Opinião

O embrião

Caetano Júnior

Angola é terra de criadores e disso nunca tive a mais ténue dúvida. A criação está, invariavelmente, associada à inteligência, ao pensamento, que são a ignição para que inventos conheçam a luz do dia. Um slogan que nos invadia a casa, através da Rádio Nacional de Angola, nos idos anos 1980, tempos em que o jornalismo em Angola era mais sóbrio, apesar de condicionado por factores ideológicos, dizia: “quando o homem pensa, o mundo pula e avança, como uma bola colorida, entre as mãos de uma criança”.

Ao tempo, nunca cheguei a parar para reflectir sobre a profundidade do enunciado do parágrafo anterior. Aliás, sequer tinha competência intelectual para o fazer. Ainda assim, sentia inusitado fascínio pelo axioma, de tal modo que o memorizei por décadas e hoje o derramo sobre o texto, também em jeito de homenagem.
O adágio refere, exactamente, o impacto da imaginação do ser humano sobre o meio que o envolve. O homem é um inventor, um vasculhador, enfim, um inconformado por excelência, capaz até de recriar o que parece perfeito. E, aqui, reentra na conversa a capacidade de criação dos angolanos, que evolui ao longo da  história da sua própria existência. E não faltam exemplos que atestam esse "senso criador" que lhes corre no sangue. Supérfluo seria, portanto, o exercício de os enumerar.
Mesmo em tempos mais difíceis, de verdadeiras provações, os angolanos  souberam, sempre, fazer recurso à inteligência, à criatividade ou à capacidade que têm de se reinventar, para, assim, resistirem. Até à tolerância, à compreensão e ao perdão recorreram. Quer em cenários políticos ou militares, económicos ou sociais, os desafios foram sempre encarados de forma corajosa. E, desta vez, não será diferente.
De facto, vivem-se, hoje, tempos de transição, depois da eleição de João Lourenço para Presidente da República. Para trás, vão anos da governação de Eduardo dos Santos, dos quais ficaram práticas que também podem ajudar a iluminar o caminho que se abre pela frente.
O processo de transição mal começou, É, portanto, um embrião, que, de facto, “corresponde ao estágio inicial do desenvolvimento de um organismo”, como o define a ciência. E precisa de ser cuidado, para que se desenvolva e ganhe vida. Deve, igualmente, merecer a atenção dos elementos que o circundam, que, em esforço conjunto, o tornarão vigoroso e resistente a factores de risco, que, não poucas vezes, fizeram ruir projectos virados para o bem colectivo. 
É, pois, uma vez mais, chamado o senso de justiça e de equilíbrio dos angolanos, para este momento particularmente delicado. À prova é, de novo, posta a sua inteligência. Mentes divisionistas tendem a semear a discórdia no seio de pessoas que, embora possam ter opiniões contrárias sobre determinado assunto, seguram o mesmo lado da corda, olham para a mesma bandeira; comungam, enfim, os mesmos ideais.  
Os apologistas da desagregação devem conhecer que causa maior não existe, senão Angola, que se abre para um amanhã que se pretende uno e inclusivo. Uma Angola que congregue todos e onde filho algum deixe de sentir o seu carinhoso amplexo.
Ainda bem que se vive em ambiente de Natal, para ajudar a alicerçar o conceito de família e de unidade, que palavras, gestos e atitudes secessionistas procuram minar.
       

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