Opinião

Uma escolha a reverter

Caetano Júnior

Cerca de 80 por cento das pessoas que frequentam as mediatecas em Luanda buscam apenas o acesso às Redes Sociais e não necessariamente a pesquisa ou investigação de conteúdos académicos; de matérias ligadas à ciência e à tecnologia.

A estatística chega-nos pela voz do director da Rede de Mediatecas de Angola (Rema), Bengui Saúca, e a informação mostra ainda que não são apenas estudantes quem visita esses lugares talhados para a recolha e obtenção de conhecimento.
O problema de fundo, quando se avalia o que disse Bengui Saúca, não está em questionar o livre arbítrio ou, como é o caso, a liberdade de cada um escolher o que ler e ver ou por onde navegar, segundo os fins que persegue, durante o tempo que passar numa mediateca - lugar criado para facilitar o acesso dos estudantes ao conhecimento. Preocupa, sim, a quantidade de usuários que dá utilidade pouco conveniente aos meios que podem ser muito mais producentes, ao invés de os transformar em meros veículos para, em grande parte das situações, disseminar futilidades e receber de volta caricaturas do mesmo campo lexical.
Já quase tudo se disse, em relação a algumas das principais razões para o baixo nível intelectual e a iliteracia de grande parte da população estudantil e para que o processo de ensino e aprendizagem por cá esteja como o conhecemos - débil e nada recomendável -, quando nos chega ao conhecimento que 80 por cento dos utentes das mediatecas têm-nas como caminho para as Redes Sociais. Sabedores que somos do que, geralmente, circula nestas plataformas, fica fácil concluir que a maior parte de quem as frequenta confere pouco valor à informação útil, despreza o conhecimento formador, enfim, prefere desperdiçar energia eléctrica e gigabits a baixar insignificâncias.
“Que futuro brilhante espera por muitos desses nossos jovens estudantes ...” É o mínimo que, ironicamente, sai do pensamento, ao se conhecer a realidade que se vive dentro das mediatecas. Um dos grandes problemas com que Angola se confrontou, desde que se conhece como Nação independente, foi o da inexistência de quadros que lhe permitissem atender os desafios que a nova realidade abria pela frente. As grilhetas da colonização impediram, durante anos, que filhos desta terra vissem sequer um livro, fundamental, quer para o processo inicial de saída das trevas - a ignorância e elementos que lhe são periféricos -, quer para a consolidação do conhecimento intelectual.
Hoje, diferente do passado durante o qual os livros físicos eram recursos únicos para a busca de conhecimento e, por isso mesmo, privilégios de uns poucos, que acabariam endeusados, abundam informações técnicas, científicas e gerais bem à mão, por exemplo, num telefone ligado à Internet. Nestes tempos abençoados pelo advento das novas tecnologias, o saber deambula livre, abre-se de par em par, sem os constrangimentos de ontem, para dar vazão à necessidade do Homem se cultivar e preencher o “repertório”.
Também hoje, multiplicam-se os fenómenos e eventos que desafiam o ser humano no meio que o rodeia, o que o leva a munir-se de ferramentas técnicas e científicas e da inteligência necessária para uma resposta à medida das exigências. Nalguns contextos, mesmo o mais simples emprego exige parâmetros difíceis de atender. Para tanto, só o recurso a uma sólida escolarização, ao conhecimento cuja aquisição obriga à disponibilidade total, à dedicação e à paciência. E, sinceramente, não é a esbanjar tempo na visualização de trivialidades ou na colocação de “Likes” até a ofensas morais no Facebook ou no Instagram que se dá provimento à urgência de se edificar um ser instruído.
As Redes Sociais há muito têm dado provas de ser um espaço de desinformação, de deformação e de disseminação de falsidades sobre pessoas e instituições. E o que estarão lá a fazer os 80 por cento de utentes das mediatecas? De certeza que, além das trivialidades do costume, estão a alimentar-se de “fake news”, para que faça algum sentido o labor dos chamados “propagandistas”, estes “difusores profissionais de informação”, como lhes chama o jornalista Paulo Pena, que podem ser agências de comunicação ou militantes de causas obscuras.
De certeza que a população de internautas das mediatecas gastaria o seu tempo e o dinheiro aplicado por quem criou e mantém o espaço de maneira mais racional e útil, se investisse na pesquisa, na investigação, enfim, no conhecimento técnico, científico e geral; na sua própria formação intelectual. Já é tempo de quem o faz deixar de ver nas Redes Sociais o meio de informação privilegiado e de fazer das “fake news” relatos credíveis.
Numa altura em que a Comunicação Social tenta produzir um Código de Conduta que reafirme a sobriedade do jornalista, calha lembrar a necessidade de alguma contenção na intervenção deste nas Redes Sociais. Quem grita contra o que chama “ataque à liberdade de expressão” e insiste em que o profissional da imprensa pode dizer e escrever o que entender, em nome do direito à opinião, deve, ao menos, atender o compromisso moral que o liga à empresa na qual trabalha, para que seja sempre protegida, independentemente das circunstâncias. É, sobretudo, uma questão de ética, de princípio. É consciência!
É preciso reter que, a cada indiscrição levada ao domínio público, alguém ou uma instituição pode sair lesada. Além disso, é, sobretudo, por causa de inconfidências e de matérias no mesmo alinhamento que 80 por cento dos frequentadores das mediatecas preferem acessar as Redes Sociais e ignorar sites com temas edificantes.
Vamos, pois, encorajá-los a reverter a opção.

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