Opinião

Sem recuo

Victor Silva

O país está lançado numa caminhada que promete ser melhor para todos, com a normalização da sociedade e a solução paulatina das dificuldades dos cidadãos. É um percurso, iniciado há 44 anos, que tem conhecido avanços e recuos, pelos motivos por demais conhecidos, em que pontifica,como é evidente, o conflito armado que nos dividiu e levou a um grau de destruição humana, social e material quase sem paralelo.

Os dezassete anos de paz são uma das maiores conquistas destes anos de independência nacional, mas ainda insuficientes para sarar todas as feridas que décadas de desentendimentos e desinteligências conduziram à destruição do tecido social, das famílias e das infra-estruturas de apoio, produção e cultivo.
É dos livros que os conflitos geram anormalidades que são minimizadas pela sua razão de ser, criando hábitos e culturas que, depois, em tempos de paz, há que corrigir sem que isso possa significar outra contenda.
A paz constitui, em si, prenúncio de esperança na inversão do quadro de sofrimento e penúria geral e de alguma abastança que, efectivamente, se verificou.
Só que a bonança foi de tal sorte que alguns pensaram tratar-se de um privilégio exclusivo de uma selecta elite que se propôs apoderar das principais riquezas que a todos pertencem, criando uma ilusão de crescimento e desenvolvimento que lhes massajava o ego ao mesmo tempo que lhes multiplicava os cifrões em milhões de vezes, guardados maioritariamente no estrangeiro, com alguns trocados deixados no país para a mistura desproporcional com os fundos públicos de que se julgavam os guardiões para a fermentação do seu poderio.
Foram anos a fio do salve-se quem puder em que a elite se “esqueceu” do país, deixando-o ao deus dará, com uns muitos quantos a lutarem para entrar no clube pelos mais diversos métodos, o mais prático deles o da imitação, olhando para a prática dos que já lá estavam.
De tal sorte que quando se propõe repor o comboio nos carris, normalizando a vida, o exército de melindrados mobilizou-se na contra-corrente, utilizando os meios surripiados ao povo para provocar a sua divisão e para descredibilizar os promotores da mudança que ajudaram a proclamar, mas acreditavam tratar-se de mera propaganda, tal como país fictício que vendiam aos cidadãos.
Desengane-se quem pensa que esse movimento se circunscreve a meia dúzia de marimbondos, com ou sem chapéu divino, que se manifesta mais ruidosamente através das modernas tecnologias de informação. A prole é bem mais extensa e ainda circula pelos corredores do poder, aos vários níveis, como disso é testemunha a quantidade de processos que correm os seus trâmites na justiça, seja em forma de investigação ou já de juízo.
Na cadeia intermédia encontramos muita gente com capacidade de influenciar decisões ou de as tomar e que manifestamente não se acostuma a ideia de mudança, insistindo em práticas que lesam o interesse colectivo para construírem, também eles, o auto-exílio dourado, igual ao dos seus ídolos.
Não foi, portanto, com grande surpresa que se viu a anulação do concurso, dito internacional, para atribuição da licença para o quarto operador de telefonia móvel em Angola. Nada contra o anunciado vencedor, um player desconhecido num mercado cada vez mais sofisticado e exigente que, pelos vistos, não terá reunido todos os requisitos a que estava obrigado.
Espanta, sim, o seu anúncio e as juras de respeito das regras de jogo, com transparência e lisura, que resultaram em mais ruído num sector onde foram feitos avultados investimentos básicos e avançados que terminam na fibra óptica e até num satélite próprio, entretanto desaparecido.
É bom recordar que quando o Governo lançou o concurso para o novo operador, a expectativa era que se estaria a dar corpo ao anúncio do Presidente da República do fim dos monopólios e oligopólios nas telecomunicações, trazendo mais concorrência, com isso mais qualidade e fazendo baixar os preços, ao nível dos que são praticados na região.
Um concurso internacional, aberto e transparente, coerente com o apelo da diplomacia económica que o Presidente da República tem conduzido, procurando diversificar e reforçar as parcerias externas, para se superar os anos de atraso no desenvolvimento, num mundo globalizado em que as balizas quase desapareceram e o intercâmbio é a forma mais natural de se relacionar.
Os sinais de mudança não podem ficar por isso mesmo: por anúncios de intenções, abraços às instituições de Bretton Wodds e convites ao investimento. Quando nos bastidores, continua o jogo debaixo da toalha, com cartas viciadas, que em nome de um nacionalismo bacoco afugenta a concorrência e compromete a credibilidade que o país está a reganhar.
A medida de anulação ajuda a melhorar o ambiente de negócios, porque a credibilidade do país estava a ser posta em causa não apenas por este concurso, como também por outras situações que beliscavam a imagem de transparência e de mudanças em Angola. Ficava-se com a ideia de que, apesar das promessas, pouco tinha mudado e isso não pode, irremediavelmente, acontecer, sob pena de voltarmos à estaca zero da mesmice de um passado que a maioria quer mudar.

 

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