Opinião

Uma transição inclusiva

Victor Carvalho |

Passado que foi o frenesim das eleições, embora a oposição insista em deitar achas para uma fogueira que ninguém deveria querer acender, é tempo da classe política deitar mãos à obra para a continuação do trabalho de consolidação do processo de transição actualmente em curso.

Até ao momento, apesar do “ruído” que aqui e ali vai sendo feito no país, a verdade é que esse processo de transição tem sido conduzido de modo perfeitamente exemplar pelos principais protagonistas políticos e aceite e compreendido pela sociedade, facto facilmente comprovado pelo absoluto voto de confiança que o povo deu ao partido no poder e ao homem que tem sobre os ombros a responsabilidade de dirigir os destinos da Nação durante os próximos cinco anos.
Tendo como principal missão melhorar o que está bem e corrigir o que está mal, o futuro Executivo tem igualmente a responsabilidade de dar continuidade ao processo de transição iniciado com a decisão do Presidente José Eduardo dos Santos não se candidatar ao um novo mandato, apesar da lei prever a possibilidade de o ter feito.
Alguns analistas avançaram, apressadamente, com a possibilidade dessa transição – quando nela se começou a falar – encontrar os principais obstáculos no seio do próprio MPLA,  avançando-se então com cenários dantescos que previam disputas internas cerradas, urdidas em conspirações que deixavam entender a inevitabilidade da existência de ferozes lutas palacianas e de desfechos imprevisíveis.
Mas, a verdade é que o tempo foi passando e aquilo que se viu foi um MPLA fortemente unido em torno do seu candidato a Presidente da República, para dar continuidade a essa transição, caso, como sucedeu, o partido vencesse o pleito eleitoral.
João Lourenço, o líder que a partir de meados deste mês assumirá a Presidência da República, pelo seu lado, teve oportunidade de durante a campanha eleitoral, repetidamente, dizer ao que vinha, assumindo frontalmente a opção de conduzir uma transição política, social e económica inclusiva. Isto é, contando com todas as forças políticas e sociais para dar corpo ao lema escolhido e que norteará a sua acção nos próximos cinco anos: melhorar o que está bem e corrigir o que está mal.
Essa transição inclusiva, para o ser, não pode deixar de lado as forças da oposição que são chamadas a desempenhar o seu papel de fiscalização e de correcção das acções do Governo.
Mas para que a oposição mereça estar incluída nesse processo de transição inclusiva tem que mostrar que está verdadeiramente interessada em desempenhar o papel que lhe cabe de modo responsável, despida de intenções pouco transparentes e capaz de colocar os interesses colectivos de Angola acima das suas ambições e clientelas políticas, baseando-se, antes do mais, no respeito inequívoco daquilo que foi a vontade popular expressa nas eleições de 23 de Agosto.
Sem essa prova de disponibilidade para aceitar as regras democráticas, balizadas pela lei e confirmadas pelo voto, fica difícil a algumas forças da oposição desempenharem o papel que a Constituição lhes reserva e que é de capital importância para o futuro de Angola, pois quanto mais participativa for a sua acção melhores decisões serão certamente tomadas para corporizar a referida transição inclusiva. No calor da disputa política, e  na expressão emotiva da desilusão resultante de um fracasso eleitoral, é pena que se tenha assistido a discursos um pouco mais inflamados, alguns até eivados de expressões fascizantes e que em nada abonam a favor de quem os proferiu.
Depois de tudo o que o Executivo e o partido no poder já fizeram para mostrar que estão verdadeiramente empenhados em liderar um processo de transição inclusiva, é chegada a vez da oposição mostrar que também ela está à altura do desafio que se lhe coloca.
Ficar à margem desse processo, por incapacidade democrática, seria um erro histórico fatal que os seus próprios apoiantes condenariam de modo peremptório.

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