Opinião

“Study cases”

Caetano Júnior

A senhora exultou com a indicação, pela empresa, para frequentar um “workshop” que a ajudaria, segundo a propaganda que precedia o evento, a fazer um “upgrade” ao “knowledge” que já detinha. Por outro lado, também lhe proporcionaria a oportunidade para interagir com os melhores “coaches” que o mercado conhece.

 Era, na verdade, mais do que os “briefings” que costumam estar destinados a outros colegas, dos quais à saída a maior parte se queixava, porque orientados por “flops”, que sequer tinham conhecimento para oferecer a eles mesmos. Mas este seria diferente, um “training” à medida das obrigações que se lhe abriam pela frente.
Ela ainda alimentava alguns receios, se calhar pelo “low profile” que a caracteriza, preferindo sempre estar protegida das atenções. Portanto, não sabia como seria recebida entre gente que mal conhecia. Mas era preciso ir ao “training”, porque buscava fortalecer o “know-how”. Urge, hoje, estar atento às transformações que ocorrem nas mais diversas áreas do saber e “be aware” desta realidade foi sempre preocupação dela, que estava, entretanto, longe de imaginar que o “meeting” não corresponderia às “expectations” que alimentou.
A imagem que se descrevia do “teacher” era a de um ser “open mind”, “polite”, cujas aulas sobre “leadership” mereceram, inclusive, o reconhecimento internacional, como lhe chegou a confirmar um “classmate”. “In the beginning”, ela ainda chegou a colocar dúvidas à “mental health” do “man”, afinal, ela não lhe percebia grande parte do “speech”. Ele falava substancialmente em Inglês, ora ornamentando o discurso com “signs” de Português. Era como se Shakespeare tivesse superado Camões no número de falantes no universo Lusófono.
“Oh, my God ... you must have focus, precisam de daring, otherwise, não chegam lá; you don't get there ... Really, sinceramente, é um study case ... Em tudo, é preciso timing, senão, é um crash ...”.
Era invariavelmente esta a linha discursiva do formador. Mais híbrido seria impossível. E depois falava em “soft skills”, “hard skills”, “mindfulness” e outras “crazy things”. Até que a senhora, para não ter um “crash”, escolheu abandonar o workshop, “just in the first day”. À saída, ainda teve de se justificar ao “steward”, que pretendeu saber por que razão ela “quits” de um tão importante e concorrido curso.
“Não sabia que a formação seria ministrada em Inglês, perdoem-me”, disse a mulher, recorrendo ao pouco de paciência e educação que ainda lhe restavam. E seguiu o seu caminho, se calhar a tentar entender a razão para que a Língua Portuguesa esteja aos poucos a ser substituída pela Inglesa. Pelo menos, em eventos como o que sustenta o presente texto e em discursos de analistas, comentaristas e outros opinadores, na Rádio, na TV e na Imprensa. Chega até a haver dúvida sobre se eles têm realmente noção do que querem dizer - ou se são entendidos.
Sobretudo em fóruns fechados, geralmente sob o nome de “workshop”, “training”, “refresh” ou outro igualmente pomposo, verifica-se (não a tendência, mas) uma comprovada opção pelo uso de palavras, termos ou expressões em Inglês, mesmo na situação de a comunicação poder ser feita em Português. Será do ambiente, capaz de conferir ao orador uma aura de invulgar respeitabilidade e o obrigar a corresponder, mostrando à audiência que é erudito e que, entre as valências que domina, conta-se a Língua de Shakespeare? Muitos de nós já se confrontaram com esta realidade e se terão questionado sobre as bases que a sustentam. Aliás, mais do que o pendor crescente, virou comum encontrar eventos com denominação nesse idioma, inclusive organizados pelo Estado, Governo ou por instituições que por eles respondem. É “chic”; é “fashion”.
Mais grave é constatar que o gosto pelo uso de palavras ou expressões do Inglês começa a transferir-se de espaços fechados, de “meetings” ou “workshops”, para a realidade quotidiana, em ruas, escolas, locais de trabalho ou em reuniões. Há quem, no processo de comunicação diária, tenha dificuldades de o fazer sem o amparo de um “british friend”. Dirão que a situação decorre do advento das novas tecnologias, que trouxeram acoplado um conjunto de vocábulos que lhe estão associadas. É verdade! Há, realmente, a influência dessas novas ferramentas. Mas existem excessos a evitar, porque dificultam a comunicação, que deve ser entendida como algo transcendente a simplesmente falar.
Faz, por exemplo, algum sentido usar vocábulos como “feeling”, “outsiders”, “haters”, “push”, “Warm up”, “misunderstanding”, “players”, “link”, “nick-name”, “just in case”, “core”, “misconduct” ou outro, indiscriminadamente, sem ter em conta o contexto no qual se discursa ou a heterogeneidade do conjunto de ouvintes? Numa qualquer acção formativa haverá, necessariamente, espaço para a expressão “trade off”? Não será melhor falar em “equilibrar as situações”? Para determinado quórum, existem palavras ou termos perfeitamente dispensáveis, que, se usados, soam a cruz de Cristo.
Nestes mesmos fóruns, de formandos dentro de fatos e gravatas e de elegantes vestidos ou blusas, fica por se saber, à falta de esclarecimentos necessários a cada palavra estranha, quanta gente termina a formação como para lá entrou, sem conhecimento acrescido. Porque passa a ideia de que é instruída, culta ou erudita, deixa má imagem mostrar que desconhece, por exemplo, o significado de “be wise”. Portanto, convém não perguntar...
Assim, não seremos todos “study cases”? Talvez seja hora de aceitarmos um processo de avaliação, para ao menos sabermos por que nos submetemos ou sujeitamos outros a penosos exercícios. Enquanto isso, no “training”, “be aware”: pergunte o significado! Afinal, “push” não é “puxar”; é “empurrar”. São os chamados “falsos amigos”. Há-os tanto nas línguas, quanto na realidade quotidiana.

 

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