Opinião

Uma questão de respeito

Caetano Júnior

A Comunicação Social pública parece dividida ou mergulhada em discórdia. E prova-o um recuo à última semana, quando a RNA e a TPA tiveram alterações nos Conselhos de Administração.

As reacções às mudanças foram, sobretudo, de gáudio pelos recém-nomeados e repúdio aos membros da equipa que deixou as funções. Os comentários mais desfavoráveis aos exonerados vieram, principalmente, de jornalistas dos respectivos órgãos.
Palavras e gestos expressivos de alguma humilhação caíram sobre os apeados das administrações, fazendo com que se retirassem com a dignidade lesada. É como se terem sido exonerados equivalesse a uma espécie de permissão velada para que fossem submetidos a sevícias. Foi excessivo. Uma atitude reveladora de falta de respeito para com pessoas que, malgrado os eventuais erros de gestão ou actos de injustiça que terão praticado, aceitaram os cargos imbuídos da intenção de ajudar, como o faria qualquer um. E um indício de que falta coesão no seio da classe.
Tomara que nos apartassem perspectivas ligadas à componente técnica e científica do nosso trabalho; que nos dividissem ideias, formas de avaliar ou metodologias que orientam a nossa maneira de actuar. Bom seria, de facto, que os nossos confrontos de inteligência se alargassem à Academia e às particularidades que a potenciam. Aí, sim, estaríamos todos a contribuir para a geração de crescimento e a encher de potencialidades o sector a que pertencemos.
Mas não! Dividem-nos os cargos; separam-nos os lugares de direcção; enfim, põe-nos de costas viradas um assento no Conselho de Administração ou num qualquer pelouro desta. Se as nossas desinteligências se devessem à avaliação do que trazem os novos gestores para mudar o que está mal na empresa; o que são capazes de melhorar, já seria positivo. Mas sequer é esta a discussão. A cada desejo de mudança, a cada súplica para que certo administrador desocupe a cadeira, move-nos mais o individualismo, motiva-nos, sobretudo, o egoísmo, a cultura de querermos ver os nossos próprios interesses salvaguardados.
De nada parece servir-nos a instituição de um “Dia da Felicidade”, para celebrar as novas entradas. Somos nós mesmos que, em pouco tempo, estaremos desapontados, de expectativas goradas, a destilar males sobre os novos administradores. Porque eternos insatisfeitos e mestres no egoísmo, depressa nos fartamos de pessoas e situações. Ainda que conheçamos que soluções portam os novos gestores, para alterar positivamente a difícil realidade da empresa, num contexto de reconhecidas dificuldades que a economia e as finanças do País vivem. Não nos esqueçamos que o quadro difícil que caracteriza as instituições em Angola é reflexo da circunstância de crise, que deixa pouca margem para a busca de alternativas.
Também é preciso pensar na pressão debaixo da qual entram os novos gestores. Este ambiente fá-los acusar demasiada responsabilidade; coloca-lhes excessivo peso sobre os ombros, quando deviam encontrar uma atmosfera menos pesada. Seria óptimo, para os ajudar a enfrentar a tarefa que os aguarda. Portanto, se seguirmos permanentemente desavindos, a contestação a cada gestão vai continuar. Urge, pois, redefinir a natureza dos nossos interesses, mudá-los do pessoal para o comum.
As mudanças devem ser avaliadas enquanto processos naturais, necessários para renovação, motivação, melhorias, enfim, para ajudar a potenciar as instituições e os quadros que lhes dão vida; à partida, não ocorrem em benefício de pessoas, muito menos respondem a interesses de grupos. Propendem, pelo contrário, para o bem colectivo. As mudanças são também contingências a que está sujeito quem abraça desafios, para os quais se viu preparado, embora, com frequência, lhe faltem garantias sobre o tempo que duram e as condições que o esperam. A única certeza é que a missão que lhe foi confiada vai terminar, mais cedo ou mais tarde.
Entre nós, cultivou-se o costume da pressão para a destituição de administradores ou da totalidade do Conselho de Administração, sem, contudo, nos determos para avaliar as vantagens da alteração; a mais-valia técnica, científica e até administrativa de quem entra ou sai. E esta discussão impunha-se. Pelo menos, ajudaria a estimar que empresa tínhamos, como se encontra e o que propor à nova gestão, para uma resposta mais adequada aos anseios dos colaboradores, valiosos activos no alcance das metas previstas. Pelo contrário, preferimos limitar a nossa preferência a critérios subjectivos, alicerçados em elementos como, por exemplo, a simpatia.
De facto, quando oramos por uma nova administração, fazemo-lo, muitas vezes, na esperança de que nos calhe alguém próximo, conhecido, das nossas relações, que nos conceda privilégios e nos ajude a “vingar-nos” de quem, acreditamos, na gestão anterior tornou-nos a vida num calvário. Eis a razão para que grande parte dos nossos dias sejam preenchidos por desavenças. Melhor se fossem discórdias saudáveis, por razões mais edificantes. Infelizmente, não. Estamos a escrever capítulos vergonhosos do nosso trajecto enquanto integrantes dos órgãos públicos de Comunicação Social.
Saída e entrada de administração é um velho processo nosso conhecido, que já nos não devia dividir. Pelo contrário, melhor seria usá-lo para criar/reforçar o espírito de grupo. Por isso, ao invés de, a cada mudança, assinalarmos o “Dia da Felicidade”, vamos tê-lo como o “Dia da Reflexão” e discutir o que correu mal para que a gestão fosse interrompida. Do mesmo modo, usar a fracassada experiência para dotar de informações úteis os gestores que daí em diante vão conduzir a instituição. Se nos merece aplausos quem entra, devemos dedicar algum respeito por quem sai. É o mínimo! São apenas cargos - por mais benefícios que nos tragam e inteligentes nos façam parecer -, efémeros, independentemente do período que duram. Valem mais a profissão, o profissional e o profissionalismo. 
É possível dirimir as nossas diferenças e apagar de vez a imagem de permanente desunião que o sector público da Comunicação Social esbanja. Para tanto, é suficiente estarmos juntos, em torno do mesmo objectivo. De outra forma, não haverá Conselho de Administração que cumpra um mandato.

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