Opinião

Providência

Caetano Júnior

Um menino come devagar, lentamente, como se tivesse todo o tempo do mundo. Se calhar até tem. O momento da cerimónia dedicada ao almoço mal tinha começado.

A “Feijoada Sem Todos” no prato é tratada com os mesmos cuidados que merece um diamante sob avaliação. Só falta uma pinça para refinar o procedimento. Nunca um prato de comida terá recebido tamanha atenção. O menino, que não tem mais de cinco anos, continua a comer preguiçosamente, impassível à agitação no quintal, estranhamente buliçoso. Ele engole pedaços de frango, aos poucos, como quem está na obrigação de os degustar pacientemente, receoso de que não voltará a ter outra refeição tão cedo ou igual fartura. Afinal, são de incertezas os dias em centros de acolhimento, grande parte deles dependentes da caridade alheia.
E é, de facto, pelo sentimento de amor ao próximo que o garoto atrás descrito e companheiros na casa de acolhimento estão a viver momentos de fartura alimentar. Pelo menos a comida estará fora das preocupações por meses. A quantidade de bens diversos que a boa vontade fez chegar sequer cabe no espaço, na verdade um ponto encravado no Zango 4. Quase não se dá pelo lugar, apinhado de meninos e meninas - são 103, 42 deles internos -, pouco arejado e incapaz de dar protecção para o abrasador sol e o intenso calor que nestes dias se faz sentir. Aliás, as poucas árvores, fontes naturais de refrescamento, parecem também precisar de uma lufada de ar que as faça bulir.
É neste “pequeno Saara” que a solidariedade aportou e fincou estruturas. O projecto reúne, em lugar de dimensões ínfimas para a grandiosidade da causa e do compromisso que abraça, mais do que vidas em busca de amparo; concentra, igualmente, vontades nascidas da preocupação com o futuro. É a providência em pleno vigor. Pode imaginar-se o labor que é ter tanta gente (des)acomodada em compartimentos medidos em pouquíssimos metros quadrados, num conjunto despido das mais básicas condições para a existência humana. Também não é difícil adivinhar o esforço que empreende quem abre os braços para aconchegar o semelhante; quem se predispõe a acolher tantos meninos e meninas que o acaso tinha atirado para uma espécie de indigência.
A esta hora, muitas dessas almas agora protegidas pela bem-aventurança estariam, provavelmente, estendidas numa qualquer rua, desamparadas, por sua conta e risco; a sofrer os males da violência doméstica ou ainda a praticar actos pelos quais viriam a pagar, mais tarde ou mais cedo. O centro e a providência que lhe dá vida a poucos podem, entretanto, valer; acodem só uma parte ínfima das pessoas (menores ou não) deixadas à sua sorte um pouco pelo país.
Está, aliás, o Mundo cheio de testemunhos das desigualdades sociais e da insensibilidade de quem tem um pouco mais para com o calvário dos mais necessitados. De Calcutá, na Índia, ao Darfur, no Sudão. Pelo meio, contam-se “espectáculos de horror” dados a ver por pessoas desfavorecidas (para fugir de um vocábulo mais explícito) no Iémen ou em países da América do Sul. Mesmo os Estados Unidos, “a nação mais poderosa do Mundo”, têm os seus indigentes. Custa até a acreditar ... São relatos que nos chegam de territórios onde o dinheiro circula a rodos, alimentando uma minoria de privilegiados, enquanto bocas secas à espera da caridade continuam a engolir saliva e a arrotar necessidades.
É, pois, um exemplo, o coração de Albertina, que teve o arrojo de edificar um tão conciliador projecto, que, além de juntar crianças, concede-lhes a possibilidade de um futuro diferente do que se lhes vaticinava antes de as portas do “Centro de Acolhimento Não há Órfão de Deus” lhes serem abertas. Para a mentora do espaço, os meninos e meninas que acolhe eram uma reencarnação dela mesma, um “dejávu” que decidiu enfrentar. Aos 16 anos, grávida, Albertina foi posta fora de casa; chegou a prostituir-se para levar comida aos dois filhos, resultados das necessidades por que passou e da inexperiência inerente à adolescência. Ela assume-o corajosamente. E o que faz é uma forma de retribuir a ajuda que também teve. Portanto, está ali alguém com vocação para o trabalho que escolheu.
Assim, com o apadrinhamento de pessoas e instituições que valorizam o ser humano, plantando a solidariedade para ver florir e crescer a providência, centros de acolhimento, lares de infância, casas de apoio a necessitados, enfim, seja sob que denominação a compaixão se faça anunciar, espaços para a caridade hão-de nascer e prosperar. O que falta mesmo são gestos multiplicados de amor ao próximo.
Por força deste conjunto de iniciativas e de vontades, crianças como a do início do texto terão menos razões para ver no prato à mesa o provável último, antes do espectro da carência descer sobre o lar. Afinal, a providência estará accionada. A solidariedade deve, pois, guiar-nos no ano que agora começa.

 

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