Opinião

Sopranos

Víctor Silva

O país reclama por reformas urgentes para inverter o quadro de atraso e subdesenvolvimento por que passa, com os indicadores humanos a roçarem o ridículo quando, em contraponto, abundam as riquezas naturais, a maioria ainda por explorar.

Num acto de contrição, o partido no poder, o MPLA, fez do slogan produzir mais para distribuir melhor a sua bandeira, como reconhecimento que era possível viver-se melhor  em Angola, apesar dos muitos pesares que foram marcando a História do país desde a proclamação da independência e, sobretudo, depois do final do conflito militar.
A penitência terá ficado pelo confessionário já que não só não se produziu mais, como a distribuição foi sendo cada vez mais selectiva para um grupo privilegiado que, bem vistos os  contornos, se preparava para tomar de assalto o poder económico e, com ele, influenciar a vida política.
A proclamada política de diversificação económica não passou de uns quantos exercícios de sucesso duvidoso e, ainda por cima, dirigidos quase sempre pelos mesmos do costume, fazendo com que se fechassem negócios, se rompesse a malha produtiva do país, atirando para o desemprego milhares de trabalhadores que só vão contando para as estatísticas e ( também) para o voto.
A economia estagnou, assumiu-se oficialmente, quando na realidade já se andava em recessão há pelo menos dois anos, por força de uma conjuntura internacional adversa em que a crise se reinstalou nas grandes praças financeiras e as principais comodities  foram derrapando em sintonia. O petróleo, de que o país é supradependente, foi dos mais penalizados e com isso destapados muitos dos buracos que a aparente abundância tapava com uma camada tão leve que se viu não ter capacidade para resistir a um sopro mais prolongado.
Portanto, a ideia de produzir mais esfumou-se nas intenções e havendo menos para distribuir assistiu-se ao açambarcamento do pouco existente. Um pouco que, no caso de Angola, ainda permitiria significativos avanços no atendimento das necessidades básicas dos cidadãos, da saúde à educação, passando pelo emprego, habitação, saneamento, transportes, numa palavra, melhor qualidade de vida.
Na sequência da acumulação primitiva de capital, uma minoria aproveitou-se, e de que maneira, dos bens públicos para benefício pessoal. E é essa minoria que se manifesta, de diferentes formas contra a campanha de moralização da sociedade e o combate à corrupção e à impunidade que as novas autoridades, entretanto eleitas, estão a desenvolver. Essa minoria pensa (va) estar acima de tudo e de todos. Que podia tudo, sem olhar a meios e como disse um renomado fiscalista perderam o medo, porque acreditavam que a lei era para os outros e letra morta para os seus insaciáveis apetites.
E é essa minoria, porque está a ver os privilegiados interesses ameaçados, que procura agora  minar a autoridade da nova liderança, não apenas pondo em causa políticas e práticas, como desafiando o próprio poder, chegando mesmo a ameaçar o Estado. Não espanta  que muitos movimentos e acções que vimos assistindo no quotidiano para descredibilizar as actuais autoridades tenha proveniência intramuros.
É consensual que a corrupção é um dos piores males que afectam o país. Aliás, em abono da verdade, poderá dizer-se tratar-se de uma praga à escala planetária com que se confrontam quase todas as sociedades, em graus e números diferenciados.
Se há três décadas, quando foi publicamente reconhecido como o segundo mal depois da guerra, já era difícil combater a corrupção, hoje esse combate é ainda mais difícil, porque entretanto se formaram castas económicas fortes, encostadas aos pilares do Estado, e que se movimentam com algum à-vontade nos corredores do poder, tendo ainda alguma margem  de manobra.
Talvez por isso façam publicitar que a nova liderança  esmoreceu, foi obrigada a travar a cruzada  pela moralização da sociedade, contra a corrupção e contra a impunidade. E minimizam as acções já tomadas, resumindo-as a uma perseguição pessoal contra algumas figuras perfeitamente identificadas, qual caça às bruxas, esquecendo-se, propositadamente, dos muitos biliões que, entretanto, se pouparam, mas que ainda assim não são suficientes para tapar a enorme cratera existente nas contas públicas e que impede a normalização da vida no país.
Propositadamente insinuam a dependência da justiça do poder político para  justificar essa sua campanha de descredibilização das novas autoridades, fazendo passar a imagem de muita “parra e pouca uva”, ou seja muitas promessas e poucas realizações, concretamente poucos resultados nos casos conhecidos sob investigação que teoricamente  não estão a dar em nada. Querem transpor para o presente  práticas recorrentes de um passado recente onde, efectivamente, estavam acima da lei e hoje, quando confrontados pela acção da justiça, fogem a sete pés para refúgios internos ou no estrangeiro de onde urdem as acções para fragilizar as instituições democraticamente eleitas.
A questão da bicefalia não foi despropositada e visava fraccionar  o MPLA  entre “eduardistas” e “lourencistas”, comprometendo o processo de transição política que, em tese, culminará  em Setembro na passagem de testemunho na liderança do partido. Gorada essa tentativa, recorrem a outros meios para minar a autoridade da nova liderança e o seu empenho na cruzada  contra esse cancro da corrupção, coerentemente reiterada em todas as ocasiões, seja no país ou no estrangeiro.
Mas, por muito que esperneiem ou mais alto que gritem, definitivamente, a impunidade tem os dias contados e nada será como dantes!

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