Opinião

Sob ameaça

Caetano Júnior

Nestes dias, o ambiente que se respira é de normalidade, um pouco por todo o mundo, até em países como o Brasil e os Estados Unidos, onde o contágio e as mortes diárias pela Covid-19 parecem muito longe do fim.

Há, aliás, nações que sequer baixaram medidas de isolamento. A escolha tem sido óbvia: entre o perigo de contaminação pelo vírus e a lenta e tortuosa perda da vida, em consequências das restrições impostas pelo confinamento, ganhou a última. É preciso abrir alas para a existência; urge criar a atmosfera por onde a sobrevivência escape. Assim, todos os dias, mais serviços e lugares são abertos, mais gente aventura-se nas ruas, enfim, mais pessoas começam já a acotovelar-se em espaços que há dois meses lembravam arrecadações.
O Mundo materializa a retoma. A vida volta à normalidade social, ao mesmo tempo que se insiste na necessidade de serem observadas medidas de protecção, como o uso de máscaras e o distanciamento físico, sobretudo. Até soa a chalaça. As pessoas querem proteger-se, na mesma dimensão que enchem praias e parques de diversão; vão à igreja e recebem a hóstia da mão desnuda que a deu ao colega ao lado. A abertura chegou mesmo ao futebol, desporto que inclui contacto físico. Os jogadores não se saúdam com o tradicional aperto de mão, mas tocam-se na disputa da bola e chegam a dar as mãos e a abraçar-se nos festejos de um golo. Há estádios a receber adeptos, sentados em intervalos de três cadeiras, como se a distância fosse suficiente para fazer conter a euforia do 1-0.
Estaremos, então, perante os primeiros sinais de vitória sobre a Covid-19 ou, pelo contrário, a alicerçar o edifício onde se vai instalar a segunda vaga da pandemia, como temem cientistas? Entre nós, parece, também, haver pouca preocupação com a ameaça. Os casos de infecção aumentam, mas o distanciamento nem por isso é obedecido e o uso das máscaras é negligenciado. Foi assim desde que o novo coronavírus irrompeu mundo adentro, para quebrar a relativa quietude que vivíamos. Aliás, à realidade angolana só falta chegar um exemplo de contaminação comunitária, para que a dimensão do problema se abata sobre nós com toda a carga dramática que encerra. Enquanto tal não ocorre, voltamos às almoçaradas familiares. E, pelos vistos, não falta muito para que os caldos reabram as portas.
Por ora, o vírus manifesta-se dentro de municípios e o mais perto que chega da contaminação comunitária ocorre quando se instala em bairros vizinhos, como o Hoji-Ya-Henda e o Cazenga, esta que é também a denominação pela qual se conhece o município. Admira, pois, que não tenhamos até agora a outra natureza de contágio, tal o nível de incumprimento das normas de segurança que se assiste em ruas e mercados, principalmente. Por outro lado, falta também, a muitos de nós, alguma luz sobre a noção de “comunitário” e “local”, contextos cuja compreensão demora a chegar. Era tudo mais simples, e até confortável, quando os casos eram importados. Ficava fácil dizer que “vieram de fora”. Agora que pouco importamos, assusta a disseminação inter-bairros. O quadro preocupa quem conhece a letalidade da doença.
A consciencialização deve continuar, pois, o caminho a seguir. A necessidade de se insistir para o perigo que representa a Covid-19 e a importância do cumprimento das medidas de protecção. De outra forma, será uma guerra perdida. As pessoas vão insistir em permanecer nas ruas, sem máscaras e agrupadas. É um trabalho de persistência, de sensibilização contínua. A teimosia é característica inerente ao ser humano, muitas vezes puxada por um desejo maior, por uma urgência inadiável. Não é “privilégio” dos angolanos, como amiúde se avalia. O recurso ao jornalista Paulo Pena talvez ajude a esclarecer, quando cita o frade Guilherme de Ockham. Assim, não valerá a pena encontrar teorias identitárias, que expliquem, neste caso concreto, por que angolanos insistem em sair à rua. “Não pode ser a vontade inata de quebrar regras, nem a 'desorganização', nem a falta de civismo que explicam melhor o que se passa”.
Num artigo no “Diário de Notícias”, Paulo Pena contou que as pessoas lotaram a praia de Carcavelos, em Portugal, no dia em que a OMS declarou que a Covid-19 é uma pandemia. Na Noruega, o Governo ameaçou mobilizar o Exército para esvaziar as cabanas de montanha, para onde se mudou quem pôde. No sábado seguinte, depois de o Governo grego ter fechado os bares e esplanadas, com um sol convidativo sobre o Egeu, milhares de atenienses encheram as praias. Como vemos, não são só os angolanos. Pelo menos na reacção a determinados fenómenos, somos mesmos “muito mais próximos do que diferentes”, independentemente do lugar onde tenhamos nascido.
São, pois, lições tiradas deste contexto de pandemia. E confirmam que é de todo impossível cumprir com as medidas de protecção, se, paralelamente, se pretender regressar à normalidade social. Ou uma situação, ou outra. Na impossibilidade de as trazer à vez, cabe ao próprio cidadão, individualmente, a obrigação de se cuidar; o dever de se acautelar, a consciência de se recolher. Precisamos de nos preservar, o que é, desde já, uma tarefa gigantesca. E, para tanto, é, igualmente, preciso que preservemos o que nos rodeia.
Por mais que a retoma se intensifique, por tanto que a reabertura se alargue a todos os lugares e a todos os serviços, a responsabilidade tem sempre um endereço: a consciência de cada um de nós, individualmente, do tutor, do pai, da mãe, do encarregado de educação. Somos, afinal, quem decide o que é melhor para nós e para os nossos. E, no rescaldo do que já vivemos desde que nos demos conta da letalidade do invasor, fica a advertência de que pior é pensarmos que já não estamos sob ameaça.
Ainda estamos!

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