A tribo de actores, actrizes, produtores, realizadores, directores, músicos e outras estrelas mundiais tem sido particularmente abalada por denúncias de gestos, atitudes ou comportamentos que podem configurar assédio sexual.
Em sociedades e contextos do Ocidente europeu e dos Estados Unidos da América, esta natureza de acusações é encarada com demasiada seriedade, daí que os alicerces que sustentam este edifício de glamour ameacem ceder. O manto de suspeição chegou a tal ponto, que acusados acabaram por interromper abruptamente a carreira e viram ruir o universo que acreditavam ter sob os pés e desvanecer-se a aura de endeusamento. É extensa a lista de figuras colhidas na trama. Os nomes vão de Alain Delon a Plácido Domingo. Pelo meio, a notável Asia Argento. Alguns dizem-se vítimas de perseguição; outros, ao que parece, não se deram conta do que faziam. Outros ainda fecharam-se num silêncio sepulcral ou se declararam inocentes. Há também quem não assuma responsabilidade sobre os factos que lhe são imputados, embora reconheça “algum excesso” nos gestos que deram origem às queixas. Uma coisa, porém, é certa: há culpados. É, entretanto, nos “excessos” que habitam alguns dos principais questionamentos que regam os casos. Plácido Domingo, o tenor espanhol e mais recente alvo das acusações, deixou uma afirmação que dá que pensar: “Em alguns sítios, não se pode dizer nada a uma mulher”. Perfeito! Há, realmente, lugares no mundo onde somos levados a avaliar mais detidamente o que dizer, quando nos dirigimos a uma mulher. O mais inocente elogio, por mais digno de um homem educado que seja, é susceptível de encontrar uma dúbia interpretação e o cavalheiro receber em troca uma acusação de assédio sexual. E a região do mundo onde ocorrem as situações agora trazidas à luz é o melhor exemplo. Aqui, talvez seja quase tudo avaliado excessivamente. Estas recorrentes denúncias de abuso sexual obrigam, pois, a que se traga de volta a velha questão do elogio ao sexo feminino, se não lhe deve ser dirigido, independentemente do tom das palavras e do eventual gesto que as acompanham. Cá entre nós, africanos, de um modo geral, e angolanos, em particular, elogios à beleza feminina, sobretudo em palavras (também há gestos), são comuns, recorrentes. Aliás, ela, o alvo dos galanteios, quando não os ignora, chega a agradecê-los, muitas vezes com um largo sorriso. Muito dificilmente as africanas, angolanas em particular, se melindram por um piropo (a título de curiosidade, em Portugal é crime). O pior que pode acontecer, na situação de um despropósito capaz de as deixar desconfortáveis, é dirigirem algumas favas ao “atrevido” e darem o caso como encerrado. Não
significa, porém, que não haja, entre nós, atentados à honra, à dignidade e à figura da mulher. Há-os, embora nem sempre os ofensores sintam as consequências desses gestos desrespeitosos. E muitos de nós sequer se lembra já de terem sido grosseiros para com senhoras. Portanto, a perspectiva sob a qual o fenómeno é avaliado num ou noutro contexto ou lugar tem também a ver com realidades culturais, hábitos e até com a profundidade das relações interpessoais. Entre nós, africanos, angolanos em particular, a proximidade gera empatia e o “desconhecido” não é necessariamente aquele para quem o europeu ocidental chama a atenção, quando aconselha a não falar com “estranhos”. A Sociologia e a Antropologia explicam especificidades assim, nas relações humanas, e os distintos comportamentos entre povos. De qualquer forma, mesmo na Europa Ocidental e nos Estados Unidos da América, este manto de acusações de abuso sexual não apenas é órfão de unanimidade, como também encontra resistência, sobretudo - o que é curioso - de segmentos do sexo feminino. Um grupo de senhoras, encabeçado por uma actriz, chegou a questionar as motivações do #MeToo, o movimento que iniciou e incentivou o coro de denúncias. Para quem se lhe opõe, o fenómeno é susceptível de inibir os homens, mantendo-os longe das mulheres, o que as deixa sem hipótese de iniciar uma relação amorosa. Por outro lado, inquéritos mostraram mulheres que não se importavam nada de receber elogios na rua, desde que fossem feitos dentro dos limites. Mas nada parece conter o clamor de denúncias. Nem mesmo as alegações segundo as quais algumas têm sustentação em eventuais ódios, rancores ou recalcamentos de alegadas vítimas. Pode, por isso, tratar-se também de situações de certo oportunismo, de busca de vantagem no que é alheio, nas possíveis vítimas de calúnia. É assim no mundo do entretenimento, do glamour, da fama e do dinheiro que parecem não ter fim. Mas também o é nos países que se batem por fazer vingar os padrões sob os quais sempre se alinharam. Afinal, é preciso manter a convicção. Há pessoas que não a podem perder, sob o risco de, se o fizerem, tirarem a esperança de todas as outras. Quanto a nós, africanos, angolanos, em particular, talvez deva permanecer como está. Desde que alinhemos nos marcos da decência e no respeito que ela nos merece, exaltar a beleza da mulher pode ser o caminho mais curto para renovar-lhe a auto-estima.