Opinião

A árvore da floresta económica

Carlos Gomes

Não é sem razão que se considera a economia como uma ciência eminentemente política, pois, qualquer deslize que se registe, no seu percurso, produz um efeito “explosivo”, dando lugar a leituras políticas escaldantes, relativamente a eventuais implicações reais ou “virtuais” que possam repercutir na vida dos contribuintes, famílias e empresas, porque é no “aproveitar que está o ganho”.

Ao longo do nosso percurso já como nação independente, passamos por diversos momentos de angústia, que causaram feridas profundas, cujas marcas estão ainda presentes no corpo e na alma de muitos de nós, mas que, em nome do perdão e da reconciliação, servem hoje de “lembranças amargas” indeléveis de como cada um contribuiu para o quadro de paz que hoje vivemos. Entretanto, que me lembre, nunca vivenciamos um quadro tão “electrizante” e contagiante como o que nos envolve hoje, como reflexo dos efeitos da crise económica sem precedentes, que trouxe à tona as “fragilidades” que caracterizaram o modelo económico inadequado, que no limite do custo de oportunidade sucumbiu em absoluto em 2017, pela saturação de todos os segmentos da sociedade, nos domínios da saúde (precária); educação (deplorável); infra-estruturas viárias, rodoviárias, ferroviárias (degradantes); cultura (alienada); ética e moral (subvertidas), ficando a nação inteira relegada à indigência no desenvolvimento socioeconómico e humano, em razão da captura absoluta dos recursos que a todos pertencem por um punhado de aventureiros, que quase deitaram por terra o sacrifício de gerações: de Mandume, Ginga Mbandi, Mário Pinto de Andrade, Agostinho Neto, Simione Mucune e não só...quanta irresponsabilidade traiçoeira!
Os ciclos económicos dificilmente se revertem em períodos inferiores a cinco anos, daí que as oscilações que se possam verificar merecerem uma leitura responsável, sendo avisado não se confundir a árvore com a floresta, porque em economia milagres nenhuns se podem esperar, senão o sentido do elevado dever patriótico, para a transposição da “turbulência” que deverá passar para a história como uma das páginas “negras” de má gestão dos recursos então disponíveis, demonstração clara que com economia não se brinca, por se tratar da razão sublime da existência e sobrevivência de todas as forças vivas da nação.
O OGE – Orçamento Geral do Estado, para o exercício 2020, que vai à aprovação final global quinta-feira, fixando receitas e despesas em 15,2 mil biliões de kwanzas, com o preço conservador médio de 55 dólares por barril, reservando 60,7 por cento para o pagamento de compromissos vencidos (dívidas do passado), deve ser assumido como o orçamento possível, senão mesmo de sobrevivência, sob o risco de sucumbirmos todos, com a perda de soberania e outras liberdades democráticas conquistadas, que permitem alguns dos nossos ilustres deputados e “experts” de conveniência dissociarem a árvore da floresta, da difícil situação económica e financeira (real) que vivemos, como que se de mero capricho se tratasse.
O OGE 2020, como instrumento essencial de gestão macroeconómica que estima responsável e conservadoramente o preço do barril do petróleo em 55 dólares, incorporando as despesas do PIIM – Plano Integrado de Intervenção nos Municípios, em consonância com as linhas de força do PDN nos domínios das politicas monetária, fiscal e cambial, evidenciam a mudança de paradigma, para que se atinja o equilíbrio e a sustentabilidade económica e financeira do país, na certeza de que, se a “falsidade” económica que nos conduziu ao endividamento asfixiante não for corrigido hoje, amanhã poderá ser tarde demais...!!!

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