Opinião

Os Johns que nos fazem sentir orgulho de Angola

Caetano Júnior

Angola tem, na cultura, um enorme potencial, cuja diversidade resulta, também, da vastidão do seu território e da heterogeneidade dos povos - detentores de hábitos, usos e costumes que variam de lugar para lugar.

À medida que localidades se abrem ao mundo e conhecimentos sobre determinadas realidades saem para a luz do dia, os valores que fazem deste país um espaço culturalmente rico também emergem. Hoje, conhecemos práticas em determinada região, tomamos contacto com rituais de um grupo étnico ou ouvimos cantares dos povos de um certo lugar.
São, portanto, viveres nossos, que acabam por nos ir sendo revelados. São, também, manifestações que nos ajudam a nos conhecermos, enquanto angolanos, e nos fazem reforçar o sentido da unidade nacional. Encontramos e juntamos o de mais profundo que existe nos lugares recônditos do nosso espaço geográfico - qual peças de puzzle -, para então irmos consolidando a angolanidade, essa ideia de sermos “unos e indivisíveis”.
A colonização privou-nos, por séculos, do conhecimento sobre quem realmente somos e de desfrutarmos da imensidão das nossas tradições. Mas a Independência proporcionou-nos a oportunidade de resgatarmos os valores que quase íamos perdendo. Agora, só depende de nós encontrá-los, mostrá-los, divulgá-los, preservá-los, enfim, tê-los orgulhosamente nossos. Até quem menos se identifica culturalmente connosco tem-nos e, muitas vezes, exibe-os, como se fossem seus. São bens identitários de um país, mas lançados como sementes para que o Mundo deles também usufrua. Afinal, a partilha de conhecimentos sobre o viver de povos contribui para a compreensão das diferenças e inibe a tendência para a intolerância.
Recentemente, um cidadão norte-americano chamou a nossa atenção, ao ter tomado parte do Festival Tradicional do Povo Luvale, que habita a região entre a Zâmbia e Angola, no Moxico. John Smill é como se chama. Porém, é mais conhecido por Johnson Kapalu e faz um trabalho de investigação sobre a cultura Luvale, para a tese de mestrado na Universidade do Canadá, de acordo com informações. John está há cerca de dois anos na região, fala a Língua Luvale, batuca e dança ao ritmo da Catchatcha, do folclore local.
Por outro lado, alguns de nós ouviram falar ou testemunharam que cidadãos chineses e de outras nacionalidades vivem no interior de Angola, numa harmoniosa coabitação com as populações locais, partilhando hábitos, usos e costumes, num conjunto que inclui a fluência da língua nacional dominante na região. Estes e outros Johns fazem-nos encher de orgulho, por terem escolhido e vencido o desafio de abraçar um ambiente que lhes era completamente desconhecido e lhe ganharem tanta afeição, ao ponto de por lá permanecerem.
Hoje, a diversidade cultural e as particularidades dos povos de Angola são levadas para fora das fronteiras também por estrangeiros, que chegam e instalam-se em lugares tão recônditos - onde muitos de nós se negariam ir à mínima menção - e interagem com os locais. Estes cidadãos de outras terras devem servir-nos de exemplo, nós que muitas vezes temos dificuldades - se calhar ainda amarrados a preconceitos - de ir mais fundo no conhecimento do que é nosso e fazer dele a bandeira a portar. Na verdade, o que se vê, em determinadas situações, tende para o contrário: um estrangeiro ávido por informações sobre Angola e nós preocupados em dar-lhe o que ele, muito provavelmente, é conhecedor ou já experimentou. É preciso mostrar o diferente a quem o busca.
A título de exemplo, uma cidadã alemã reclamava, há dias, com o pessoal de um hotel, por causa da música-ambiente. O sistema de som passava melodia clássica universal, sobretudo jazz. Disse a mulher que estava ali desde Fevereiro e farta de ouvir sempre o mesmo, que, aliás, conhecia de cor e de outros lugares do Mundo. Sugeriu que já era altura de o hotel “mudar de disco”e passar a pôr canções angolanas e africanas. A fechar o sermão, a alemã não podia ter sido mais elucidativa, quando perguntou: “será que faz algum sentido eu sentada aqui, a comer funje de Calulu e a ouvir jazz?”
Não fazia sentido algum, de facto. É mesmo a valorização da nossa cultura que às vezes nos escapa.

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