Opinião

Sob pressão

Víctor Silva

Lendo-se a proposta do OGE para 2019, escutando-se as declarações dos membros da equipa económica do Governo e acompanhando as previsões que várias agências internacionais vão fazendo sobre o possível desempenho da economia nacional, não é difícil antecipar mais um ano difícil para o país, a economia e as pessoas.

Um ano em que se continuará a marcar passo sem sair do lugar, por ausência de recursos suficientes para dar o salto que todos esperam na solução dos principais problemas dos angolanos, sobretudo depois das mudanças políticas ocorridas há dois anos.
Quando se dá mais de 60 por cento do orçamento para pagar dívida, fica-se muito próximo daquilo que é a dura realidade das finanças públicas e quão danosas foram as políticas seguidas no passado recente que nos trouxeram a esta situação de quase falência, quando havia condições para se mudar radicalmente o quadro, fazer as reformas necessárias e estarmos agora a viver numa perspectiva bem diferente.
Durante anos, o país não tem estado apenas em recessão. Foi também acumulando défices orçamentais e endividando-se de qualquer maneira para “tapar o sol com a peneira” e mostrar uma realidade que não condizia com os números. Na sábia boca do povo, diz-se que “andávamos a vestir uma cueca que não era nossa”, bem maior para o tamanho das partes a cobrir e passando a imagem ilusória do manequim perfeito para os amantes das revistas cor de rosa.
A solução dos problemas foi sendo varrida para debaixo do tapete ao mesmo tempo que se solidificavam as raízes do saque pela minoria insaciável, se expandiam os projectos megalómanos que alimentavam o esquema e se iam adiando as reformas há muito identificadas, camuflando a realidade com dinheiro aparentemente fácil de créditos e mais créditos, que também não faziam muita questão de ir pagando.
O resultado está nesse percentual tão elevado de dívida que tem de ser paga, sob o risco do país ficar isolado e colapsar por força de qualquer eventual bloqueio que os credores possam accionar para reclamar o ressarcimento do dinheiro contratado.
Diante de um quadro destes, e porque os alicerces de sustentação da economia estão, eles próprios, sem o vigor de há uns anos, com a quebra da produção petrolífera por ausência de investimentos na prospecção e outros no momento certo, não se antevêem dias de bonança nos próximos tempos, onde dificilmente se poderão exigir mais sacrifícios àqueles que hoje já são consentidos pela maioria das pessoas, das famílias e das empresas.
O tempo não está, pois, para experiências ou para desperdícios de qualquer ordem, exigindo atitudes firmes e realistas sem a ilusão de querer mostrar o que não se tem para juntar à cada vez mais complexa calculadora dos votos.
As reformas são indispensáveis e, sobretudo, inadiáveis para que ainda se possa pensar no final da actual magistratura com equilíbrio macroeconómico capaz de garantir o crescimento sustentado e a economia menos dependente da volatilidade do preço do barril de petróleo nos mercados internacionais. E, ainda por cima, quando a conjuntura envolvente prenuncia a possibilidade de uma nova crise à escala global que, no nosso caso, poderia significar a “morte do artista!”
O momento exige, portanto, que se tomem as medidas profiláticas e de cura que se mostrem adequadas, por muito duras que ainda possam vir a ser, para manter a nau a navegar e precaver-se de possíveis turbulências que, quais calamidades, afectam mais penosamente os menos desprotegidos.
O próprio tempo concorre para que se acelerem as mudanças e se actue sem complacência contra aqueles que agem, de múltiplas formas, para o insucesso dos programas, a descredibilização da governação e das instituições. O combate à corrupção e contra a impunidade não pode ser apenas um ponto de não retorno: tal como a mulher de César, tem também de parecer.
Este é um desafio que não deve ser confundido apenas com o desejo individual do Presidente João Lourenço, mas deve ser uma causa nacional, abraçada por todos, mesmo por aqueles que julgam que o combate está a perder fôlego, esquecendo-se, se calhar, da independência dos poderes e dos muitos obstáculos que têm sido colocados ao ritmo da sua execução por aqueles que estão a ver os seus interesses beliscados e assumidamente se posicionam contra, ou, sobretudo, e porventura mais perigoso, por quem circunda as esferas do poder e se bate debaixo do pano pelo fracasso das políticas de mudança.
O sentimento de insegurança que se vive, também, pela ampliação de alguns crimes mediáticos, aliado a alguns “incidentes” e à campanha de destruição de bens públicos, não deve ser visto como mero acaso, obrigando a atitudes firmes e determinadas por parte das autoridades, sem olhar a qualquer eventual conexão não importa qual.
Até porque se abriu uma nova fase na disputa política que não deve ser encarada displicentemente por quem tem ambições de cumprir as promessas eleitorais e está sob pressão da satisfação das expectativas criadas com a mudança de ciclo.

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