Opinião

Nós, jornalistas

Caetano Júnior

Áreas do conhecimento e do saber profissional em Angola têm, nestes dias, vivido sob permanente escrutínio ou debaixo de apertada vigilância e avaliação. A situação decorre da suspeição quase geral que caiu sobre a competência de quadros e, em consequência, o resultado do trabalho que fazem.

Nos últimos anos, evidências produzidas por jovens acabados de graduar ou por profissionais já com extensa folha de serviço acentuaram ainda mais a desconfiança, o que abriu espaço para o debate, sempre incómodo, sobre a qualidade da formação que se ministra.
Portanto, é uma discussão que aos diferentes sectores e a qualquer profissional deve atingir, por cada um, isoladamente, constituir elemento de um todo que depende do sistema de Ensino e Educação que é proporcionado. Afinal, a generalidade dos recursos humanos de que estão providas as empresas é produzida cá, influenciada pelas vicissitudes por que passam as instituições ligadas à formação e a própria gestão do processo, por quem a faz em nome do Estado.
Por este atalho pode, pois, seguir o Jornalismo, para entrar na discussão, porque também tem, entre os quadros por que responde, quem padeça das mesmas insuficiências que levam a que hoje a qualidade da formação esteja à mesa. E não podia ser diferente! Aliás, a classe não apenas precisa de discutir o nível profissional de quem a representa, como também se deve submeter a auto-avaliação e introspecção, a ver se sai dos lugares-comuns para onde muitas vezes se embrenha, sem parecer importar-se com a ideia que deixa de si mesma: a de um corpo amputado da cabeça, à deriva, em falência.
A ninguém, entre nós, deve agradar o estado para onde levamos o Jornalismo, inadvertidamente ou não. Se de forma premeditada, ainda há tempo para a reversão. E também há como proceder. O que fazemos hoje, nós, jornalistas, é, entre outras enormidades, cavar mais fundo o fosso de eventuais diferenças que nos apartam, quando já seria tempo de buscarmos pontos convergentes o bastante, que nos permitissem seguir como verdadeiros membros de um grupo profissional. Mas não!
Preferimos rotular-nos e dividir-nos ainda entre os “jornalistas da imprensa pública” e os da “imprensa privada”; escolhemos desferir ofensas morais uns contra outros, sem avaliar os custos dos gestos, acções e atitudes semelhantes para a imagem dos ofendidos. Guerreamo-nos, maltratamo-nos, humilhamo-nos, sem perceber que fazemos o jogo de quem lucra com as nossas desinteligências. Há, de facto, quem tire vantagem quando integrantes do chamado “quarto poder” ficam desavindos.
A energia que despendemos a alimentar desentendimentos podia ser usada de forma mais edificante, de maneira mais racional e útil. Gastamos menos tempo a tornar produtivo o nosso trabalho enquanto jornalistas, do que, por exemplo, a esbanjar trivialidades nas redes socais; transportamos para o domínio público assuntos de trabalho, cuja discussão as nossas empresas reservam espaço; fazemos desacreditar pessoas e instituições, em procedimentos que ofendem as normas de uma profissão que juramos honrar; penhoramos a dignidade, no cumprimento de agendas sugeridas por quem tem interesse na matéria e para cuja produção prometemos equilíbrio e equidistância. Em suma, chegamos a subalternizar a nossa real função, a favor de quem se opõe a que determinado facto saia à luz ou de quem nos “convença” a disseminar informações lesivas à imagem alheia.
Portanto, já é tempo de nos perguntarmos por que razão nós, jornalistas, vamos tão mal no nosso serviço ou pouco fazemos para que melhore; por que estará alguém a pensar que pode entrar para a nossa profissão, enquanto não aparece aquela com que sonha; por que será que muita da nova geração quer o emprego e os benefícios, mas é uma luta diária levá-la a fazer o trabalho que o Jornalismo exige. Muito mais nos devia inquietar, sobretudo a nossa falta de moral, a nossa total ausência de verticalidade, quando encontramos normalidade no acto de tomar como nossa a produção escrita alheia. E, por isso mesmo, sabemos, bem no íntimo, que há elogios que não nos assentam; que certo reconhecimento não o merecemos e que acolhemos aplausos que nos deviam envergonhar.
Às tarefas que nos devem engajar podemos juntar a polémica “liberdade de expressão” e o seu parente próximo “direito à informação”, para nos questionarmos se é tudo aceite em nome destes dois termos ou se não se justificaria algum limite, ainda que amparado na moral e na ética. Não é por a lei nos abrir a possibilidade que devemos sair por aí a dizer tudo o que nos apetecer.
Devíamos também parar, reflectir e nos perguntar o que estará a acontecer, para que, mais de 15 anos depois de licenciados, em Angola, os primeiros estudantes de Comunicação e numa altura em que as redacções estão povoadas de graduados, a qualidade e a competência de jornalistas estejam pior do que, por exemplo, há 40 anos e que as referências da classe, em vida, continuem as mesmas e só.
Já se vê que temos muito por fazer. Podemos até começar por conseguir tempo para discutir o futuro da imprensa tradicional e do Jornalismo, agora que as redes sociais parecem adiantar-se a toda e qualquer informação. Na mesma senda, convinha um olhar directo ao perigo que são as Fake News para a realidade das ocorrências, num contexto em que aos “factos alternativos”, habilmente construídos, são conferidos requintes de verosimilhança. E ainda mais quando estão os próprios jornalistas entre quem potencia a informação nestas plataformas.
É hora de começar o processo de higienização do Jornalismo. Retirar-lhe as arestas nocivas e provê-lo do pouco que seja de seriedade, honestidade e utilidade. Responsabilidade maior nesse exercício tem quem leva décadas de profissão; que deve ser exemplo e servir de inspiração.

 

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