Opinião

Vítimas da intolerância política

Victor Silva

Passam-se quarenta e dois anos sobre os trágicos acontecimentos de 27 de Maio de 1977 que marcaram de forma trágica a sociedade angolana, mergulhada na euforia da independência e lutas ideológicas adjacentes e na defesa da soberania ante a invasão estrangeira do território nacional.

Uma data que, à semelhança de outras, hoje, mais do que nunca, deve servir de reflexão, procurando equacionar-se as verdadeiras causas que estiveram na essência de um dos episódios tristes da História recente de Angola, a par, é evidente, da guerra fratricida que por longos e penosos anos acompanhou o nosso quotidiano ao lado de outros acontecimentos que marcaram períodos de perseguição e violência política.
Quarenta e dois anos depois, mantêm-se as diversas versões sobre o ocorrido naqueles nebulosos dias que antecederam e, sobretudo, sucederam na madrugada do 27 de Maio e que deixaram marcas na História, de tal maneira que os seus reflexos ainda são sentidos até hoje. Mas, para bem da reconciliação e unidade nacionais, da consciência dos intervenientes e, sobretudo, das vítimas inocentes arrastadas pelo turbilhão do processo revolucionário em curso, o assunto deixou de ser tabu e tem sido assumido pelas novas autoridades como um acontecimento trágico, sobretudo na família do MPLA, que se soma a outros igualmente tristes ocorridos desde a proclamação da independência, em todos os então movimentos de libertação nacional.
O silêncio, qual homenagem às milhares de vítimas, costumava ser a tónica desta data, como se ela não tivesse acontecido e marcado profundamente o partido então e agora no poder, o MPLA, e quase toda a sociedade, de uma maneira geral. Deixou de ser assim. O Governo já assumiu que pôs em marcha um processo de reparação das vítimas da intolerância política, em que se enquadra, naturalmente, as do 27 de Maio de 1977, mas que o ultrapassa de longe, sendo abrangente àquelas que, noutras circunstâncias e circunscrições, também se viram envolvidas negativamente em actos de prepotência, de intolerância, a custo da própria vida e cuja justiça reclamam até aos nossos dias.
Não foram só os movimentos da pró-Associação dos Estudantes, comités Amílcar Cabral (CAC), comités Henda, OCA, Revolta Activa, nitistas, netistas, fraccionistas e por aí afora, que no fervor revolucionário da época acabaram por se confrontar em discussões que passaram o campo meramente ideológico para se assumirem na ponta das baionetas com todas as consequências daí resultantes. Há igualmente mortes de prisioneiros, adversários políticos, de figuras, de lutas intestinas, de torturas e campos de concentração em outras forças políticas que não apenas o MPLA.
O silêncio não pode apagar que houve uma tentativa interna de assalto ao poder e que a isso se seguiu uma refrega violenta, num ajuste de contas desproporcional que meteu no mesmo campo golpistas, contestatários, pessoas que apenas pensavam diferente e, pior de tudo, outras que nada, mas absolutamente nada, tiveram a ver, directa ou indirectamente, com os factos, e que são a maioria. Foi exactamente depois dos acontecimentos de 27 de Maio de 1977 que o regime endureceu a prática repressiva com perseguições políticas e o cerceamento das liberdades. Muitos dos alegados intervenientes, tidos como oposicionistas, logo catalogados de fraccionistas, ocupam hoje posições de relevo na hierarquia política e governamental, mas isso não pode ser entendido como qualquer compensação ou reconhecimento. Outros, tidos como situacionistas, disputam protagonismos à custa de desempenhos passados obtidos a ferro, mas que não os tornam, necessariamente, em carrascos de ocasião.
Há 42 anos, todos, de um lado e outro, não passavam de jovens entusiastas do movimento revolucionário inflamado por leituras apressadas de manuais ideológicos que postos num caldeirão tinha todos os ingredientes para explodir a qualquer momento.
Quatro décadas depois não se pode andar ainda à procura de culpados, porque nem uns eram os santinhos que se dizem e que queriam levar Agostinho Neto “ao colo”, afastando-o das “más companhias”, nem os outros se podem arrogar o direito da verdade que lhes convém na hora de expiarem as culpas de actos irreflectidos em defesa cega e raivosa de uma ‘dama’ tida como frouxa, mas que, acossada no seu orgulho, vestiu a pele de lobo.
Ainda bem que há o reconhecimento público do que se passou e não mais a tentativa de se passar uma borracha pela História quando, na realidade, ela está cheia de borrascas. O processo de expiação não pode ser uma tarefa exclusiva do Governo, que faz a sua parte. Todos nós, colectiva e individualmente, devemos abraçar a política do perdão, da tolerância e da aceitação dos factos, como fases menos boas de uma caminhada que nos trouxe aos dias actuais.
O que se pretende é um exercício de reflexão conjunto, não apenas ao nível do próprio MPLA, mas de toda a sociedade, para a catarse definitiva destes episódios violentos da História de Angola independente, seja no formato que se julgue o mais apropriado, mas sem o tabu do passado. Porque se no dia 1 de Junho se vai fazer a inumação do corpo do fundador da UNITA para que lhe seja dado o funeral condigno no escrupuloso respeito da tradição, não são poucos os que reclamam tratamento semelhante para se dar paz aos seus entes desaparecidos, muitos deles também a mando do finado que vai ficar no seu Lopitanga.
A reparação das vítimas da violência política não se resume ao 27 de Maio e a data pode e deve ser oportunidade para colocar mais um tijolo na reconciliação nacional, porque, infelizmente, há sofredores em todos os intervenientes político e militares no nosso processo de libertação nacional , da independência, de defesa da soberania e da rebelião armada que se lhe opõe nos seus vários momentos.
Tirando as lições do passado, sem o esquecer, se poderá construir o futuro de unidade e esperança que todos desejamos.

 

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