Palavras desadequadas

Victor Carvalho
26 de Fevereiro, 2017

Na sua recente entrevista ao canal de televisão “Zimbo”, o líder da UNITA, Isaías Samakuva, fez recurso a um vocabulário antiquado e perfeitamente desajustado daquela que é a actual realidade democrática e pluralista do país.


Insistindo na estratégia de atacar para melhor se defender ou, como me disse um amigo, usar a agressividade verbal para esconder a falta de ideias, o presidente do segundo maior partido de Angola – com legítimas aspirações a um dia poder chegar ao poder – usou e abusou de uma estratégia que julgávamos ser já coisa de um passado que tão tristes recordações nos deixou.
Além da forma desnecessariamente deselegante como se referiu ao candidato a Presidente da República do partido que actualmente governa o país, Isaías Samakuva mostrou ser, à partida, um líder antecipadamente derrotado e com uma indisfarçável dificuldade em lidar com opiniões diferentes das suas.
Mas, pior que isso, foi a tendência que revelou para fazer tudo de modo a que não volte a ficar muito mal no já por si anunciado rescaldo das próximas eleições, quando ameaçou com a adopção de “medidas adequadas” caso o pleito decorra nos parâmetros que ele entende poderem envolver qualquer tipo de fraude.
Todos estamos lembrados que já em 1992 o agora líder da coligação CASA-CE havia ameaçado com as tais “medidas adequadas”, que ele mais tarde decifrou como sendo a “somalização de Angola”, caso o resultado das eleições fosse revelado com as percentagens então apuradas.
E por estarmos recordados do que depois sucedeu é que se exige aos líderes políticos – sejam eles de que partido for – que usem uma linguagem que não necessite de ser decifrada e que não se ponha a jeito de poder ter interpretações dúbias.
Mas, infelizmente, a UNITA continuou nesta semana a ser notícia, não porque realizou uma actividade política de relevo mas porque, lamentavelmente, voltou a reincidir na manutenção de uma relação mentirosa com a imprensa, sobretudo com o Jornal de Angola.
Disse Isaías Samakuva que este jornal não é “imparcial” na abordagem que faz das actividades políticas dos principais partidos nacionais, especialmente dos que têm assento no Parlamento.
Esta análise, ela sim parcial do que é a nossa agenda diária de cobertura dos diferentes eventos, revela-se mais uma descarada forma de pressão junto do Jornal de Angola, que repudiamos de forma veemente.
Não é nossa culpa que a actual actividade política do segundo maior partido angolano seja quase nula, nem nos podem ser apontadas responsabilidades pelas dificuldades que está a ter em compor a sua lista de candidatos às próximas eleições.
O nosso jornal, apesar de já ter visto um jornalista seu ser expulso de uma conferência de imprensa da UNITA, continua, sempre que nos é comunicado a tempo, a proceder à cobertura das suas actividades e a dar-lhe o destaque que nós entendemos que elas merecem. Fomos os primeiros a entrevistar o presidente da UNITA nesta fase de preparação eleitoral e convidámos os dirigentes da UNITA a assinarem artigos de opinião neste jornal, durante a visita dos deputados da 6ª Comissão Parlamentar ao grupo Edições Novembro e do actual chefe da bancada do partido, Adalberto da Costa Júnior.
Do que esse partido não nos pode acusar é de sermos responsáveis pela sua própria exclusão e má fé que se revela de forma clara quando ele não participa nem nos comunica algumas das suas actividades para depois, qual virgem imaculada, vir a público acusar-nos de parcialidade por não as termos reportado.
É bom que fique claro que a nossa postura de imparcialidade jornalística em relação aos diferentes actores políticos, que já é uma imagem de marca do Jornal de Angola, não sofrerá abalos com estas tentativas de pressão e intimidação. O que não podemos fazer é fabricar factos ou acontecimentos políticos apenas para satisfazer partidos que têm a responsabilidade de fazer mais e melhor e apenas escrevem direitos de resposta.
A democracia, para ser sólida, precisa de partidos políticos fortes e empenhados em participar num debate público despidos de insinuações mal intencionadas. E dispensa aqueles que julgam poder manipular a imprensa impondo-se mais com a força das palavras do que com a razão dos factos.
 A UNITA faz oposição aos jornalistas, violando os princípios da liberdade de imprensa. A cerca de seis meses da ida às urnas ainda é tempo da UNITA rever a sua estratégia e ter uma postura mais independente em relação à imprensa. Mas, para isso, é preciso que os seus principais responsáveis tenham como referência órgãos pluralistas e não caiam no ridículo apontando a rádio “Despertar” como um exemplo de isenção informativa, como o fez Isaías Samakuva na sua entrevista à “Zimbo”.
Como simples nota de rodapé, uma palavra para sublinhar a justeza da nota de protesto que o Ministério das Relações Exteriores emitiu em relação ao modo como as autoridades portuguesas divulgaram um suposto caso de justiça que envolve o segundo mandatário da Nação.
A maneira leviana como as autoridades portuguesas “permitiram” a fuga de informação que levou para a imprensa lusa esta “notícia”, é a confirmação daquilo que aqui já havia sido dito sobre a existência de uma campanha internacional especialmente orquestrada para denegrir a imagem de Angola e dos seus principais dirigentes neste ano de eleições.
Apesar de estarmos preparados para isso, a verdade é que nos custa ver tanta falta de vergonha, sobretudo vinda da parte daqueles que se dizem nossos amigos.

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