Opinião

O contributo possível

Caetano Júnior

Em mãos, o leitor tem uma edição do Jornal de Angola cuja parte considerável da informação jornalística está dedicada ao 27 de Maio de 1977. A data ficou marcada na História do país como de triste memória, porque infaustos eventos alteraram a rotina e mudaram a vida de milhares de pessoas, independentemente do lado dos acontecimentos em que estivessem posicionadas.

O 27 de Maio de 1977 eclodiu num contexto particularmente delicado. Angola tinha alcançado a Independência do colonialista português há menos de dois anos e os esforços de quem governava estavam virados para a consolidação dessa conquista, que representa a suprema aspiração de um povo. Portanto, até os mais ténues sinais de ameaça à integridade territorial e à autodeterminação acabada de alcançar tinham resposta, à época e às circunstâncias, tidas como proporcionais.
Assim se explica que um momento tão significativo para a História do pós-independência de Angola permaneça ainda hoje revestido do rótulo “delicado”. Portanto, ao longo dos anos que se lhe seguiram, o 27 de Maio de 1977 configurou sempre uma matéria tabu, um não-assunto só lembrado em surdina ou partilhado entre pessoas de credos e valores comuns. Mesmo depois de, nestes novos tempos, o Presidente João Lourenço ter afastado algum do manto agoirento que o ensombrava, ao abordá-lo abertamente, nem sempre o assunto sai ou entra sem causar calafrios.
A produção desta matéria acentuou-nos a convicção de que os eventos que há 42 anos abalaram o país, ainda hoje produzem efeitos em muitos de nós, o que é compreensível, à luz das proporções que atingiram. Era ideia do Jornal de Angola reunir o mais extenso contraditório e as versões possíveis, em depoimentos que engajassem pessoas ligadas directa e indirectamente aos acontecimentos. Mas não deu para tanto. Alguns concordaram em se nos juntar, embora, em certos casos, fosse necessária uma maratona negocial; outros mostraram-se irredutíveis no "não", evocando razões pessoais, o que compreendemos, agradecendo, de qualquer forma, a disponibilidade e a paciência que tiveram para nos ouvir.
Propusemo-nos produzir um trabalho abrangente, equilibrado e equidistante, sóbrio como só o âmbito jornalístico. Mas não o conseguimos tão cabalmente; não atingimos a plena felicidade. O nosso objectivo de prestar um completo serviço público por que tanto se clama esbarrou contra outras vontades, guarnecidas no direito, que também lhes assiste, de preferirem o silêncio, de se resguardarem da visibilidade, a mínima que seja. Portanto, em mãos, o leitor tem o contributo possível, alguma claridade que se busca nas trevas em que se transformaram os eventos de 27 de Maio de 1977.
Nas páginas que se seguem, estendem-se textos recuperados de arquivos, em compilações que ajudam a perceber o ambiente que rodeava o próprio dia 27 de Maio e o imediatamente antes e depois. Depoimentos de alegadas vítimas também são trazidos à luz, tal como proferidos, para que se consagre um trabalho que se pretende completo. A estas pessoas não foi, contudo, permitido que apontassem eventuais culpados pela detenção ou pelo calvário que terão vivido na prisão ou onde tivessem sido enclausurados. A narrativa cingiu-se, pois, à experiência pessoal, sem juízos de valores que se repercutissem sobre terceiros, muitos deles hoje, e de alguma forma, indefesos ou avessos à possibilidade de reviver o passado.
Embora comprometido com a narração dos factos, não move o Jornal de Angola o desejo de acirrar ódios e estimular mágoas. O momento aconselha a reflexão sobre as dramáticas ocorrências, para referência futura, na certeza de que a compreensão de contextos e fenómenos potencia a prevenção e o diálogo. O 27 de Maio de 1977 já foi trágico o suficiente para que ainda se socorra dele para se continuar a criar situações passíveis de dividir angolanos. O país já andou fraccionado tempo demais.
É, enfim, expectativa do Jornal de Angola que o material produzido traga as perspectivas necessárias e faça incidir alguma luz sobre o assunto. Independentemente do que resulta da leitura dos textos que se seguem, é convicção deste grupo de imprensa ter feito o trabalho possível, à luz das amarras que ainda condicionam algumas vontades, da harmonia que se busca e da necessária pacificação das consciências.

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