Opinião

O essencial do acessório

Caetano Júnior

O Primeiro-Ministro de Portugal cumpriu, há poucos dias, uma visita oficial a Angola. A viagem de António Costa ajudou a descomprimir o ambiente, carregado de tensão, que caracterizou a relação entre o país ibérico e o da SADC, nos últimos sete/oito anos. Não havendo como o prover de modo mais concebível, esse hiato foi preenchido com equívocos, mal-entendidos, omissões, enfim, com o cognominado “irritante”, num conjunto de situações que puxaram para trás décadas de investimentos num relacionamento que se pretendia harmonioso e de benefícios recíprocos.

Independentemente do que terá concorrido, de facto, para o esfriar das relações entre os dois países e para o decorrente tempo perdido na implementação de eventuais parcerias que estivessem na agenda no momento em que se deu a ruptura, a verdade é que ficaram para trás oportunidades únicas; janelas de possibilidades agora irrecuperáveis. É como a água do curso que faz o rio: pode-se tirar proveito da seguinte, nunca da mesma.  
E o rescaldo da visita de Costa ajuda a compreender a dimensão dos prejuízos que causou o tempo de espera por uma solução que dirimisse, definitivamente, as diferenças que separavam Portugal e Angola: são onze os acordos assinados, entre os quais sobressaem o de cooperação estratégica, para o quadriénio 2018/2022; o que regula as dívidas a empresas portuguesas e o que coloca fim à dupla tributação nas transacções comerciais, sem falar já do que define o aumento do número de voos entre os dois países.
Se formalizados, por exemplo, há cinco anos, os entendimentos ora rubricados já teriam produzido efeitos práticos na vida de cada um dos países. Muito provavelmente, mais investidores portugueses teriam apostado em Angola e empresários angolanos seriam hoje, com o auxílio de homólogos locais, detentores de um conhecimento mais vasto e realista sobre a melhor estratégia para fazer aplicações em Portugal. 
Por outro lado, se a assinatura dos acordos tivesse sido consumada mais cedo, depois de tantos anos, inúmeros obstáculos à implementação de procedimentos que, por exemplo, agilizam o investimento, a importação e a exportação teriam sido, de certeza, removidos e o intercâmbio encontraria campo aberto para fluir. Sem falar sequer de outros ganhos que protocolos de cooperação rubricados no tempo devido propiciam, particularmente na área social, sendo exemplos a Educação e a Saúde.
Ainda bem que voltamos, cidadãos de Angola e de Portugal, a testemunhar o aperto de mão entre os respectivos chefes do Governo, no território de um deles. Um gesto formal, mas de transcendente significado, porque sela a retoma; porque abre a porta para o retorno à normalidade nas relações entre países, cujos laços históricos e até culturais têm as raízes enterradas num passado comum, tão forte e presente que as desinteligências entre os homens são insuficientes para as remover.
Num repente, o ambiente nas relações oficiais entre ambos os países começa a desanuviar; a crispação que o descrevia perde espaço, fica para trás, abrindo oportunidade para o necessário clima de optimismo e confiança. Na conferência de imprensa conjunta com o Chefe de Estado angolano, no Palácio Presidencial, o Primeiro-Ministro António Costa disse que as visitas de alto nível político dos dois lados “têm de ser intensificadas” e “retomarão o seu ciclo normal”.
E é mesmo de um “ciclo normal” de que está necessitada a cooperação Portugal/Angola; de viagens constantes, num sobe e desce interminável, que dê ímpeto à negociação, ao diálogo, ali onde se vislumbre a mínima possibilidade de ganhos conjuntos. Nações como estas duas, com um passado impossível de ignorar, porque volta e meia assoma, para fazer cobranças, devem estar unidas na causa e na necessidade, sempre que comuns. Pensar o contrário é uma ilusão que não tem como ser alimentada. Portanto, urge aproveitar o tempo. Para tanto, há que prevenir incidentes susceptíveis de hipotecar acordos mútuos, de travar projectos bilaterais ou anular  anseios de toda uma Nação. 
Também é preciso reforçar a tolerância e o respeito que devem prevalecer entre países. A cooperação merece ser feita sob o mesmo substrato; sem senhores, nem vassalos; sem chantagem, nem exigências que só encontram sustentação na arrogância. O passado recente pode servir de conselheiro neste novo caminho que Portugal e Angola desbravam para o futuro a dois. 
... Um porvir que as jeans de António Costa são incapazes de atrapalhar, por representarem uma gafe menor, no caso de assim configurar; uma ligeira quebra de protocolo. Neste novo contexto da cooperação, é muito importante, como diria Manuel Carvalho, do jornal Público, “distinguir o essencial do acessório, o fundamental do supérfluo”.

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