Opinião

Recados e reclamações

Caetano Júnior

As chuvas que caem sobre a província de Luanda e os danos (físicos,  emocionais e materiais) delas consequentes a muita gente já não assombram. A este agregado, a notícia de mortes, o desaparecimento de pessoas, o alagamento e desabamento de residências, a abertura de crateras, o isolamento de famílias ou a transformação destas em grupos de desabrigados há muitos anos que passou a constituir  “evento normal”, de tão repetitivo.

Também para este conjunto de indivíduos, visitas às zonas mais afectadas pelas enxurradas, reuniões com técnicos, para levantamento da situação e posterior busca de soluções, promessas de apoio às vítimas e outros expedientes não passam de exercícios sem resultados práticos, como se tem comprovado. Afinal, jornadas de campo juntam hoje milhares de quilómetros e são comuns às autoridades que ao longo dos anos governaram a província, assim como semelhantes são os efeitos dessas incursões sobre a realidade quotidiana do vulgar cidadão.
Ao longo de muitos anos, sempre que a chuva fustiga Luanda, os resultados são tão previsíveis que aquele que mais sofre com as consequências aperfeiçoou a providência. Tem, por exemplo, botas de borracha para calçar e sacos de plástico para envolver os pés, para quando a necessidade o obrigar a atravessar a rua, que, de repente, quer fazer concorrência ao rio Kwanza. Se, entretanto, lhe faltarem os “apetrechos” para os pés, deve  dispor dos recursos mínimos para alugar as costas de um assalariado a quem a chuva ofereceu a oportunidade de abrir um pequeno “negócio”.
De tão conhecido o quadro que as chuvas desenham, sempre que descem sobre a província de Luanda, visionários preparam fios, que instalam ao longo de percursos enlameados, para que neles transeuntes se apoiem e façam a travessia. Há ainda quem tenha à disposição baldes com água, que usa para limpar os pés daquele que chegou do outro lado da lagoa. Portanto, embora seja, neste exacto contexto, fonte, sobretudo, de desgraça, a chuva transformou-se, também, num meio pelo qual os mais engenhosos conseguem dinheiro.
Assim, quem reconhece na chuva fenómeno natural ofensivo rodeia-se de cuidados, protegendo-se de perigos que a sua passagem pode potenciar. Aquele que, por seu lado, a vê como fonte de rendimento mune-se dos “apetrechos” indispensáveis aos serviços que deve prestar a quem deles se vir necessitado. Só as autoridades parecem, entretanto, colocar-se a leste das várias situações, entre as quais as tragédias anunciadas, no rescaldo das enxurradas.
De outro modo, não há como encaixar que, ano após ano, as autoridades da província continuem por criar, pelo menos, medidas preventivas, que, em tempos de quase calamidade, seriam accionadas para atender pessoas em dificuldades e zonas sob risco. “Pelo menos” porque, ao tempo que já duram o desconforto e os males maiores que vêm com a chuva, as acções de quem dirige deviam ir para lá de preventivas. 
Os problemas que Luanda vive, sempre que sofre a acção da chuva, são velhos e recorrentes e não se circunscrevem aos bairros mais antigos. Por exemplo, sofre com alagamentos aquele que habita o Cazenga ou a Samba, como o morador de uma centralidade ou de um condomínio em Talatona, erguidos nestes tempos de demanda tecnológica. O quadro é de uma tal gravidade, que acções preventivas estariam já desajustadas da realidade em que se transformou a maior parte dos bairros, embora possam ainda servir de recurso, em contextos como o actual, de emergência e de dificuldades financeiras. Contudo, e em respeito ao rigor, intervenções paliativas, tendentes a aliviar situações eventualmente mais graves num determinado lugar, nunca deviam ter sido encorajadas, sobretudo, quando o país acreditava ser, além de petróleo, produtor de dinheiro.
Por isso, a visita a locais afectados pelas chuvas nem sempre é vista como um gesto genuíno de quem está, realmente, preocupado com o bem-estar da população. Mais ainda quando feitas por autoridades metidas em fatos e sapatos reluzentes.  As pessoas falam, lamentam, queixam-se, resmungam. Jornalistas têm sido, em determinadas circunstâncias, o recurso do cidadão para passar recados ou expedir reclamações. Há quem avalie essas jornadas como redundantes e cíclicos compromissos de agenda, porque cumpridas a cada ano, automaticamente, sem que dele o cidadão saboreie qualquer vantagem prática. Levada a avaliação ao extremo, estas romarias chegam até a desgastar mais do que a arejar a imagem de figuras da governação da província.
A menos que delas nasçam vantagens concretas. É, pois, nesta perspectiva que as autoridades do novo tempo devem trabalhar.

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