Opinião

Uma nova face do jornalista

Caetano Júnior

Há algum tempo que se começou a desenhar uma nova face do jornalista, consumada na antítese do que ele representou no passado e dos pressupostos em que assentam a fundação do Jornalismo enquanto ciência ou actividade profissional.

Este jornalista tem a faceta potenciada pelo advento das novas tecnologias e vive, como avalia Catarina Carvalho, no mesmo ecossistema das notícias falsas, no ambiente digital, nas redes sociais, enfim, nas plataformas. Ele não se importa com os valores mais elementares que balizam a actividade para a qual foi empurrado e, por isso mesmo, lhe desconhece até fundadores, precursores e moralizadores.
O jornalista que agora emerge alienou-se das particularidades inerentes à actividade profissional propriamente dita. Preferiu dedicar todo o conhecimento de que se gaba a uma causa que, por tão próxima que pareça, dificilmente se compara ao Jornalismo. Apenas se confunde. O jornalista que hoje se revela está longe de o ser e muito mais ainda de o dignificar, porque ora investe no anti-jornalismo, ora invade o espaço reservado a quem carrega a bandeira do activismo social, fazendo-lhe uma concorrência desregrada.
A divulgação, cada vez mais recorrente, em redes sociais ou em publicações digitais, de elementos que revelam situações de supostas irregularidades ou alegadas injustiças que terão ocorrido em instituições públicas já há muito tempo deixou de ser novidade. Aliás, tornou-se um fenómeno corriqueiro. As “queixas” chegam quase invariavelmente de colaboradores das próprias empresas, nem sempre movidos pelo genuíno interesse de ajudar e muitas vezes incentivados pela intenção de minar o ambiente interno. No passado, eram usadas cartas anónimas. Hoje, o recurso às novas tecnologias facilita a acção e a cobardia do anonimato ajuda a instalar a confusão.
O problema deve colher a atenção geral. Contudo, de maneira particular, precisam de estar preocupados os profissionais da Comunicação Social, quando fica exposto o sector de que fazem parte, independentemente de estar em causa ou não a empresa que representam. Quem ainda preza o Jornalismo e se revê no profissional da imprensa arde de vergonha ao se dar conta destes incidentes, idealizados e colocados em marcha por quem não avalia consequências. São os representantes desta nova face do jornalista. Anima-os o “projecto publicar”. Socorrendo-se da liberdade de imprensa, do direito à informação, dão tudo como publicável. Se matéria falsa ou falseada, se retirada do real contexto, se manipulada, com base em declarações pronunciadas de forma inocente ... Interessa-lhes levar ao público algo susceptível de fazer criar um estado de opinião degradante.
Um dos perigos, na disseminação de informação de eventuais problemas internos em empresas, é o clima de suspeição que gera e a natural desarmonia que se segue. Porque a divulgação é sempre feita sob anonimato ou à custa de um pseudónimo, estende-se um manto de suspeição, um ambiente de olhares desconfiados, o que cria desconforto, chegando, inclusive, a pôr em causa a integridade moral de colegas. Sobretudo num contexto em que parte considerável dos colaboradores não se revê nas supostas “denúncias” e outros ainda avaliam haver sempre espaço, internamente, para discussão e convergência de ideias, não se justificando, portanto, levar o assunto para fora do âmbito que o gerou. A menos que o ímpeto repentino de jornalistas para a divulgação de situações menos abonatórias à empresa se justifique simplesmente na acção de fazer desacreditar gestores e generalizar o mal-estar.
Mesmo que sejam reais, transportar situações de empresas para o domínio público implica, necessariamente, levar assuntos particulares para o conhecimento de terceiros. Por via desse tipo de divulgação, vão parar à mesa do bar ou à conversa sobre futebol assuntos íntimos de pessoas que não gostariam de os ver discutidos nestes espaços. O estado de saúde de alguém, por exemplo, a ele próprio, aos familiares e aos amigos diz respeito. Por que razão tem de ser conhecido por um estranho na Internet?
A privacidade de um doente deve mesmo ser violada, porque alguém se arroga a um qualquer “direito de informar”? Vamos aceitar que uma mente perigosa especule sobre que mal o estará a apoquentar? Antes de verem o seu nome a animar discussões, essas vítimas do desejo desenfreado de tudo publicar deviam, pelo menos, ter a oportunidade de ser ouvidas. Até mesmo para beneficiar de uma possível corrente de apoio material ou financeiro mereciam ser consultadas. Afinal, nem de todos queremos ajuda.
Ufano, depois do trabalho de levar ao conhecimento público o “estado” da empresa onde labora, acredita o jornalista ter prestado uma espécie de serviço carregado de nobreza. Não! Pelo contrário, emaranhou-se num processo de desacreditação de si próprio e do Jornalismo e contribuiu para as acções que têm feito ruir as fundações que o suportam. Que credibilidade tem quem não hesita em publicar assuntos internos à instituição com a qual tem compromissos moral e laboral? Por que dignidade pode clamar aquele que sequer consegue respeitar uma casa que devia proteger? Que fonte confiaria o seu segredo a um jornalista que se mostra incapaz de manter o sigilo profissional? Que seriedade se espera daquele que procura fazer de qualquer futilidade um problema nacional? Na verdade, toda a sorte de desonestidade pode vir de quem faz transbordar para a rua o que devia circunscrever-se às quatro paredes.
É também de credibilidade que o assunto trata. Elemento indispensável à actividade jornalística, com a qual, aliás, nasceu. Chega-se à credibilidade gradativamente, com o tempo e a prática e com acções revestidas de carácter, ética e moral. A credibilidade, tal como se perde, também se ganha e se recupera. O jornalista estabelece-a e a consolida por via de uma relação de confiança com uma fonte, com as pessoas, com a sociedade, enfim, com a verdade e, já agora, com os colegas, de trabalho e de profissão. Quem tudo faz passar para o conhecimento público, inclusive informação vazia de interesse geral, dividida entre o falso, o duvidoso e o manipulado, dificilmente chega a ser credível.
Portanto, a crítica à qualidade do trabalho jornalístico e à competência e à credibilidade do jornalista dispensam elementos comprovativos adicionais, quando são os próprios profissionais (?) da área a levar para o escrutínio público provas de falta de ética, de responsabilidade, de profissionalismo e de outros valores que estão na base da instituição do Jornalismo e sem os quais a profissão agoniza. O pior é que também nós, publicações, damos testemunhos a estes desvios de conduta. É triste.

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