Opinião

Os degraus da violência

Caetano Júnior

Nunca, como agora, a violência doméstica foi tão amplamente discutida, sobretudo a que tem a particularidade de se abater sobre a mulher, conhecida como a de mais drásticas consequências. De repente, invade-nos a impressão de que a sociedade acordou para um dos mais graves problemas que a apoquentam e o discute despida de tabus, sem preconceitos, nem falsos moralismos. Afinal, a realidade diária de muitas mães e esposas é tão sangrenta, que alerta para o debate, para a conversa franca, na avaliação das razões que alimentam conflitos - nem sempre entre quatro paredes - desagregadores de famílias.

A violência doméstica é tão velha como a própria humanidade. Portanto, as situações que a fundamentam ou as particularidades que a propiciam nasceram com o Homem, da interacção diária, da necessidade de se completarem, da urgência em se compaginarem, em processos, porque nem sempre bem geridos, passíveis de incompreensão mútua, logo, propensos a ruptura.
Porém, dos primórdios da existência do ser humano, aos dias de hoje, o problema ganhou outros contornos, porque ficou alterada a perspectiva como era estimada. As sociedades converteram-se ao civismo; aos deveres fundamentais, à vida em comum. Os povos assumiram o compromisso com a preservação da harmonia e do bem-estar colectivo. Embora tenha o seio familiar como elemento, a violência doméstica dissemina as consequências que produz para a vizinhança, para o meio que envolve o agressor e a vítima; é um assunto que transcende o simples âmbito de um lar e passa para o domínio da comunidade, da sociedade. É, pois, nesta perspectiva que agora é encarada.
Hoje são outros os tempos e obrigam a que se avaliem os fenómenos sociais mais internamente, sobretudo aqueles que influenciam de forma directa a vida das pessoas. O recrudescimento de casos de violência doméstica, por exemplo, já não pode ser analisado na mesma perspectiva do passado. Nestes dias de franca abertura, as sociedades, as famílias, de um modo geral, denotam um maior nível de esclarecimento, sobretudo, no espaço urbano. Por isso mesmo, esperava-se que as mulheres tendessem a desencorajar nos parceiros gestos e atitudes que indiciassem o mínimo laivo de agressão que fosse, física, moral ou psicológica.
A insistência na mulher é intencional e atende o facto de representar a principal vítima nas assustadoras estatísticas. E a queda da tendência delas muito depende. Por outro lado, como mães e principais “influenciadoras” na construção da personalidade dos meninos de hoje e homens do amanhã, assiste-lhes, igualmente, a responsabilidade de ajudar a formar cidadãos mais tolerantes e menos violentos.
Dificilmente um acto de agressão física é o primeiro na hierarquia da violência doméstica. Começa tudo por baixo, à entrada do degrau: um elevar da voz, um grito, uma ofensa psicológica, outra moral; um pequeno empurrão, se calhar, um pedido de desculpas... A situação seguinte confirma a gradação: um empurrão mais forte, uma bofetada, um soco ... Pronto, é o topo do degrau. O agressor tem o caminho aberto e é um potencial assassino.
A violência doméstica é um acontecimento dinâmico, que, inicialmente, passa despercebido à vizinhança, aos familiares da vítima, à sociedade e ao mundo. Quem sofre com esses crimes hediondos sequer tem noção da gravidade que representam. Se deles tivesse realmente consciente, fá-los-ia parar e de forma simples, com uma denúncia ou, no que é um extremo da medida, com o fim do enlace. Aliás, ainda na base da relação, no namoro, é possível começar exercícios de prevenção para um futuro harmonioso a dois.
A ideia não é responsabilizar a mulher por actos criminosos que têm no parceiro o algoz; a intenção é chamar a atenção para o desprezo que ela dedica aos sinais com que cruza em diferentes contextos e circunstâncias ao longo da relação. São alertas que, se atendidos, a despertariam para a iminência do perigo. A união conjugal impõe, também, que se revejam prioridades e se reavalie o conceito de família; obriga à reflexão se vale a pena insistir numa ligação perigosa ou se compensa o risco masoquista de se deixar adormecer ao lado de um potencial assassino.
Se é um imperativo a batalha que se deve travar para preservar a família e o casamento, também o é a salvaguarda da vida, ainda que esta implique o fim do enlace matrimonial.

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