Opinião

O teste da transição e da crise económica

José Ribeiro |

Os resultados provisórios das eleições de 23 de Agosto apontam para significados que importa ler com rigor e isenção. A primeira conclusão a extrair das eleições é que existe, de facto, uma democracia em Angola.

As variações nos resultados revelam que a democracia angolana está a consolidar-se. O exercício do direito à liberdade de expressão e de escolha dos dirigentes dos órgãos do poder político em Angola está em pleno funcionamento. Ninguém impede esse exercício dentro dos príncípios básicos e universais da democracia e do primado da lei.
A forma absolutamente livre como os maiores opositores ao partido no poder em Angola puderam realizar a sua campanha eleitoral por todo o território, sem qualquer tipo de constrangimento ou transtorno, mostra que a tão falada ditadura angolana que reprime recorrententemente as manifestações da população, como noticiou amplamente a agência France-Presse nos últimos dias e tem sido amplificado pelas elites portuguesas corruptas e mal informadas, de modo a interferirem no pleito angolano, não existe. É apenas uma expressão para ganhar audiência e insultar.
O modo consciente como os milhões de eleitores se dirigiram às Assembleias de Voto para depositarem o seu boletim de voto nas urnas, qualquer que fosse a distância do seu local de residência, havendo informação de casos de eleitores que não se importaram de se deslocar de província para província para votar, revela a maturidade do povo angolano, em particular como povo informado sobre o que se passa no seu país e que lida bem com o exercício da democracia.
É de reconhecer, nisto tudo, a disponbilidade formidável como os angolanos, em primeiro lugar os quadros políticos, se manifestam para a participação na vida política e na transformação social. Depois do grande engajamento na defesa do país e na conquista da paz, isso foi uma vez mais expresso nestas eleições.
Desta vez, o desafio que esteve em causa para os angolanos no dia 23 de Agosto foi claro. Tratava-se de saber se o partido que construiu a independência, defendeu a integridade territorial e fez a paz e a reconciliação nacional iria resistir ao teste de uma transição política associada a uma crise económica repentina e sem os amortecedores totalmente afinadospara a enfrentar.
Os resultados provisórios divulgados ontem pela CNE, que dão uma vitória eleitoral ao MPLA, com uma margem acima dos 65 por cento, provam que esse teste da transição e da crise foi superado, de forma brilhante pelo grande e histórico partido angolano. Com essa vitória, o MPLA confirma não só a sua forte implantação e simpatia popular em todo o território angolano, de Cabinda ao Cunene, como também que é capaz de vencer na adversidade.
O maior partido da oposição ao MPLA, a UNITA, que não consegue mais do que 25 por cento dos votos expressos nas urnas, não foi capaz de vencer o MPLA em 1992, com a liderança do fundador e chefe rebelde Jonas Savimbi, durante o período de conflitualidade militar. Agora, com Isaías Samakuva e os seus melhores quadros de propaganda, nas condições de uma clarificação da democracia e, mais significativo ainda, no contexto de uma economia plenamente sacudida pela crise financeira, a UNITA prova não ter capacidade para vencer.
Com a ascensão da CASA-CE, e se vier a verificar-se, a curto prazo, o crescimento de Angola sustentado pela diversificação económica, se a UNITA não mudar, muito dificilmente poderá o partido do “Galo Negro” conquistar alguma vez o poder em Angola.
Com a vitória por maioria qualificada, em tempo extremamente desfavorável, o MPLA mostra que a simpatia e adesão sólida do eleitorado que detém ultrapassa qualquer conjuntura económica, origem social ou regional. Isso é visto em todas as praças eleitorais e é um sinal para o futuro.
Uma informação interessante de obter será, com certeza, saber qual foi a tendência do voto feminino e juvenil. Ausente dos resultados provisórios divulgados pela CNE, gera alguma expectativa saber como votou a mulher angolana, já que a maior parte dos comícios eleitorais ela esteve sempre à frente. Além disso, a maior organização de massas angolana, a OMA (Organização da Mulher Angolana), apesar de ser o braço feminino do MPLA, agrega mulheres dos vários segmentos sociais e políticos da sociedade angolana.
Para se conhecer a dimensão da variação democrática em Angola, há que esperar por mais alguns dados. Para já,  o teste da transição e da crise económica foi ultrapassado com estabilidade.

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