Opinião

A balalaica e o fato

Adriano Mixinge|*

Já houve um período em que, - como o Jacques dos Santos escreveu há um par de semanas, na sua crónica para outro jornal-, entre nós, os bubus, as balalaicas ou as “guayaberas” eram utilizadas da maneira mais nobre, com estilo, gosto e elegância. Isso, não tem nada a ver com a lei da indumentária: a prática social antecipa-se à lei e esta deve reflectir o que está a acontecer, na sociedade.

Impressiona-nos ver pessoas vestidas de fato a subirem aos candongueiros, sentados num autocarro abarrotado de gente ou forçados que estão, pelo intenso calor, a tirar os casacos para mostrar as manchas pouco discretas e húmidas das axilas. Temos pena dos porteiros vestidos de fatos azul ou preto à entrada dos bancos, dos hotéis ou a cuidarem da cancela de uma garagem. Dói-nos ver gente de fato a andar a pé debaixo de um sol escaldante: sabemos que o fazem porque trabalham em sítios nos que têm que estar ou chegar obedecendo ao dress code dominante.
Quando no calor da cidade vestimos o fato mais simples sentimo-nos tão elegantes quanto com muito calor e, ainda assim, suportamos a transpiração com uma resistência do aço: cansamo-nos que é como se nos vergássemos, mas não cedemos. Adoramos sofrer, mas não queremos saber, a elegância é que não sacrificamos: pouco importa se o fato não nos deixa à vontade.
No tempo do calor, Luanda é uma sauna à ceú aberto e o disfarce das baixas temperaturas e microclimas criados exageradamente a golpe de ar condicionado, que ligamos e desligamos nos carros, nas casas e nos escritórios servem mais para gastar energia eléctrica do que para satisfazer-nos: nem parece que a cidade está na costa e ainda bem que poucos se atrevem a pôr um trois piéces, que aí já seria como viver num forno em brasa.
Nem que seja tão somente o escasso tempo em que tardamos em sair do carro e chegar ao gabinete: é tal o sufoco que sentimos que, dias sem conta, o prazer por viver à beira mar vêem tornando-se um martírio. Faltam zonas verdes na cidade. Vestir comodamente é uma necessidade que precisamos satisfazer.Se tivéssemos que andar três mil metros debaixo de um sol estuante, não há dúvidas que, as nossas entranhas se coseriam a vapor: não é por mal que o digo, mas, nem sabemos se não é, também, por isso, que há gente que cheira a cabrité. Desde que vivemos na cidade de Luanda o nosso medo mais secreto é que, num dia qualquer, nós fiquemos paralizados numa das ruas da cidade como um chouriço frito, que os nossos pensamentos se transformem em ovos cozidos: com as altas temperaturas ficamos exaustos e pensamos de maneira mais lenta com maior facilidade. Só de pensar, ficamos enjoados!
Não sei bem por que razão insistimos em vestir determinados tipos de fatos, que não são apropriados, nem estão adaptados ao clima em vez de optar por uns de mangas curtas e feitos com tecidos mais ligeiros e frescos como o linho ou como o algodão leve: balalaicas, guayaberas e bubus são menos populares do que esperariamos, pertencem ao gosto dominado, subalterno.
De tão enfatados que sempre estamos os mais exagerados pensam que, de tanto nos apertarmos e estarmos sempre engravatados há ideias que não nos chegam à cabeça e, - explicam-, talvez, por isso, em parte, haja demasiada retórica e excessivo palavreado, para assuntos para os quais o senso comum bastaria.
Excepto quando o fazemos sómente para satisfazer uma necessidade básica, mas que não é vital, vestir-se não é um acto inocente. Optar por uma maneira ou por outra, em dependência da ocasião, se é no interior de um edificio ou num espaço aberto, ter em conta o período do dia e a hora, vestir-se é um acto que depende, em primeiro lugar, do clima e da geografia do lugar ou território em que estamos.
Vestir-se bem não é simples: pode depender, também, da ideologia e da história, do espaço e da arquitectura, do gosto e da estética, da identidade e da cultura ou, até mesmo, da mentalidade e do imaginário colectivo.
Por mais elegantes que nos vejamos vestidos com bons fatos, - do mais simples ao terno -, no tempo do calor, utilizá-los é sufocante, um exercício quase paralizante, impróprio e, em consequência, roça o ridículo ao, na maior parte dos casos, não estar nem ser apropriado à temperatura, à região ou até mesmo às circunstâncias.
Se com ousadia os estilistas reinventassem os fatos, as balalaicas e os bubus criando roupas que estivessem à meio caminho entre uns e outros, sem perder nem o bom feitio, nem a graça, nem a elegância uma outra ordem de códigos de vestimenta seria possível.
Enquanto “o lobo não vem”, umas vezes iremos pondo fatos e noutras balalaicas, ao estilo dos anos 70 do século passado. Não seria mau redefinir as formas de vestir dominantes, fazendo-as mais inclusivas: o ideal e mais cómodo seria que o fato não subalternizasse a balalaica.
*Historiador e crítico de arte

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