Opinião

Viagem de afectos

Victor Silva

O Presidente da República Portuguesa desembarca na terça-feira em Luanda para uma visita oficial a Angola que antes de acontecer já é considerada a mais importante da sua magistratura.

A presença de Marcelo Rebelo de Sousa entre nós está a gerar uma expectativa inusitada para situações semelhantes, porque ela representa o selar da reaproximação política entre as autoridades dos dois países. Ainda estão frescas as “feridas” recentes da relação entre Angola e Portugal, com um irritante problema que se veio a revelar ser mais mediático do que real e ultrapassável desde que haja, como houve, bom senso na sua solução, sem ferir princípios sagrados de Estados Democráticos e de Direito, com a consequente separação de poderes.
Removido o obstáculo, as relações têm fluído a uma velocidade estonteante que as têm alçado a um nível que não sendo perfeito, nunca o será, se aproxima mais na identificação que já existe entre os dois povos nos mais diversos domínios.
Em entrevista ao Jornal de Angola, a ser publicada nos próximos dias, o Presidente Marcelo Rebelo de Sousa interrogava-se sobre as razões porque, ao nível político, as relações bilaterais não tinham a mesma dinâmica que o entendimento das pessoas de ambos os países. Estariam os políticos, dos dois lados, a fazer o suficiente para nivelar esse relacionamento a todas as esferas?
O tempo, ainda que curto, tem demonstrado que se está no bom caminho porque permitiu não apenas que se rebuscassem uma série de acordos que estavam na prateleira há bastante tempo, como abriu caminho para que outras formas de cooperação possam ser accionadas a bem dos respectivos povos e países.
Para isso, a questão financeira tem um papel fundamental, pois era(é) um dos entraves para relações mais estreitas. O facto de Angola estar a pagar a dívida às empresas lusas, e ambos os países estarem a trabalhar para a certificação de outra parte da dívida, transmite confiança no relacionamento empresarial e abre portas para que outros passos sejam dados para uma maior presença de empresas e empresários portugueses no nosso país. Angola vive um novo ciclo político e isso é, em si, também uma oportunidade que se apresenta para os investidores estrangeiros. A necessidade de dar solução aos problemas da maioria das famílias angolanas passa pela componente da co-operação externa, do investimento, que vai proporcionar emprego e know-how, sobretudo em áreas de grande empregabilidade e retorno, como a agricultura ou o sector mineiro. A desejada diversificação da economia e aumento da produção nacional passa, também, pela deslocação das pequenas e médias indústrias e serviços, mudando-se o paradigma actual de haver quase uma dezena de milhar de empresas que trabalham quase exclusivamente para exportar para Angola. Este tem sido um apelo reiterado das autoridades angolanas que, internamente, vão fazendo o trabalho de casa criando um melhor ambiente de negócios, com menos burocracia e com maiores facilidades para o desenvolvimento de vários projectos de capital externo em sectores que até então eram quase que proibidos.
No domínio social, Angola e Portugal podem dar passos mais arrojados, saindo dos marcos protocolares e dos acordos intergovernamentais, pois a relação bilateral não pode, nem deve, ser feita apenas pelos Governos e instituições oficiais, devendo estender-se aos parceiros sociais locais de ambos os países.
Bastou o Governo ter decretado a realização de exames nacionais, quer de aceso ao ensino superior, quer de admissão a determinadas categorias profissionais, para se destapar uma preocupante realidade sobre o estado do ensino em Angola. A onda de reprovações a que vimos assistindo obriga a que se repense seriamente no sector de Educação e ensino que se tem revelado carecer de uma revolução para se inverter a actual situação, com a adopção de medidas que podem ser entendidas como duras, mas indispensáveis. Inverter a pirâmide dando maior atenção ao ensino de base ao invés da proliferação de universidades e institutos politécnicos, é uma necessidade que não só a realidade, mas também a lógica impõem, porque sabe-se que não se deve construir a casa pelo telhado. Limitar o número de instituições e de cursos que leccionam o ensino superior e apostar em melhorar a base é um bom começo para estancar o mal e voltar ao caminho certo que existia antes da comercialização do ensino.
O liceu Salvador Correia, agora transformado em Magistério Mutu ya Kevela, que está a comemorar cem anos e é uma referência de milhares de quadros angolanos e portugueses, é um veículo, à semelhança de outros, onde a cooperação entre Angola e Portugal na Educação e ensino pode ser mais efectiva e de resultados que se vão colher mais tarde, com a saída de professores mais bem formados, com domínio das matérias e das técnicas pedagógicas modernas.
O mesmo se passa na Saúde, onde pode haver mais do que meras intenções políticas de cooperação. O Governo acaba de sancionar vários acordos com Portugal que vão desde a investigação, à formação e ao intercâmbio de profissionais do sector, entre outros. Apesar destes instrumentos, há programas concretos de formação médica contínua, no âmbito da chamada boa cooperação, a que não deixa a dependência, mas a que permite andar pelos próprios pés a médio prazo. Programas que visam dotar o país de auto-suficiência na matéria de formação médica, para atender os cuidados primários de saúde, diagnosticadas que estão as principais doenças e endemias que, infelizmente, ainda causam muitas mortes em Angola.
Por tudo isto e muito mais, a visita que o Presidente de Portugal inicia, oficialmente, na quarta-feira a Angola e que além de Luanda o vai levar também às cidades do Lubango, Benguela e Catumbela, está a ser considerada um marco nas relações bilaterais, porque, às vezes, um afecto vale mais que mil intenções.

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