Opinião

Água rara

Osvaldo Gonçalves

A água para beber é rara. Mas, não é só por ser escassa. O precioso líquido é raro até por ser diferente. Para lavar a roupa, só dá para a escura e para tomar banho, tem de ser depois de ficar muito tempo a decantar. Se na Páscoa, estamos assim, adivinha-se que pelo Natal será pior. No princípio, era uma gota de lixívia por cada litro de água, depois eram duas e agora já são quatro.

Pelo andar da carruagem, ainda vão ser quatro gotas de água por cada litro de lixívia. O porta-voz da EPAL diz que o líquido é potável e nas redes sociais os internautas desafiam-no a ir à televisão em horário nobre e bebê-la ao vivo para toda a gente ver. Haja paciência! Aprende-se na escola que a água pura é insípida, incolor e inodora!
Falta água nas torneiras, falta electricidade nas casas e nas ruas, à noite, é só negrura. Ninguém vê nada. Ninguém ouve nada.
Dizem que é por causa das bruxas que andam por aí a pulular. Fazem-lhes companhia os larápios, que procuram deitar mão a tudo, sejam galinhas, sejam ovos de ouro. Cá de casa, levaram a minha mangueira azul novinha.
Ficou estendida na rua a correr água para o tanque novo. De manhã, em plena Sexta-feira Santa, lá estão duas mangueiras no lugar de uma. Foi como reagi à perda do material, pois já o meu Velho assim alertava quando algo era deixado assim à mão de semear.
Na vizinhança, ninguém viu nem ouviu o que quer que seja. Como só me restava rir, liguei ao meu compadre e lembrei-lhe do azar que lhe bateu à porta quando, há alguns anos, teve, primeiro a botija de gás e depois o fogão roubados.
Segundo me contou, as coisas aconteceram assim: de manhã cedo, quando se preparava para seguir para o trabalho, disseram-lhe que não havia café porque tinham roubado a garrafa de gás, que na casa de aluguer, ficava ligada ao fogão na cozinha construída no quintal.
Passou a recolhê-la de noite e a deixá-la ficar na sala, com os riscos que isso representava para a família, sobretudo, com crianças pequenas. Passaram-se alguns dias até que, numa manhã, descobriu que lhe tinham levado o fogão!
De tão caricato, esse episódio só pode ser comparado ao do do rapaz que, tendo levado a namorada ao cinema Miramar, deixou a motorizada Simpson acorrentada a um poste de luz. Terminada a soirée, encontrou duas correntes no lugar. Foi a casa a pé buscar um serrote de cortar ferro, mas quando voltou só lá estava a roda da "turrú". Disseram-nos que aconteceu um caso idêntico no Cine Atlântico.
Às tantas, foi o mesmo. Mudou é de cinema. Era assim com as fitas dos filmes nos tempos da Edecine: primeiro rodavam no asfalto e aí permaneciam semana após semana até irem parar à periferia. Por mais insolente que fosse, Trinitá levou algum tempo até se aventurar no areal e Lena primeiro procurou o pai na zona urbana antes de bater latas no musseque.
Pois bem, roubaram-nos a mangueira nova. Alguém disse que tivemos sorte em não nos terem levado os tanques, o novo e o antigo. Foi por isso que pensamos no caso do compadre. Num dia de manhã. não há café porque alguém "vungumunou" a botija do gás. No outro, o gatuno disse: “Ai é, estão a se achar?” E pôs o fogão às costas. Bem, quer dizer, só não nos levam a cabeça porque essa, de alguma forma, está presa ao corpo.
Outro amigo quis saber a cor da dita cuja porque tal poderia indiciar o clube de futebol do larápio. Assim sendo, quem a levou não pode ser do Benfica, porque ela é azul.

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