O sacrifício alheio e a liderança

José Ribeiro |
19 de Fevereiro, 2017

No filme “O Resgate do Soldado Ryan”, o capitão “Ranger” John H. Miller tem a pesada missão de comandar um pelotão para encontrar o único de quatro irmãos que não tinha perecido na II Guerra Mundial, e levá-lo para a retaguarda.

O alto comando dos EUA achava que era demais para uma mãe ficar sem o único filho que sobrava. Ferido de morte, cumprida a missão com grande sacrifício, com todo o pelotão destroçado, Miller diz, antes de morrer, para um soldado Ryan finalmente encontrado, entre os escombros de um combate intenso para o salvar: “– Faz, pelo menos, por merecer isto”. Durante a II Guerra Mundial, também Winston Churchil homenageou de maneira sublime os pilotos britânicos que salvaram o Reino Unido de uma invasão da Alemanha de Hitler: “– Nunca tantos deveram tanto a tão poucos”.
Numa altura em que se recordam os duros anos da II Guerra Mundial e quando os tambores da guerra soam em algumas partes do mundo, nunca é demais lembrar o significado do sacrifício alheio. Nós, angolanos, vivemos a nossa experiência, e hoje aconselhamos a outros sobre como a evitar. Muitos angolanos passaram maus bocados durante o conflito. Para que fosse possível derrotar o regime do apartheid e alcançar a paz na África Austral, também muitos estrangeiros deram a sua parte. Muitas mães choraram a perda dos filhos ou viram-nos cair na incapacidade física ou mental. Foram estes heróis que permitiram a vida pacífica que hoje temos. Sem o seu sacrifício seria impensável viver melhor do que hoje se vive. Mesmo com a “crise”, nada se compara aos tempos antigos. Todos devemos um bocado do pedaço de pão que comemos àqueles bravos capitães e soldados angolanos que trouxeram Angola para uma nova era.
É duro ver quem ofende a memória desses angolanos que venceram o medo e a descrença e, em nome do interesse comum, entregaram-se de alma e coração à luta pela paz. Daqueles que apostam na violência como solução para os problemas, é natural o sentimento de frustração, e não espanta que ignorem o que foi feito e, mais do que isso, tentem estragar tudo. Entre eles estão certamente os que continuam a usar a arma da intriga. A prática corrente consiste em repetir a visão de descrédito nos africanos, em fazer crer que África é um continente perdido e que nada vai mudar com a obra que se vê aqui e ali. Para eles, em África está tudo decidido, quem organiza as eleições é quem ganha, a corrupção vai continuar, tem de haver alternância, os melhores estão em S. Tomé e Príncipe e em Cabo Verde, e os piores em Angola. Embora se saiba que os países dos exemplos nunca passaram por uma guerra destruidora e têm talvez problemas económicos até mais graves do que os de Angola. Custa mais ouvir tanto  pessimismo e tanta tentativa de divisão quando vinda de sectores cuja função devia ser, em princípio, transmitir esperança aos homens.
A evolução democrática de Angola é um facto. Há dez anos, quando se realizaram as primeiras eleições depois do final do conflito militar, houve quem duvidasse da vontade do Governo em ir às urnas. Houve mesmo quem fizesse a estatística das notícias sobre eleições que saíam nos jornais, para medir a coerência governamental entre palavras e actos. O Governo provou que não receia as eleições e voltou à votação em 2012. As notícias dão um imenso rol de cifras e o ciclo eleitoral é imparável. A opinião, essa, cobre um espectro vastíssimo. As calculadoras devem estar cansadas de tanta cobertura eleitoral. Corre mesmo por aí a anedota de uma alta figura da UNITA que, estranhando tanta transparência mediática, enviou uma SMS para um dirigente do MPLA queixando-se de a comunicação social estar a ser demasiado “democrática”. Alguma coisa se passava, será que a linha do partido no poder tinha mudado? – perguntava o dirigente da oposição.
Angola está agora num momento politicamente novo e interessante de acompanhar. Depois de tantas décadas de turbulência, o país está hoje a fortificar as bases de uma economia que precisa de crescer e aguentar as oscilações do mercado. Mas a oposição está entretida em discutir se o processo que o país vive é uma “sucessão” ou uma “transição”. Entramos assim em mais um daqueles debates académicos, retóricos, cíclicos e estéreis. Até parece brincadeira. Vamos ver quem diz a maior asneira.
É evidente que a transição começou há muito. À frente das mais importantes instituições nacionais, do Tribunal Constitucional ao Banco Nacional de Angola (BNA), dos Ministérios aos Governos Provinciais e Universidades, das grandes empresas públicas e privadas às organizações da sociedade civil, está hoje uma geração de jovens quadros angolanos formados e forjados após a independência. Esses são os factos de uma transição, de uma sucessão, de uma mudança, de uma transformação, chamem-lhe o que quiserem, mais longa do que devia por culpa de Savimbi. Mas é preciso acrescentar que nenhuma outra força política, a não ser o MPLA, seria capaz de a concretizar. Entender a fase que Angola está a viver apenas como um acto isolado, desligado de todo o passado e da experiência de governação vivida em Angola é de pessoas curtas de perspectiva ou intencionalmente desonestas.
Essa longa e dura transição foi feita por homens e mulheres, mas teve a dirigi-la uma liderança política bem sucedida e historicamente indesvalorizável, encarnada no Presidente José Eduardo dos Santos. A responsabilidade de quem o vai suceder nas eleições legislativas e presidenciais de Agosto é dar continuidade ao projecto de construção nacional que foi lançado. As ideias expostas ontem no Lubango pelo Vice-Presidente do MPLA, João Lourenço, durante a sua apresentação pública como candidato do partido à Presidência da República num comício bastante concorrido, dão uma garantia de consolidação do caminho de paz, estabilidade e crescimento nacional, porque nesse âmbito há renovadas propostas e soluções.
O  Jornal de Angola vai publicar na próxima quinta-feira mais um interessante suplemento sobre “Liderança”, com colaboração do Professor Amândio Vaz Velho, aquele que é provavelmente o maior especialista angolano em assuntos de Gestão e Liderança e que já brindou os nossos leitores com os temas “Como Constuir uma Angola Feliz” e “Ciência, Liderança e Espiritualidade – Uma Abordagem Integral para o Desenvolvimento de Angola”. No Suplemento, o Professor define liderança como “o processo de mobilização colectiva para um propósito mútuo”.  A transformação verificada em Angola deveu-se precisamente a uma liderança inclusiva. Houve que acreditar e fazer acreditar no objectivo comum da coesão nacional e na capacidade dos angolanos. Houve que mobilizar os recursos necessários. Houve que orientar. Houve que vencer e houve que assegurar a tranquilidade e a diversidade.

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