Opinião

Resgate solidário

Victor Silva

As mudanças por que passa o país têm levantado um misto de reticências em várias franjas da sociedade dividida entre a esperança de que, no final, o bem vencerá e o cepticismo quanto ao seu alcance, sobretudo face à degradação generalizada das condições de vida das famílias e dos cidadãos, vai desaparecer. E isso poderá acontecer já neste ano que se aproxima.

Uma parte das dúvidas fica a dever-se aos protagonistas das mudanças, não se sentindo, na prática, um alinhamento entre o discurso e as acções, mesmo intramuros do poder onde há muita retórica e pouca convicção na profundidade das reformas necessárias para emendar as distorções do passado recente que conduziram à situação actual.
De facto, dá a impressão de estar a verificar-se uma caminhada solitária para tornar Angola num país normal, onde todos e cada um possam ter oportunidades iguais e possam destacar-se sem atropelar ninguém por sobrenome, por filiação partidária, religiosa ou outra qualquer que não seja o mérito.
O próprio lema da campanha vencedora tem a nuance de incluir a necessidade de melhorar o que está bem, o que significa que não se está a diabolizar o passado, onde foram feitas muitas coisas boas que precisam ser preservadas.
Mas a realidade, dura e crua, mostra que há muita coisa mal que, se não for corrigida, dificilmente se conseguirá melhorar o que já vinha bem. Desde logo, o equilíbrio macro-económico sem o que se continuará a assistir à queda de todos os indicadores, desde os económicos e financeiros aos do desenvolvimento humano. Pior. Sem as reformas económicas que têm sido encetadas e se está obrigado a prosseguir, o país pode soçobrar, tal a dimensão das transformações indispensáveis para se evitar que se chegue ao nível de outros países que bateram no fundo, mesmo, e apesar, dos recursos e da malha produtiva e empresarial de que dispõem.
Dramático, dirão uns. Mas estes dois anos são a prova mais do que verdadeira de que ou as mudanças são, efectivamente, assumidas como um imperativo nacional, como uma necessidade não apenas para ganhar votos ou eleições, ou nem haverá mais máscaras para tapar a realidade, porque as portas de onde saíram os volumosos créditos que serviram para alimentar os apetites insaciáveis de uma elite predadora e actualmente nos asfixiam a todos com o sufoco da dívida já fecharam e reclamam o reembolso dos empréstimos.
Elite que não olhava a meios para atingir os seus objectivos e hoje trabalha nos bastidores, às vezes à vista desarmada, contra a corrente reformista, passando um manto sobre as falcatruas, teatralizadas por melodramas carpidosos e apneias de memória e a ideia que a vida de esquemas e "débrouillez-vous" era bem melhor que este período de reequilíbrio da economia, afectado pela colossal dívida que consome mais de metade do OGE de 2020.
Uma minoria que desestruturou a administração e oficializou a corrupção e a impunidade e perverteu o espírito solidário idiossincrático dos angolanos que, de gerações em gerações, sempre se ajudaram nas dificuldades para enfrentar a ocupação colonial e toda a onda de discriminação a ela associada, impondo a ganância e o egoísmo como novas bandeiras do capitalismo selvagem que implantaram para justificar a acumulação primitiva de capital. Mas que, não tanto estranho assim, recorre a esses valores para arregimentar apoios quando é confrontada com os processos judiciais, passando a imagem de coitadinhos e de justiça selectiva.
Elite que hoje se mostra como que chocada com o resgate desse valor moral que tem feito com que se diminuam as dificuldades causadas pelas intempéries às populações do Sul do país e que nesta quadra festiva se tem desdobrado para dar um pouco de conforto àqueles que pouco ou nada têm por circunstâncias várias, muitas delas derivadas das políticas erradas que estão a ser corrigidas, mas cujos resultados levam tempo a surgir.
Um dos últimos ditadores da potência colonial, quando deparado com um problema optava pela criação de uma comissão para o resolver, passando ao lado da sua responsabilização. Vai-se lá saber por que carga d'água, por aqui viveu-se muito dessa prática, com atropelos constantes à direcção e responsabilidade de vários sectores e áreas.
Foi mesmo este exemplo que o governador de Luanda apontou para justificar a falta de resposta que é exigida pelos cidadãos às administrações provinciais e municipais e que, afinal, são atribuições de outras estruturas paralelas que mandam e desmandam sem dar cavaco a quem compete, verdadeiramente, gerir as várias circunscrições.
São vícios do passado que também precisam ser corrigidos, com a eliminação desses poderes paralelos e com o reforço da autoridade dos governos provinciais e administrações municipais e comunais, no âmbito da descentralização administrativa e financeira em curso, mas que, está provado, precisa de muito mais gás, para não continuarmos a assistir ao cabritismo que, quando descoberto, se esconde nas armadilhadas saias das imunidades, não por acaso assim costuradas, ignorando éticas e decoros que só envergonham um órgão de soberania tão importante para o Estado de Direito Democrático que se está a erguer.
Nem de propósito, recorrer a expedientes antigos de mudar rapidamente o cenário para receber as visitas do Presidente da República não podem continuar sem a necessária denúncia, como tem acontecido, quando hospitais de repente parecem hotéis, onde não falta nada e escolas são apetrechadas (até com alunos), estradas e fachadas arranjadas só para impressionar o visitante quando, no dia-a-dia, os moradores e utentes daqueles serviços são obrigados a entrar no esquema que se institucionalizou e que se quer combater. Infelizmente, sem o apoio de todos!
Ainda assim, resiste a esperança de que o novo ano será melhor do que este que está a terminar, porque o bem sempre prevalece.

 

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