Opinião

Politicamente correcto ...

Caetano Júnior

Nos últimos tempos, ganhou espaço nas discussões a ideologia - se assim se pode chamar - do “politicamente correcto”. É uma questão transversal, uma abordagem transfronteiriça, sobretudo, hoje, que, por um lado, a ideia de liberdade faz reclamar cada vez mais direitos e, por outro, modelos comportamentais obrigam à reflexão sobre a necessidade (ou não) de limites no livre arbítrio ou em determinados pressupostos da escolha espontânea, das decisões autónomas.

Quando nos referimos à autonomia nas decisões ou à livre escolha, não o fazemos focando preferências muito particulares, opções demasiado pessoais. Por exemplo, suspender os estudos é uma medida que, em princípio, quem a toma fá-lo sob plausível sustentação. No mesmo âmbito deve ser inserida a alternativa pela interrupção de uma gravidez ou o percurso pelo celibato. Muito mais situações que comprovam saídas alicerçadas no direito de cada um seguir o seu próprio curso abrem-se pela frente, numa imensidão que este espaço não cobre e que dificilmente dariam margem para questionamentos.
Assim, no contexto em que o abordamos, o "politicamente correcto" circunscreve-se a atitudes ou a gestos afivelados fora do ambiente privado ou a declarações que saíram para o domínio público, tendo, por isso mesmo, merecido escrutínio e sofrido crítica. O cerne do debate está em se, neste âmbito, o “politicamente correcto” deve ou não ser cumprido. Se “sim”, em que contexto, situação ou circunstância.
Há três anos, mais ou menos, um cantor com créditos firmados no País teve a carreira em perigo, ao ver cair sobre os seus ombros o peso da ira popular, depois da infeliz ideia de alinhar numa brincadeira de cunho racista. Um desconhecido e ignorado personagem - a quem, na sequência dos eventos, ninguém prestou a mínima atenção - começou com a “diversão”, no que foi seguido, entre outros, por dois músicos. Mas só um deles arcou com as consequências.
Nos últimos tempos, figuras influentes pelo mundo têm sofrido críticas negativas, por declarações ofensivas a minorias étnicas, contrárias a raciocínios em prol dos Direitos Humanos ou a uma suposta sensatez. Quem os argúi fá-lo tendo como sustentação as responsabilidades de que devem estar munidas figuras públicas ou pessoas rodeadas de algum comedimento e que, por isso mesmo, são ouvidas, levadas muito a sério e até imitadas.
As obrigações de que se rodeiam as figuras públicas trazem-nos de volta o exemplo do cantor que alinhou numa piada de cunho racista. Não tendo sido ele o autor da brincadeira, por que terá ficado com o ónus da culpa? Por ter ignorado o “politicamente correcto”? Acções, gestos e atitude de “activos sociais” - chamemos assim aos famosos - merecem, antes de libertados para o domínio público, avaliação, circunspecção e ponderação. É aqui que as aptidões devem ser reflexos pensados, como diria alguém.
Há, pois, quem veja no “politicamente correcto” a “antiga e boa educação”. É verdade e pode acrescer-se “e não só”. Por norma, a linguagem é decente e no discurso é escusado o uso de estereótipos e de discriminação seja de que natureza. Não há justificação para que, por exemplo, alguém saia por aí a semear ideias pejorativas sobre determinado grupo social, étnico, religioso ou encare na misoginia um louvor. Mais grave é quando os impropérios saem da boca de dirigentes estatais, governamentais, políticos, empresariais, sindicais ou de qualquer outra figura em posição de poder influenciar ...
O “politicamente correcto” não é, como pensa quem se lhe opõe, tolher juízos e acções e limitar o pensamento crítico. Também é diferente de coarctar a liberdade de expressão, em nome de uma pretensa “boa educação” ou de um suposto “bom tom” e está longe do ardil que seria atribuir um revestimento de veludo ao velho vício de impedir que se digam verdades. A coerência configura uma forma de estar e a franqueza deve ser encorajada, sem ser necessário o recurso à ofensa, à discriminação, ao estereótipo ou ao engodo para a solidificar.
O evento que dá uma funcionária como tendo coberto uma estátua, para que a nudez feminina em pedra não ofendesse a visão do presidente em visita ao museu, não deve ser avaliado na perspectiva do “politicamente correcto”, embora assim também ocorra, como narrativa para o comprometer. A arte tem sempre o seu espaço reservado, na mesma dimensão que é produzida, exposta e apreciada. Nem a teoria de uma suposta “verdade inconveniente” é capaz de lhe retirar o substrato que ganhou por direito.
E assim deve, igualmente, permanecer o “politicamente correcto”.

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