual profundidade.
A tentativa de descredibilização da Angop vem no mesmo pacote de "fake news" que já atribuiu ao País casos de morte pelo coronavírus. É a ideia, empurrada por grupos de pressão, de recriar a teoria do terceiro reichista Joseph Goebbels, a da insistência na mentira para que se torne verdade. A intenção, aqui, é, no fim, a instalação do caos, a desestabilização do estado de opinião; é, enfim, fazer prosperar o pânico. Mas também é preciso que abramos os olhos para a desinformação que nos chega travestida de “boa notícia”, como a que nos abstrai da ameaça que é o covid-19, sugerindo-nos, inclusive, que o encaremos com leveza, como se de um vírus inócuo se tratasse. Façamos leituras equilibradas dos contextos e situações.
Mas dos perigos nas Redes Sociais nem a meio vamos. Ardis já atraíram jovens meninas para o calvário da violação e até para a morte, depois de terem combinado, na escuridão dos cabos da Net, encontro com desconhecidos em quem confiaram cegamente. “Não fale com estranhos” parece o conselho apropriado para os dias de hoje. Vivemos tempos que sugerem relacionamentos mais inclinados à maneira convencional; menos ousados no arranque. Se há lugares desapropriados para início de enlace, o sombrio universo das Redes Sociais é um destes.
Devemos, pois, tirar o máximo proveito das vantagens que nos oferecem as novas tecnologias e usufruir, até à exaustão, dos benefícios que são segmentos seus como as Redes Sociais. Não façamos delas algozes das nossas vidas, explorando sobretudo o que têm de macabro, perverso e assustador. Convém que a inteligência do Homem seja usadas em homenagem a ele mesmo. E não para a sua desonra.

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