Opinião

A Bienal da Paz cumpriu a sua nobre missão

Eduardo Magalhães |*

Em todo o mundo, a expressão “bienal” sugere mais do que um evento realizado a cada dois anos. É uma expressão que transpira arte, cultura, intercâmbio de artistas de vários países. Seja a mais que centenária Bienal de Veneza, a de São Paulo, com mais de 70 anos, ou a sul-coreana em Gwangju, “nova” de 1995.

As artes e a cultura sempre tiveram espaço em Angola na Bienal de Luanda, mas o que diferencia esta edição é a agregação do Fórum Pan-Africano para a Cultura de Paz., o que faz deste evento uma oportunidade única ao nível do nosso país e até do nosso continente. É muito assertiva a fusão das intenções. A paz é um sentimento que precisa estar presente no mais profundo das gentes. A paz deve ser cultivada até que seja desnecessário pensar nela como uma palavra abstracta.
As soluções pacíficas dos conflitos entre nações, tribos, grupos e pessoas são sempre mais benéficas ao longo do tempo. Romper a paz é um recurso que não deve estar entre as possibilidades de resolução das desavenças.
No seu discurso na abertura da Bienal de Luanda, o Presidente João Lourenço – que acaba de lançar as bases do Plano de Reconciliação em Memória às Vítimas de Conflitos Políticos – desenhou um arco de esforços necessários para que a cultura da Paz seja difundida. Ela sai dos círculos governantes, passa pelo aparelho de Estado e desce para a comunidade, família a família. Nesta instância começa a fazer valer-se a força das mulheres, e particularmente dos jovens, na prática recorrente e na divulgação.
Mulheres têm argumentos para fazer prevalecer o espírito da paz. São elas, as viúvas dos conflitos, quando não estão na linha da frente, armadas. São elas que enfrentam o desafio de levar adiante uma família destruída e marcada para sempre.
Os jovens trazem também fundo as feridas da perda dos pais e irmãos. São eles que ao amanhecer numa região conturbada, conseguem ver o sol, mas não conseguem ver o futuro. Os efeitos da guerra fazem-se presentes por gerações, negam possibilidades de redenção da juventude pela educação, cultura, desporto. Ou por outras palavras, pela inovação, pela criatividade, pela convivência, pela alegria. Por tudo, pela paz.
São as mulheres e jovens que num processo simbiótico, também podem ajudar o Estado a cumprir a sua parte na promoção da cultura da Paz. Cabe a quem governa o país preparar o terreno e lançar as sementes da educação, da alimentação, da saúde, apoio aos vulneráveis, da empregabilidade e do desenvolvimento. Nesta relação as mulheres e os jovens precisam, podem e devem preocupar-se em estar capacitados para participar da administração pública e imprimir à ela vontade, empenho, novas ideias, novos conceitos, novas práticas, uma ética ainda não desgastadas pelas razões habituais do desvio.
Esta influência positiva no corpo do Estado e no ventre da sociedade em persistente e paciente irrigação dá mais relevância, organicidade e permanência à cultura da paz e prevenção de conflitos.
Da mesma maneira, no sentido oposto, a conquista de corações e mentes na moderna arquitectura do conhecimento se dá pela veiculação, repetição e aderência de notícias, mensagens e conceitos travestidos de verdades. Estas torrentes de fake news criam tendências, mudam comportamentos, acirram ódios e aproveitam-se dos instintos mais primitivos de auto defesa, para criar desavenças e perturbar a paz.
Aos jovens, mulheres e fazedores da cultura da internet e redes sociais cabe transmitir, por meio do conhecimento das novas linguagens, métricas e plataformas, a boa mensagem. Sabendo da dificuldade que é ter audiência com boas notícias.
Este é o mesmo dilema que os media tradicionais enfrentam e precisam vencer diariamente. Pois é grande a sua importância, mesmo em meio as mudanças que prenunciam desafios complexos para os meios convencionais de imprensa. Diariamente estes órgãos precisam alcançar, informar e trazer luzes para um público cada vez mais encantado pela internet e redes mais fáceis e insidiosos. Nesta batalha diária, é necessário trazer a paz como assunto das reportagens, dos artigos e dos debates. Mesmo que sejam necessários esforços mais intensos para conquistar a atenção do público.
O quadro atrás exposto mostra que famílias, Executivo, meios de comunicação social e por extensão as organizações, denominações religiosas, universidades e todas as forças vivas da sociedade terão de enfrentar muitas difi- culdades na missão de promover a cultura da paz. E ninguém jamais disse que seria fácil. Todos têm de se imbuir das suas responsabilidades e seguir em frente porque, afinal, seguir outro caminho será muito pior.
Por isso e por muito mais, a Bienal da Paz cumpriu a sua nobre e indeclinável missão e que a sua cultura se espalhe por todo o continente!

* Director Nacional de Comunicação Institucional. A sua opinião não engaja o MCS.

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