Opinião

Prevenir sem piorar

Víctor Silva

Em meio a pandemia do novo coronavírus que tem estado a tirar o sono aos grandes líderes mundiais, mesmo àqueles que minimizam os seus efeitos, a vida segue o seu curso sinuoso, com cada um a procurar as melhores vias para esbater o impacto transversal que está a ter em todos os países.

A palavra de ordem é o novo normal, resgatada da crise económica e financeira que vinha de trás, e a que países mono exportadores, como Angola, foram obrigados a adoptar quando viram a sua principal commoditie despencar nos mercados internacionais.
E esse novo normal está a ser agravado com a crise sanitária que está a atirar às cordas as principais economias mundiais e a deixar no tapete as menos robustas, como a nossa, e a provocar consequências em todos os sectores da vida, incluindo o político, não sendo poucos os casos em que as liberdades têm sido pisoteadas em nome de uma pretensa união nacional contra a pandemia, onde quem se posiciona na linha da frente não esconde os seus laivos de autoritarismo e intolerância, mostrando-se avesso à críticas na presunção da infalibilidade das suas decisões que, não poucas vezes, acabam por ser mais letais que o tal inimigo invisível da Covid-19.
Na política doméstica, uma das condições mais evidentes estará na impossibilidade da realização das eleições autárquicas, as primeiras de Angola Independente. Há, evidentemente, outros efeitos mas já lá iremos. Ao contrário do que se lê e ouve em muitas praças, não foi apenas a “preguiça” dos deputados ao não aprovarem a Lei da implementação das autarquias que impede que o poder local eleito seja um facto entre nós já este ano. Mesmo que os honrados deputados tivessem adiado as suas sagradas férias e entrassem numa maratona, que se antevê dura, para completar o pacote legislativo das autarquias (afinal sempre há a comissão permanente) ainda assim não havia condições para que se realizassem eleições locais, independentemente da decisão que assumissem quanto ao fracturante tema do gradualismo.
Antes mesmo da crise sanitária provocada pelo novo coronavírus, o país já não estava em condições de assumir a enorme despesa que esse acto eleitoral acarreta. Mesmo que todas as leis tivessem sido aprovadas. Um ponto que tenho defendido há bastante tempo e contra o qual o Ismael Mateus, entre outros, se tem manifestado. (Um parêntesis para anunciar a inclusão, a partir de amanhã, de Ismael Mateus entre os colunistas regulares do Jornal de Angola).
Mesmo conhecedores da realidade da tesouraria nacional, muitos políticos aproveitaram o facto da não aprovação das leis para desancar no partido da situação, acusando-o de estar com medo das autárquicas por poderem representar a sua eventual derrota e consequente abandono do poder.
Dentre estes, há os habitués tão frequentes e previsíveis que são, nas suas posições, quanto às eleições em Angola e para os quais o mundo só será diferente quando assumirem o poder. Há, ainda, aqueles que, quais moribundos em últimos suspiros, ainda se acham em condições de apontar soluções quando nem sequer a sua cama conseguem arrumar.
Depois, existem também os que se julgam predestinados e cuja obsessão lhes tem provocado muitos amargos de boca, e que ainda assim insistem, legitimamente, em chegar lá, não importando o preço a pagar, até porque a regra sempre foi que pouco importam os meios para se atingir os fins, como está bem presente na memória colectiva.
Uma pausa para reflexão e umas conversas com o travesseiro poderiam produzir resultados muito mais práticos do que a incompatibilização com as instituições e os seus responsáveis ou buscar culpados para a sua ineficiência fora do seu círculo. O desespero é de tal ordem que se vêem fantasmas até na própria sombra e em circunstâncias semelhantes nada melhor do que recorrer ao jargão da perseguição política, tão em moda até para justificar desvios injustificáveis do erário que criaram criminosos travestidos de empresários e políticos milionários.
Até os menos atentos saberão que quanto mais dividida estiver a oposição mais cómoda fica a margem de quem está no poder e nele se quer manter. É, por isso, ridículo acusar a presença de uma mão visível junto de instituições que merecem o respeito de todos, e que se quer sejam verdadeiramente fiéis da balança, para sustentar os constantes chumbos legais que têm recebido até porque passam um atestado de menoridade aos vários juízes conselheiros que a integram, considerados capachos do juiz-presidente! Aliás, insistir na teoria da cabala é, até, incongruente com a proposta entretanto anunciada da frente comum da oposição, onde se aguarda para ver qual o espírito mais egocêntrico entre os que se afirmam predestinados.
Não é novidade que a situação social do país agrava-se a cada dia, muito pela junção das crises económica e financeira que vinham de trás, acrescida da sanitária. O país está quase que parado pelas medidas de prevenção da Covid-19 e precisa, à semelhança de outros, de reverter essa situação, sendo normal que haja uma considerável expectativa quanto às decisões que serão anunciadas esta semana, depois do parecer da Comissão Multissectorial e de ouvido o Conselho da República. Porque se há que manter a prevenção contra o novo coronavírus, para o qual já se anunciam dezenas de vacinas, não é menos verdade que é difícil pedir mais sacrifícios aos cidadãos e às famílias, até porque há outras comorbilidades, incluindo a pobreza, que estão a matar em grande escala e para as quais não se lhes dá a atenção requerida, apesar dos programas de assistência social.
No estágio em que se encontra a pandemia é preciso olhar para o país real, descentralizar os serviços e a testagem, combinar eficazmente a prevenção com a necessidade da actividade económica, importante para a empresa e para os cidadãos que assistem impotentes ao aumento do custo de vida, sem qualquer almofada social à altura, com as crianças em casa por falta de aulas e o que isso representa para alunos, professores, auxiliares e milhares de trabalhadores que vivem do ensino. E para agravar há o registo dos excessos das forças de defesa e segurança que vêm somando o número de mortes que não podem ficar pelo simples pedido público de desculpas.
Um país que tem fome não pode dar-se ao luxo de ver apodrecer produtos alimentares por falta de escoamento e consumo e nem pode ser complacente com os gatunos que contribuíram para que se esteja nesta penúria confrangedora quando havia dinheiro a rodos.

Tempo

você e o jornal de angola

PARTICIPE

Escreva ao Jornal de Angola.

enviar carta

Multimédia