Opinião

Referências, literacia e base

Caetano Júnior

A exposição, pelos próprios estudantes, de inadequações ortográficas em “posts” nas redes sociais, para onde foram esbanjar a vaidade pela graduação acabada de conseguir, devolve à discussão a qualidade da formação que se ministra em Angola. De facto, aberrações como “subistimaram-me”, “homiliara-me”, “foi dificio mas consigui” ou “obijectivos”, saídas do punho de licenciados de fresco, não só ajudam a descredibilizar todo um sistema de ensino, como reforçam a teoria de que o problema não tem solução a curto/médio prazo.

A situação consolida, por outro lado, a ideia que concebe como normal a aprovação, em concurso público para professor, do candidato que obteve oito ou seis valores. Afinal, o recém-licenciado que não se deixou “homiliar” é, de certeza, o mesmo que amanhã vai passar com medíocre num qualquer teste de aptidão promovido por uma instituição pública. Eis, portanto, a certificação de que, entre nós, formadores e formandos estão mais harmonizados do que nunca, na indispensável parceria que leva à “deformação” de quadros.
Ainda bem que estudantes acabados de graduar fizeram proliferar uma imagem tosca do ensino. Pelo menos, assim, há gente que deixará de rejubilar com os alegados números que dão Angola como o país africano que mais licenciados dá à luz e que mais universidades edifica, num movimento, como se tem confirmado, inversamente proporcional à qualidade. Não é da quantidade de instituições superiores de ensino, nem de estudantes nestas que depende o nível da formação. À excelência chega-se, sobretudo, por via da gestão pedagógica e do quadro docente.
Para que tenha o ensino guarnecido de alguma credibilidade, Angola deve, pois, investir em professores, em formadores, em investigadores a tempo inteiro, cuja experiência acumulada os transforme, depois, em referências. Só para exemplificar, entre os indicadores a ter em conta para o “ranking” das universidades, sobressaem a Qualidade da Educação, medida pelo número de ex-alunos distinguidos, o Corpo Docente, avaliado pela quantidade de académicos com prémios internacionais, ou a Investigação Científica, calculada pelos trabalhos de pesquisa.
É claro que a qualidade do ensino não depende, necessariamente, de se ver avaliado num “ranking” ou de se reunir a totalidade dos critérios para o responder. Mas as referências, ainda que internas ao meio técnico-científico do próprio país, são fundamentais. E fazem-nos falta! São figuras de cuja sapiência nos socorremos; mentes que nos confiram informações, nos consolidam conhecimentos ou, simplesmente, escalpelizam-nos o saber, para dimensioná-lo à medida da nossa compreensão.
As poucas referências que ainda nos restam remontam aos primórdios da Independência e aos anos que lhe seguiram. Sobreviveram ao espectro da substituição pela geração de novos quadros que o porvir prometia, numa renovação que se impunha, porque assim o obrigavam a revolução que empurrava o saber e o clamor do país pela formação de cérebros para atender as exigências que se adivinhavam. Infelizmente, a massificação do Ensino Superior por que se optou a seguir produziu quantidade e negligenciou a qualidade, como o comprovam os estudantes do início da conversa.   
O sucesso de um aluno depende também do que o estimula para o ensino; do que o impulsiona para o aprendizado. À luz do quadro geral que se conhece do país, poucos são os estudantes imbuídos do desejo genuíno de aprender, de absorver conhecimentos. Leva-os à universidade ou a outras instituições de ensino, de maneira geral, a obtenção do certificado de habilitações ou do diploma, simplesmente. E quem, como motivação para ir à escola, tem o comprovativo de que a frequentou usa de todos os artifícios para se realizar.
Portanto, não espanta que estejamos agora a colher os frutos de anos de investimentos mal formulados, pior calculados e erradamente direccionados. As consequências da má qualidade do ensino são uma realidade mais do que um pouco pelos sectores da vida. Não há uma área que se possa chamar “sobrevivente” do caos em que a deficiente formação transformou o país. Há maus profissionais no Professorado, assim como existem no Jornalismo. Também os há na Economia, na Engenharia ou nas Ciências. Cada vez mais casos de "segunda opinião" médica, recolhida no exterior, desdizem a avaliação inicial, ditada no país, o que engaja a Saúde no problema.
A reversão do quadro é possível e o único caminho numa perspectiva de longo prazo.  A aposta deve ser feita já e na base do ensino, com o professor. É preciso, por outro lado, elevar o nível de literacia; a aptidão do estudante para compreender e usar a informação escrita para desenvolver os seus próprios conhecimentos; as suas capacidades, afinal, uma insuficiência com que se confrontam inclusive estudantes universitários. Os recém-graduados que se mostraram nas redes sociais são um testemunho vivo do “défice geral” que caracteriza os alicerces da formação.
Em síntese, a iliteracia - para já não incluir o seu parente mais próximo, o analfabetismo funcional - é a raiz das disfunções de que está enfermo o processo de ensino e aprendizagem no país. E, para contê-la, urge corrigir a base. De outra forma, como pela admissão de “quadros” com oito ou seis valores, é impossível; é dinamitar as estruturas de apoio a um projecto cujo topo se pretende que tenha alguma serventia.


  

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