Opinião

Uma tradição importante?

Caetano Júnior

Uma notícia chocante caiu sobre quem ainda tem entre as suas preocupações assuntos ligados à diferença entre as pessoas, ao respeito e à salutar convivência que deve imperar entre os seres humanos.

 O jogador brasileiro Malcom deixou, recentemente, o Barcelona, trocando-o pelos russos do Zenit. Um acontecimento trivial no universo futebolístico, não fosse o que se deu a seguir: no jogo de estreia, o médio/atacante foi alvo de insultos racistas por parte de um grupo de adeptos extremistas do próprio clube.
Quem considera intolerável a atitude dos adeptos mais surpreendido fica, ao conhecer que o clube não se mostrou minimamente solidário com o atleta. Pelo contrário, prepara-se para voltar a vendê-lo, pois só assim acalmaria a cólera dos insurrectos apoiantes. “Talvez o Zenit venda o Malcom já em Janeiro, devido aos problemas de racismo. Os adeptos não o aceitam”, esclareceu uma fonte da direcção.
De facto, os adeptos não apenas rejeitam a presença de Malcom, como vincaram os hediondos valores que os guiam: estenderam uma tarja, na partida de estreia do brasileiro, na qual recordam que faz parte da história do clube não ter jogadores negros. “Obrigado líderes pela vossa lealdade às tradições”, lia-se na faixa. E, como faria um grupo de retrógrados que quisesse passar por gente normal, consciente, pedem que o gesto mereça compreensão.
“Não somos racistas e para nós a ausência de jogadores negros é simplesmente uma tradição importante ... e nada mais”, pode ler-se num documento divulgado pelo bando de insociáveis. “Uma tradição importante”? Os povos definem-se, sobretudo, pelos factores culturais que os caracterizam. Elementos como língua, música, dança, culinária, usos e costumes são as suas principais marcas distintivas. É este o conjunto que faz a tradição de um povo; é a sua memória colectiva.
Portanto, não há, numa organização cujas acções obrigam a uma permanente interacção, onde nem como encaixar gestos que impliquem desprezo pelo próximo. Menos ainda quando as atitudes de rejeição são consequências de factores como a cor da pele ou a origem geográfica. “Uma tradição importante” não repele, não ofende. Nem os seus integrantes promovem o ódio e a xenofobia. Pelo contrário, atrai e acolhe, porque está recheada de valores e de particularidades com os quais muitos, estranhos ao meio, gostariam de tomar contacto, de interagir. A pré-história há muito ficou para trás e com ela expiraram atitudes de suposta supremacia que muitos insistem em tentar ressuscitar.
Faria bem a Malcom virar as costas ao projecto Zenit. Nem o clube, nem os adeptos o merecem. O jogador terá uma difícil coabitação e a integridade física em risco, num meio que lhe não suporta a cor da pele. Aliás, a frequência com que ocorrem os episódios de racismo contra futebolistas negros, sobretudo na Europa, devia obrigar a uma séria reflexão, quer das instituições internacionais ligadas ao desporto, quer dos clubes e dos respectivos países. A atitude de absoluta tranquilidade afivelada pelo Zenit, depois do incidente, é bem o exemplo da indiferença com que o problema é encarado. Sequer a UEFA e a FIFA esboçaram uma reacção.
“Bem, a questão é entre o clube, o atleta e os adeptos”, terão pensado responsáveis das duas instituições ligadas ao futebol. Mas não é. O assunto é de interesse geral. Deve, inclusive, estar entre as preocupações de pessoas que pouco se importam com o desporto. Afinal, estamos perante uma extensão do racismo, mal com que nos confrontamos quase diariamente, por via de cenas que nos chegam pela Media e que outros têm a desdita de testemunhar ou suportar directamente.
É a mesma linha de intolerância que nutrem adeptos do Zenit que encorajou e serviu de rastilho para actos macabros, perpetrados, por exemplo, este ano, em mesquitas na cidade de Christchurch, na Nova Zelândia, em Março (49 mortos 48 feridos); numa sinagoga de Poway, Sul da Califórnia, em Abril, e os de há uma semana, em El Paso, no Texas (30 mortos em dois atentados, intervalados por 13 horas).
A mesma profissão de ódio leva a que se usem fóruns online, como o norte-americano 8Chan (já encerrado), não propriamente para partilhar opiniões e fomentar debates construtivos, mas, pelo contrário, para manifestos racistas e encorajamento do tétrico. Hoje, pessoas são perseguidas, humilhadas, violadas e assassinadas por existirem, simplesmente. Ao mesmo tempo que vivem, que dão conta da sua presença, transformam-se em alvos de quem os vê como seres sem mérito para a vida, por causa do tom da pele, da religião que professam, do país de nascimento, da origem étnica ou do clube por que gritam. As razões por detrás de um assassinato nunca foram mais triviais.
Em jeito de consolo, para quem corre em sentido contrário ao exercício de ódio, racismo e intolerância, fica, entretanto, a veemente condenação de Trump aos atentados de El Paso. O Presidente norte-americano é duramente criticado pelo seu discurso anti-imigração, o que, para analistas, contribuiu para os ataques de motivação racial. Na mesma esteira, insere-se a expulsão de Daniel Frahn, do Chemnitzer, onde jogava desde 2015. Capitão de equipa e melhor marcador na época passada, o avançado, de 32 anos, foi afastado do clube da terceira divisão da Alemanha, devido a ligações à extrema-direita.
Também na Alemanha, o empresário e presidente do Schalke, Clemens Toennies, tem o cargo em risco, na sequência de declarações polémicas. Num fórum, defendeu a construção de centrais eléctricas em África, sob a alegação de que “os africanos poderiam parar de cortar árvores e de fazer crianças quando anoitecesse”. A seguir disse-se arrependido e admitiu ter solto “uma tolice”. Mas não evitou que o presidente da Liga, Reinhard Rauball, considerasse as declarações “completamente incompatíveis com os valores do futebol”. A ministra da Justiça da Alemanha, Christine Lambrecht, foi mais longe: “o racismo deve ser combatido de maneira clara e veemente”, disse, pedindo à Federação o afastamento do empresário do desporto.
Portanto, reacções à medida da gravidade das situações, incompatíveis com as obrigações de que se deve munir quem tem responsabilidades iguais às de um dirigente desportivo ou de um jogador de reconhecida influência. Enquanto o mundo conviver com figuras de relevo que mal dão conta do papel que lhes cabe, continuaremos a assistir a monstruosidades como a protagonizada por adeptos do Zenit e ao silêncio conivente de responsáveis de clubes e de outras instituições locais e internacionais.

 

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