Opinião

Selfie e exibição

Caetano Júnior

Os números são aterradores: até hoje, cerca de 260 pessoas morreram a tirar selfies, ou seja, a fazer fotografias de si mesmas. O estudo que destapa a macabra estatística baseia-se em casos noticiados na Media. A vítima mais recente de que se tem conhecimento é uma jovem portuguesa, que, há cerca de três semanas, caiu de um 27º andar, na Cidade do Panamá, quando se preparava para reproduzir mais uma imagem dela própria, para que as redes sociais se ocupassem, depois, de a viralizar.

De acordo ainda com o levantamento, as mortes decorreram, principalmente, de afogamentos, acidentes com transportes, quedas, electrocussões, incêndios, armas de fogo e ataques de animais. Portanto, a ânsia e a vaidade dos apaixonados por si mesmos são tamanhas, que eles chegam a ignorar o risco, para concretizar a ideia de ver eternizada a pose em situações e lugares tanto deslumbrantes quanto perigosos. É, de facto, o narcisismo levado ao extremo.       
Com efeito, apenas a vaidade, este excessivo desejo de se mostrar, a aflição por se vangloriar dos próprios feitos ou habilidades, e o narcisismo, o exagerado amor pela própria imagem, são capazes de impelir alguém a tudo ignorar, inclusive as ameaças reais, e ensaiar retratos em cenários onde o comum mortal seria assolado pelo terror. Só o prazer pelo risco ou o fascínio pela aventura não explicam igual ousadia. Porém, como o confirmam as estatísticas, a busca por glória acaba, para muitos, por ser vã: no fundo de um precipício, no forte amplexo de uma onda, nas garras de um felino, sob o chassis de um veículo ou num qualquer outro incidente trágico.
Ainda bem que não há, em Angola, registo oficial de mortes em decorrência de selfies, o que traduz alguma consciência para os perigos que os excessos acarretam. Aqui, o uso das Redes Sociais é frenético e eivado de procedimentos questionáveis, mas, ao que se conhece, ainda não atingiu o ponto em que o narcisismo é levado ao extremo. De certeza que habita entre nós quem já tentou poses mais arriscadas em lugares menos seguros e se terá saído bem ou simplesmente abandonou a ideia. Melhor assim! 
Por cá, também abundam, entre os utilizadores das diversas plataformas, a vaidade, a exposição e até alguma ostentação, confirmadas na partilha de imagens e situações às quais nem toda a gente devia ter acesso, por engajarem famílias e amigos e por não pertencerem ao domínio público. Há exemplos a atestar que caem na rede mais situações que mereciam tratamento privado do que era de esperar. O que devia ser um campo restrito, limitado, tem sido, pelo contrário, escancarado, aberto a quem quiser ver e partilhar. Um “desleixo” voluntário, na maior parte das vezes movido pelo egocentrismo. 
Famílias em viagem no exterior do país fazem fotografias e publicam-nas em grupos na Internet. Embora muita gente pense o contrário, as Redes Sociais são um espaço público, como especialistas estão fartos de advertir, e todo o post é imediatamente disseminado. Nestas situações, a suspeita é a de que quem coloca as imagens fá-lo, no fundo, movido pela intenção de as divulgar e assim dar conta de que está a viver “à grande”. No mesmo pensamento, navega aquele que faz questão de assinalar por onde passa, com uma foto cujo fundo é um lugar da cidade que visita e uma frase para a indispensável contextualização.
E o cortejo de exposições continua: recém-nascidos têm fotos publicadas por ambos ou por um dos pais, em atitudes irresponsáveis que não poupam sequer inocentes. A preservação dos direitos das crianças também inclui a não divulgação de imagens delas nas Redes Sociais. É incrível a leveza com que progenitores banalizam momentos íntimos e únicos dos próprios rebentos. É ainda a vaidade a manifestar-se. Pais a agir como se fossem os únicos na terra bafejados pelo dom da fecundidade, se calhar desconhecedores de que fértil que é fértil tem a robusta prole a comprovar-lhe a performance, em testemunhos que dispensam o marketing e a publicidade.
Existem igualmente os exibicionistas de um pretenso intelecto refinado, que postam livros, um verdadeiro acervo literário. Viajam e regressam carregados de obras que divulgam nas diferentes plataformas, mas que nunca leram. Fazem-se passar por intelectuais, citam renomados autores, enfim, deixam a ideia de que pretendem aconselhar ou direccionar a leitura para determinado sentido. O que buscam, na verdade, é o reconhecimento, enquanto eruditos de créditos firmados. Porque quem lê de facto não tem disponibilidade para disseminar literatura na nossa Media Social, aliás, também conhecida como espaço banhado por algum analfabetismo funcional.
E o que dizer dos exibicionistas mais básicos, destes que até nos dão certo gozo, porque são divertidos? Também os há, é verdade! Alguns deles são do tipo que consegue algumas gambas e salta logo para as redes a anunciá-las, sob o argumento de que está a mostrar os seus dotes na culinária. Outros aparecedores a todo o custo são capazes de se fotografar à mesa, ao almoço ou ao jantar, e fazer disseminar as imagens que o mostram rodeado de iguarias. Felizmente, as caricaturas acabadas de desenhar soam agradavelmente, se comparadas às selfies assassinas.
Portanto, embora se reconheça que existam, não são ainda passíveis de consequências fatais os males de que estão enfermas as nossas Redes Sociais, relativamente ao que é uma pessoa capaz de fazer para a própria exposição; para ganhar visibilidade pública. Que permaneça assim, para que amanhã não acordemos com notícias que concorrem para o aumento de mortes por causa de selfies. O que importa é que se mantenha a consciência de que não há exagero que justifique a perda da vida.
Por outro lado, urge considerar atitudes de alguma reserva e recolhimento; de menos exposição dos ambientes fechados, para a preservação da família, das crianças, particularmente. Há retratos que não precisam de sair para o convívio público, assim como há lugares e situações desaconselháveis a selfies. A vida tem muito mais valor do que uma simples fotografia, independentemente de onde é tirada. E se a morte, o mal supremo, é destino irrevogável, que partamos deixando para trás ao menos um legado de inteligência e não uma herança de estupidez.     

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