Opinião

Uma agenda de incoerências

Caetano Júnior

A “natureza humana”, este conjunto de características distintas, intrínsecas, como a forma de pensar, sentir e agir, é o recurso preferencial, quando se pretende encobrir, por exemplo, tendências para a incoerência e a desonestidade.

 À “natureza humana”, além de se atribuir qualquer atitude, acto ou gesto, imputam-se, igualmente, afirmações descabidas e até moralmente ofensivas, a que qualquer um se dá ao direito, protegido também pela conveniente, para o caso, “liberdade de expressão”.
Nestes tempos, somos quase diariamente surpreendidos com a entrada em cena, por meio de declarações públicas, de figuras, sobretudo políticas, que têm apontado caminhos por onde a governação deve seguir. Ao Executivo, sugerem, por exemplo, a implementação de agendas, ora para a estabilidade e desenvolvimento de Angola, ora para a concessão do perdão a quem usou, em benefício próprio, milhões de dólares que se destinavam ao combate de doenças, à construção de estradas, escolas ou hospitais ou para outro fim que bafejasse as populações.
Vozes alinhadas no mesmo diapasão avaliam o momento como oportuno para a implementação de uma política de coesão e pacificação do país e de harmonização das instituições. Por isso, não concebem o combate à corrupção como cruzada que valha. Para os também críticos, quem dirige Angola não o consegue fazer sem eleger um inimigo, sem prender pessoas, sem o foco na corrupção. Chegam a admitir que muitos angolanos ainda sofrem em consequência de práticas ruinosas de gestão, do desvio do erário para benefício próprio. Mas opõem-se à condenação dos culpados, para quem deviam ir em paz e assim poderem gozar os proventos obtidos ilícita e imoralmente.
Condenar os réus envolvidos em práticas danosas à economia e às finanças do país é, para estes detractores da governação, um acto desumano e imoral; um procedimento pelo qual não esperavam, porque muitos cometeram e só alguns pagam; porque é justiça selectiva; porque é perseguição. É assim que eles pensam. Como se a Justiça pudesse tratar de todas as situações de uma só fornada ou como se houvesse um país onde se permitisse livre curso a actos que afrontassem a Lei. É, realmente, estranha a “natureza humana”. Mas, na verdade, a muitos deles assusta a prisão, uma perspectiva que nunca os preocupou, porque para lá iam apenas criminosos de delito comum.
Assim, tanto os apelos para o perdão aos réus condenados por actos nefastos ao país, quanto as sugestões ao Executivo para um novo sentido político na governação e as ideias para projectos e programas, vindos de quem os propõe, soam até a chalaça. Mais parecem sair da criatividade de um grupo de engraçados, engajado em entreter o Executivo, para o libertar, um pouco que seja, das ingentes tarefas que se estendem pela frente e lhe proporcionar algum entretenimento. Porém, a serem levados a sério, o quadro transfigura-se.
Com efeito, se os recados enviados ao Executivo forem para consideração, os subscritores não os deviam fazer sem que antes eles próprios se tivessem submetido a uma introspecção; sem que primeiro fizessem um recolhimento para auto-avaliação. Se assim procedessem, teriam percebido a dimensão da incoerência que constitui a agenda que aconselham ao Executivo. A menos que os esteja a impelir uma acção coordenada, um trabalho conjunto, direccionado no sentido de colocar em causa a actuação do Executivo e de quem o encabeça, o Presidente João Lourenço. Chega a ser lugar-comum referir a “teorias da conspiração”, quando indicadores de contextos específicos encaminham para situações, no mínimo, estranhas. Porém, nesta abordagem concreta, parece haver mais do que uma “convenção do mal” a tentar fazer florescer um estado de opinião desfavorável ao Governo.
O grupo de individualidades que hoje questiona as acções do Executivo sequer se lembra - ou faz-se esquecido - que o Presidente João Lourenço e seus colaboradores estão nestes dois anos a tentar corrigir males legados pela República anterior, de que estes mesmos críticos foram parte integrante. Alguns deles ocuparam por anos cargos nos quais tinham o poder de travar benefícios gerais e o privilégio de até instituir leis, outorgando-se o direito de manipular contextos e situações. O que faziam, enquanto observavam, serenos, o abismo engolir o país? Construíam o império pessoal, à custa da morte e da miséria de milhares de angolanos! Por que não se lembraram então das acções que agora tentam impingir ao Executivo? São muitas as capas sob as quais uma conspiração se apresenta.
Se estivessem, estes críticos, movidos pelo genuíno desejo de ajudar para o crescimento de Angola, há muito tempo teriam deixado a sua contribuição. O melhor contexto para o fazer foi enquanto estiveram investidos de poderes: eram temidos, ditavam e decidiam. Mas mesmo hoje ainda vão a tempo. As reuniões do partido são espaços para discussões amplas, exposição de ideias e apresentação de propostas; são lugares vocacionados para a interacção. Portanto, se pretendem realmente ajudar, façam-no ali.
De outra forma, é oposição ao processo em curso, que se pretende que desemboque na moralização e na probidade; é ajudar a cumprir agendas carregadas de incoerência e pensadas para a desestabilização e desmoralização de um Governo, ao qual se deu, há dois anos, uma pulga para que a transforme em elefante.

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