Opinião

Os preconceituosos da gestão pública

Caetano Júnior

O preconceito, em todas as formas sob as quais se apresenta, é um mal que precisa de ser arrancado do modo de ser e estar e do pensamento de quem o professa.

A opinião intencionalmente subjectiva e desfavorável, alicerçada em generalizações precipitadas e descabidas ou em ideias formadas sem um conhecimento prévio dos factos, deve ser desencorajada. E quando o problema vem à luz, convém não limitar a discussão às situações mais conhecidas, como as ligadas ao racismo, à xenofobia, à religião ou ao tribalismo.
Entre nós, existe outra natureza de preconceito que passa inobservada, porque muitos nos encontramos num estado de lassidão mental, sem a força intelectual que nos proporcionaria um vislumbre desse mal. Angola vem de anos conturbados, um legado dos eventos que resultaram do período que duraram a colonização e a Luta de Libertação, do conflito pós-independência e das dificuldades encontradas para a materialização do processo de reconstrução nacional, que, infelizmente, dura até hoje.
Muitos de nós habitamos um avançado estado de saturação, porque testemunhamos as fases por que passa o país, estando, inclusive, a contribuir ainda hoje para projectos virados para o seu crescimento. É natural, para muitos destes olhares, que a esperança se possa ir desvanecendo, aos poucos, ou que a confiança esteja a perder cada vez mais terreno para o desânimo. De facto, o cenário de satisfação geral que se espera demora a chegar. É, pois, este o quadro ideal para a entrada em acção de um certo tipo de preconceito, professado por pessoas para quem a gestão das instituições públicas é necessariamente falha, olhe-se seja por que ângulo.
São os preconceituosos da gestão pública; pessoas que têm já desenhado o quadro geral do país, irreversivelmente para o pior. Eles dispensam esclarecimentos; não estão minimamente interessados nas explicações de quem representa o Estado nestas instituições; preferem ouvir-se a falar, repetir por longos períodos os mesmos lugares comuns, os clichés e os pensamentos enfadonhos de sempre, como se desse exercício retirassem algum prazer mórbido. Para eles, concebidos no formato “ideia fixa”, o Estado, o Governo nada fazem, nunca fizeram e nem o farão um dia.
Estes preconceituosos sequer se dão conta de que a intervenção que fazem limita o pensamento, freia a produção de ideias positivas e tolhe as perspectivas alargadas e diferenciadas sobre um mesmo assunto. Pessoas que professam o preconceito dificilmente progridem. Elas acreditam habitar já um pedestal diferente, superior e, por isso, não há quem as alcance. Constroem um ideário que lhes dá a certeza de que são o centro à volta do qual tudo gravita.
O pior desses seres edificadores e precursores de ideias fixas é quando, num dos raros lampejos de conhecimento de que são acometidos, dão-se conta de verdades que lhes confunde o estado de opinião. Pode parecer contra-senso, mas o preconceituoso beneficia de alguns momentos de lucidez, de percepção, o que, para ele, é cruel. Porque lhe custa admitir que cruzou caminho com a verdade, o que o contraria e lhe turva o pensamento. Daí que procure, ainda que seja obrigado ao recurso à mentira, fazer desacreditar quem o confronta, nem que para o exercício tenha de entrar em conflito com a própria consciência.
Desce, infelizmente, tão baixo o preconceituoso na sua intransigência. Ele não muda; ou dificilmente o faz; é um perigo nestes tempos em que as sociedades procuram as vias mais acertadas para alcançar a realização nos diferentes sectores; é uma espécie de passivo que puxa para trás, por exemplo, os esforços de empresas, virados para os desafios do futuro.
Para manter o seu estado de opinião, o preconceituoso prefere que nada se altere para melhor, no contexto geográfico que o rodeia. Há-de dizer sempre, por exemplo, que a Angola de hoje é a mesma de há dois anos, a ver se a avaliação que faz encontra eco entre as pessoas cujas expectativas começam a esmorecer. Mas não. O país não é o mesmo de há 24 meses! Por mais que os promotores de ideias fixas o neguem, há aspectos nos quais mudou, de facto, embora pela frente se perfilem acções por colocar em marcha ou materializar. Afinal, por mais que se pretenda, fica difícil disfarçar o quão Angola ainda tem a palmilhar.
De qualquer forma, há ainda tempo para quem professa o preconceito reverter o sentido do seu posicionamento para a tolerância. Sempre é possível a coabitação, ainda que tenhamos pensamentos diferentes. Também não é o consenso que se quer. Aliás, “uma noite de consenso é uma noite perdida”, como bem vinca o escritor. A divergência é um imperativo da natureza humana, sem que seja necessário, para a exercitar, passar por cima de elementos como a verdade, a justiça, a honestidade e a coerência.
Portanto, ninguém deve ver a unanimidade como um privilégio. Na verdade, é uma ameaça às liberdades, assim como o consenso representa um perigo à democracia, ao lado do preconceito e da intolerância.

 

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