Opinião

A biblioteca maravilhosa

Adriano Mixinge |*

Quando ele terminou de arrumar os livros, tinha as mãos todas cobertas com um manto negro transparente: nem foi preciso lavá-las para antever o pó dos livros, primeiro, a flutuar sobre águas escuras e rápidas e, depois, quando de facto as lavou, a esvair-se pelo enverdecido furo do lavatório como se estivesse a fugir dele. E estava mesmo: a textura das capas e a das folhas dos livros permitia maior aderência ao pó do que a pele das mãos dele.

De tão enegrecida que tinha a pele das mãos depois de ter tocado todos e cada um dos livros como se os farfalhasse, com os dedos como se tivessem um véu e as unhas posto uma boina negra, teve medo que até mesmo as suas mãos se liquidificassem e desaparecessem com o ruído da torneira a fechar-se ou o som da água a perder-se no esgoto. Não foi isso o que aconteceu: as suas mãos estavam no lugar, mas, como ele adora os seus livros, sem eles, o sabia, sentir-se-ia perdido.
Depois de ver as caixas de papelão fechadas e, como quem não quer nada, reparar que tinham o tamanho exacto para serem estivadas com facilidade, ele respirou fundo: sentiu-se confiado ao saber que tinha encaixotado a biblioteca que criara ao longo de vinte e um anos de viagens intelectuais, para poder levá-la a casa. Se seria ou não útil fazer o que pretendia isso só o tempo o diria, mas, ele o tentaria: durante dois meses, ele sonharia todos os dias que estava a dormir sobre plástico acolchoado e com bolinhas, a cuidar da biblioteca que criara.
Desde que começou a ler e a ter livros de maneira mais intensa e regular, lá para os anos noventa do século passado, até agora as bibliotecas mudaram muito, mas ele negava-se a emprestar e ou a deitar fora os livros: não se importava que não fossem tão bons como ele gostaria, nem que não fossem agradáveis ao tacto, quem que tivessem uma capa feia ou umas folhas com demasiadas gramas.
Ele quis sempre ter os seus livros para quando regressasse ao seu país, ciente que há temas que o apaixonaram a determinadas alturas da sua vida e que hoje já não lhe interessavam: oferecê-los a alguma instituição, que pudesse acolhê-los melhor, se não pudesse criar nenhuma outra, ainda é o seu sonho.
Na vida há coisas que impressionam, mas nenhuma como ver uma biblioteca encaixotada. O peso de cada caixa é diferente, os livros autografados pelos seus autores têm a mesma importância que os livros que não estão autografados. Os romances e os livros de poesia passam a valer o mesmo que os guias turísticos da cidade que visitamos. As gramáticas de inglês, espanhol ou francês passam a não ser muito diferentes dos jornais culturais. Os livros de receitas do século XIX podem ser equiparados aos catálogos de exposições de arte ou aos dicionários: os livros são só livros, que têm o preço do seguro de transporte e isso, acreditem, causa uma angústia enorme.
Aflito ficamos ao saber que a biblioteca, posta em cem caixas de cartão terá que ficar dentro de um contentor que, por sua vez, fica dentro de um barco que, durante um par de meses, pelo menos, ficará a flutuar atravessando mares e ou oceanos. E se o barco se afundar: milhões de caracteres, de histórias e de recordações também se afundariam e com elas as anedotas de quando, em que circunstâncias e com quem compramos este ou aquele livro. Se a queima de um livro ou de uma biblioteca parecer-nos-ia injusta, se eles se afundassem parecer-nos-ia terrível.
Revigorante é ver chegar uma biblioteca a casa que desejamos, ao lugar em que vivemos: o cheiro dos livros, os marca-páginas bem nos seus sítios, os papéis e os envelopes esquecidos dentro dos livros, os rabiscos feitos nas páginas de alguns eles, as dedicatórias feitas para nós ou as que não sendo para nós aceitamo-las como se fossem para nós ficarmos com o livro que não esteve, antes, destinado para nós ou ainda, quando escrevemos, os livros que sendo escritos por nós e autografados para outros nunca foram entregues.
É muito difícil saber o lugar de um objecto qualquer dentro da vida de alguém e, sejamos francos, a maior parte deles nunca chega a entrar na vida de ninguém e quando as pessoas morrem deixam-nos ali onde os viram e ou os tocaram pela última vez.
Com os livros é bem diferente: eles passam a fazer parte da nossa memória, ajudam-nos a viver e quando morremos eles vão connosco, só desaparecem quando nós desaparecemos. O lugar dos livros está no mais profundo de nós: desencaixotar uma biblioteca é como querer afogar-se nas ideias, nas reflexões e nos sonhos de outros ou, não sendo tão dramáticos, querer viver com eles, desfrutando ou sofrendo com eles. Ponha uma biblioteca em sua vida e viverás feliz para sempre: será maravilhosa porque será aquela que decidires ter.

*Historiador e crítico de arte

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