Opinião

Os “iluminados” das crises

Víctor Silva

As redes sociais são hoje um fenómeno de comunicação que acentuam o carácter democrático das sociedades, onde ela é permitida sem restrições, pois à velocidade de um clique podem atingir os mais diversos fins, dos bons aos maus, das verdades às mentiras, da intriga e da calúnia, ao do elogio à exaltação.

É lá que temos lido com alguma insistência que estamos a atravessar “tempos difíceis”, para sintetizar o ror de problemas por que passa a maioria dos angolanos, com dificuldades crescentes no seu dia-a-dia, face uma economia que tarda a reganhar fôlego, tais os desequilíbrios que apresenta.
São, efectivamente, tempos difíceis os que vivemos actualmente, onde o nível de vida das populações tem vindo a seguir a tendência baixista que vem de trás e não se pode inverter da noite para o dia.
Em economia, não há milagres e por isso as medidas que têm sido tomadas para a estabilização macro-económica nem sempre apresentam os resultados no tempo e espaço que as necessidades exigem. Porque, na realidade, havia uma falsa ideia de crescimento que, como se está a ver, não passava de mera propaganda, porque à menor gripe ou resfriado a economia mostra que estava assente em pés de barro.
As dificuldades que a maioria dos angolanos vive hoje são reflexo dessa imagem fantasmagórica do “estamos sempre a subir”, quando, na realidade, os indicadores de desenvolvimento humano provavam o contrário, contrastando com a crescente fortuna de uns tantos privilegiados que se apoderaram, literalmente, dos principais recursos financeiros e económicos do país, em benefício próprio, para hoje se apresentarem como empreendedores e fomentadores do emprego que roubaram a muitos milhões, para não falar das muitas vidas que se perderam pela ineficácia do sistema de saúde, por desvio de fundos, dos milhões que não podem ir à escola e, logo, sem condições de competir em igualdade de circunstâncias, dos sem abrigo e dos que se vêem forçados a migrar para as grandes cidades, porque o interior foi pura e simplesmente esquecido nos belos e brilhantes programas que pomposamente eram anunciados.
É verdade que a mudança trouxe grandes expectativas quanto à solução dos problemas básicos dos cidadãos e das famílias. Como dizia o escritor nas suas cartas à prima: pior do que estava já não podia! O país vive uma transição com mudanças profundas em todas as áreas e sectores e é dos livros que nem todos se revêem nelas e há quem lhes faça resistência, por estar a ver os interesses beliscados e a perder os impérios que foram construindo sob um chapéu divino que, por omissão e inacção, levou a que muitos outros se acaparassem impunemente dos bens públicos.
Quando nas redes sociais se destacam os “tempos difíceis” não se resumem apenas às dificuldades das populações e às carências de bens básicos. Fala-se também numa pretensa crise política, derivada do facto de alguns da resistência estarem a ser incomodados pela justiça, respondendo por suposta má gestão dos bens públicos, logo eles que se consideravam acima da lei. Como está bom de ver, é maioritariamente dentro do MPLA e arredores, enquanto partido no poder desde a Independência, que se encontra parte das responsabilidades no estado de situação a que se chegou.
Mas foi precisamente ao fazer mea culpa que o MPLA decidiu promover as mudanças, com o slogan “corrigir o que está mal e melhorar o que está bem”. A realidade está a mostrar que o mal é mais profundo do que qualquer previsão mais pessimista pudesse vaticinar e que, sem reequilibrar a base, dificilmente se poderá chegar a resultados noutras frentes.
Pretender atribuir responsabilidades sobre o estado do país às novas autoridades, sob o argumento de que o passado é para ser enterrado e o que conta é o momento, é querer passar uma borracha que todos abraçaríamos, se não conhecêssemos a herança dos últimos anos da governação, que deixaram o país de tanga, como diria a voz popular.
Esse acto de fuga pra frente, insistindo na existência de uma crise política no partido no poder, a que se junta agora uma crise de governação, não é mais do que uma manifestação de desespero dessa marimbondagem que procura, a todo o custo, descredibilizar as novas autoridades e as políticas que têm sido gizadas. Esquecem-se das suas responsabilidades na situação que se vive actualmente e vão alimentando a tese da crise política para fomentar a instabilidade.
O caricato é que o fazem às claras (e as escuras também), sem que alguém os perturbe, gozando da legitimidade dos direitos, da liberdade de expressão e informação, que antes negavam à maioria dos angolanos.
A oposição tem sido atirada às cordas, perdendo nas iniciativas de propor alterações ao quadro encontrado. Por isso, não estranha que torça para que as políticas do Governo fracassem para daí tirar dividendos em próximos actos eleitorais. E, nesse capítulo, ganhou visibilidade um “orador de serviço”, que muda de fato e tem apetites bem definidos, mas que, masoquistamente, reprime, que se apresenta como salvador da pátria, imitando um iluminado que se julgava o predestinado a Messias.
Para seu desalento e dos que insistem na crise política e de governação, as mudanças vão continuar, pois atingiram o ponto de não retorno.

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