Opinião

A arte do (não) falar

Fragata de Morais

Durante os meus anos de exílio, desejoso de dar maior consistência à vida de bater de porta em porta para vender livros como forma de subsistência e sobrevivência, comprei o livro de Dale Carnegie “How to Win Friends and Influence People” que este escritor de livros de autoajuda escrevera em 1936 e que veio de facto a ajudar-me a impingir, sobretudo às donas de casa, livros e revistas que não lhes fariam falta alguma.

Quando dessem por isso, já tinha descontado cheque que recebera. De facto quando se projecta uma empatia aparentemente normal e se domina a utilidade do verbo de acordo com as vaidades encontradas nos diversos lares, sempre reflectidas nas mobílias, nos cortinados, nos livros e revistas presentes, nos cãezinhos e bichanos de luxuoso pedegree, vender deixa de ser arte e passa a ser hipocrisia a que temos que nos habituar para poder ter para o dia seguinte, no meu caso.
E isto só se consegue com a arte de bem falar.
Na sociedade actual moderna e de fugacidade, é-nos impingida cada vez mais a ideia de que, para o sucesso pessoal, a manipulação da palavra e o uso que se lhe confere, é o êxito ou o desastre. De facto há uma dose de verdade, o mundo hodierno é um mundo personalizado, egocentrado e voltado para o sucesso a todo e a qualquer custo e nele a arte de comunicar, o bem e o saber falar, sobrepõe-se à arte do não falar, para muitos mais preciosa, prova disso é ter-se a certeza de que, se um tolo e um sábio estiverem calados, ninguém os distinguirá.
Vou tentar de modo ligeiro e superficial referir a duas variantes em que a palavra é o arado dos seus cultivadores. Aquela dos escritores e aquela dos jornalistas, comentaristas e afins.
Um escritor, e a mim ocorreu-me o mesmo, quando começa a carreira, ressalvadas as devidas excepções que confirmam a regra, é o génio que após ter visto pela centésima vez o seu projecto literário rejeitado pelas editoras, amuado, decide que vai escrever para a posteridade. É o incompreendido e, assim, começa aquele agonizante processo de arquivar em gavetas, as preciosidades condenadas por quem não teve visão na sua sapiência editorial. Na mágoa que lhe é particular, vê-se um homem umas tantas décadas à frente da sua geração, sem perceber que a arte de falar, neste caso de escrever, nunca lhe foi própria, tudo já foi falado há milénios. Nós os que usamos a pluma, hoje electrónica, agarramos nas coisas faladas e conhecidas, e revestimo-las de novas vestes, até com a pretensão de que, às vezes, serão originais. Quanto a mim, a originalidade só poderá residir no nosso estilo, e é isso que diferencia ou faz o escritor.
Quanto aos jornalistas, a sua vida é bem mais dura, pois para eles o uso da palavra é sina ou praga, como expiação por pecados raramente cometidos. Deste modo, para eles, a arte de falar é uma provação permanente, pois têm que perorar e opinar sobre o pisado e o repisado, sobre o buscado e o rebuscado, acabando por se tornarem, de forma na maior parte das vezes injusta, homens e mulheres vilipendiados, exactamente por terem uma boca que tem que falar por obrigação diária. Napoleão Bonaparte dizia que os jornais inimigos, não sei se o quarto poder ou a quinta coluna, lhe faziam mais mal do que um exército de 400 mil soldados.
Todavia, para a sabedoria popular, a arte do falar é precisamente a arte de não falar. Todos nós sabemos que o silêncio vale ouro, que pela boca morre o peixe, que em boca calada não entra mosca nem sai asneira.
Com o advento da televisão e da Internet nasceram as novas gerações, não mudas, seria impossível, mas de vocabulário cada vez mais reduzido, já que não mais leem ou escrevem, ou se o fazem, fazem-no em doses homeopáticas. A palavra, nas gerações actuais, e isto mundo afora, foi superada pelos cliques dos teclados em jogos de computadores, as conversas restringem-se ao uso de um léxico e de bonecos que representam emoções ou ideias, que lhes concede a bênção de não fundir o cérebro ou entrar em pane de energia pensólica ou potável.
Estou certo de que esta descrição viperina está mais do que exagerada, mas para os da minha geração, a da caneta de aparo, tinteiro de chumbo e a cartilha João de Deus, ela representa uma emoção e uma mágoa. Os emails ou as cartas dos jovens de hoje, para os pais, estejam nas províncias ou fora, limitam-se a um oi kota, tudo fine, eu bem, por favor manda o kumbú.
Permitam-me relatar-vos uma conversa entre vários jovens, que ouvi na praia em frente à minha casa.
Um jovem, esticado e sozinho na areia, é cumprimentado pelo outro que chega.
“Oi, meu... Tudo bala contigo?”
“Yá, tudo bala!”
Momentos depois, chegam mais dois, que igualmente cumprimentam.
“Oi meu... Tudo bala contigo?”, disse o que ia mais à frente.
“Yá tudo bala!”, respondem os que já lá estavam.
“Ei gente, cumé aí?”, pergunta o outro.
“Possa pá, lá vem este gajo mudar de assunto”, responderam, bem chateados os outros.
E como para a juventude que me lê já meti o pé na boca, fico sem o meu bem falar.

Tempo

você e o jornal de angola

PARTICIPE

Escreva ao Jornal de Angola.

enviar carta

Multimédia