Opinião

Repensar o tempo

Víctor Silva

Fomos vivendo ao longo de anos com a ilusão que as coisas se eternizavam. A maioria da população a viver com os sacrifícios do quotidiano, quase que aceitava como destino passar privações. Uma determinada casta possidente julgava que a acumulação de capital fácil seria eterna e sem qualquer tipo de fiscalização ou susceptível de poder ser esmiuçada por uma justiça que nada parecia ter de independente.

Nos tempos de permanentes dificuldades que vivemos começámos a assistir a novos procedimentos por parte da justiça, e cada vez mais a figura da Procuradoria Geral da Republica assume uma importância maior e transforma-se num dos esteios fundamentais na defesa da legalidade democrática que urge impor ao País.
“Não basta que todos sejam iguais perante a lei. É preciso que a lei seja igual perante todos.” dizia Salvador Allende, Presidente eleito do Chile deposto e morto em 11 de Setembro de 1973. Esta é uma ideia que tem que prevalecer no edifício jurídico do País, sob pena de todas as outras estruturas se desmoronarem como um castelo de cartas ao primeiro toque, como aliás foi defendido pelo actual Presidente da República no discurso da própria investidura, a 26 de Setembro de 2017, quando referiu que “a Justiça desempenha um papel central no resgate do sentimento de confiança nas instituições do Estado, porque os cidadãos precisam de acreditar que ninguém é rico ou poderoso demais para se furtar a ser punido, nem ninguém é pobre de mais ao ponto de não poder ser protegido.”   
Muitos ocuparam lugares de responsabilidade  e lidaram com fundos que são património de todos. Alguns acharam que o dinheiro era seu e utilizavam-no a seu belo-prazer, esquecendo muitas vezes que os lugares são fugazes e é preciso que o seu tempo de permanência seja para fazer obra para todos e não obras para si. Acharam que a lei era sua, nem sequer admitiram que estavam acima dela.
Nos novos tempos de Angola, a justiça tem que zelar para que a aplicação da lei seja célere e sobretudo que consiga dar uma imagem de seriedade, para que a impunidade de alguns desapareça, de forma a que o edifício democrático se construa sem criar as aberrações que nos habituámos a ver.
O próximo Congresso extraordinário do MPLA, enquanto partido no poder, assume particular importância. Porque não se pretende que venha a  ser uma reunião de confrades, com agenda marcada e antecipada, apenas para concluir oficialmente o processo de transição política, com a mudança do líder. Espera-se que depois do 8 de Setembro haja  uma mudança de paradigma dentro do próprio partido no poder e como tal difusor das acções do Governo, por forma a alterar um quadro vigente assente em pressupostos que nos tempos de hoje se afirmaram cada vez mais errados.
O dinheiro às carradas que saiu do País e que uma parte dele se volatilizou em futilidades e espana ventos, terá que voltar para que seja posto ao serviço do desenvolvimento das populações, no investimento público, algum no sector privado, mas que seja para melhorar o quotidiano de vida das pessoas e aumentar a empregabilidade dos jovens, principais vítimas da desbragada gestão de uns poucos durante alguns anos.
Num País jovem como o nosso, a esperança está nos jovens, mas também é importante a pedagogia da vida democrática e da justiça para todos, com igualdade no acesso e equidade na aplicação da lei. Não temos outro País, por isso temos que construir bem este!
Claro que há quem diga que a justiça tem que ser célere, mas isso não é fácil porque tem que haver uma investigação séria e responsável, evitando-se a acusação com base no mujimbo, e claro levar responsáveis pelo estado caótico do País a tribunal com fundamentos sólidos para que qualquer pena seja sustentada em factos e não em suposições ou meras vinganças.
Vamos esperar, ou melhor fazer urgente esperar os tempos que queremos novos de uma Angola que espera e desespera por soluções!

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