Opinião

No prevenir está o ganho

Víctor Silva

Era inevitável: o novo coronavírus chegou a Angola pela porta da “importação”, furando o sistema de prevenção que vinha sendo observado no país face ao fenómeno de propagação mundial.

Agora é oficial e não tem nada a ver com rumores e boatos que foram sendo estupidamente disseminados nas redes sociais, como se houvesse um desejo mórbido de termos casos entre nós ou porque, simplesmente, o que está na moda é bater no Governo, não importa o motivo. E nesse exercício mujimbeiro foram ignorados os canais oficiais, sobre os quais não se hesitava em questionar competência e autoridade, como até mesmo os próprios dados da Organização Mundial da Saúde, como se esconder algum eventual caso positivo fosse tornar o Executivo de Angola no mais competente do mundo.
A pandemia do novo coronavírus é um assunto tão sério que não se presta às mais criativas imaginações de conspiração ideológica e geopolítica ou de humor que o tempo cioso da quarentena tem proporcionado, à margem dos números funestos que o vírus está a provocar, com perto de 12 mil mortes entre quase 300 mil casos confirmados em todo o mundo.
Números que estão a fazer repensar o modo de vida das sociedades modernas, até agora viradas para o lucro, o imediatismo, o trabalho e uma enormidade de prioridades que estão a ser postas em causa por uma doença não prevista e que levanta, efectivamente, perguntas sobre os padrões civilizacionais actuais, onde a solidariedade parece um sentimento vago, só surgindo em casos de catástrofes, como esta que está a ser provocada pelo Covid 19.
Para um país como Angola, como para a maioria dos demais africanos, onde a fragilidade dos sistemas de saúde, saneamento básico e educação são mais que evidentes, todas as preocupações são legítimas, porque um surto pode ter consequências devastadoras para o futuro que está a ser construído com muitos atropelos e muito sacrifício.
Há claramente uma debilidade no fornecimento dos serviços básicos e isso é motivo mais do que suficiente para se temer o pior, por incapacidade técnica, infra-estrutural e humana para acudir uma peste desta dimensão. Se em doenças preveníveis continuamos a ter índices assustadores de mortalidade, com a malária a liderar uma lista de causas que passa pela tuberculose, Sida, cólera, febre amarela, conjuntivite, etc, que constituem verdadeiros casos de saúde pública, imagine-se a capacidade de resposta a uma doença, cujas causas e tratamento ainda estão em estudo, mesmo nos países mais evoluídos do mundo.
A prevenção apresenta-se, pois, como o principal antídoto para a propagação do vírus e isso não é apenas tarefa do Governo e dos governantes, mas de todos e cada um. Impõe-se uma linha orientadora e coordenação firme, para que isso se possa observar, tendo em conta o país real, e não se continuar a confundir desenvolvimento com o crescer de arranha-céus na Marginal de Luanda.
Os países que vacilaram nas medidas profiláticas estão a sofrer, de maneira cruel, as consequências e, por isso, vemos que outros não se importam com a impopularidade das acções que estão a tomar, desde a decretação do estado de emergência, de calamidade pública, do recolher obrigatório, à redução da mobilidade, do trabalho, ao encerramento das escolas e dos locais de lazer, etc.
No nosso caso, havia uma ordem clara para manter em quarentena obrigatória todos os passageiros provenientes de países onde já havia número considerável de ocorrências confirmadas. As medidas podem e devem sempre ser ajustadas, em função da dinâmica e da evolução da pandemia. Mas parece que ninguém, da Comissão Interministerial, se lembrou de pegar na calculadora e fazer contas simples, que mostravam que não há na capital (e no país) capacidade para atender tantos passageiros, provocando o caos verificado no Aeroporto e obrigando à alteração, “in situ”, da medida para uma quarentena domiciliária, que tem muito de responsabilidade e consciência individuais, mas não dispensa o acompanhamento das estruturas sanitárias e outras, entretanto, mobilizadas.
Causa ou coincidência, os casos conhecidos são de pessoas que viajaram nesses dias de confusão no Aeroporto, em que os passageiros tiveram de permanecer mais de seis horas, juntos e misturados, em condições desumanas, por descoordenação entre os vários agentes, e à espera de uma solução que tardou a ser tomada, mas que acabou por ser a mesma que, curiosamente, até então vinha funcionando bem. Para dizer que as medidas não devem ter contemplações, nem excepções - que não as previstas no Decreto-Lei Presidencial - nem olhar a nomes ou funções.
O impacto do Covid 19 na economia está a ser arrasador e a reflectir-se, de forma particularmente dura, nas contas públicas nacionais, porque o preço do barril do petróleo vem descendo nos mercados internacionais. A situação vai obrigar, não tenhamos dúvidas, a uma revisão do OGE e ao adiamento de muitos projectos virados à diversificação da economia e ao aumento da produção nacional.
É lapalissada dizer-se que as crises devem ser aproveitadas para descobrir novas oportunidades. Mas, neste caso do coronavírus, seria uma boa oportunidade para se procurar recuperar o tempo desperdiçado com a acumulação primitiva de capital e valorizar ou recriar um verdadeiro sistema nacional de saúde. Apostar fortemente na Educação, no saneamento básico, na distribuição de água potável, na habitação condigna, projectos que se sabe constarem nas prioridades, mas que acabam preteridos por outros sectores, também importantes, mas que, hoje por hoje, não tanto como no passado.
Evitar o pânico e combater, sem titubear, o açambarcamento de produtos e a especulação de preços são tão importantes quanto às medidas profiláticas que devem ser observadas por todos para evitar o cortejo fúnebre que se assiste noutros países.

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