Opinião

A Bienal e a necessidade de despertar para a realidade

Filomeno Manaças

A primeira edição da Bienal de Luanda - Fórum Pan-Africano para a Cultura de Paz, aberta quarta-feira, cumpre hoje o seu terceiro dia de actividades e domingo fecham-se as cortinas. A Bienal está a proporcionar-nos uma jornada de cinco dias de reflexão sobre o passado, o presente e o que se espera venha a ser o futuro do continente africano, numa abordagem que envolve várias disciplinas e que o pensamento político e económico procura glosar de modo a reflectir a essência das preocupações actuais, dos objectivos que se pretende atingir e, obviamente, dos planos que são necessários traçar e os esforços que devem ser empreendidos para os materializar.

A ideia de realização da Bienal encaixa-se na perfeição nos propósitos da Carta do Renascimento Cultural Africano, cuja dimensão ultrapassa objectivos meramente culturais. Mas porque é da cultura que tudo brota, pois é ela a seiva bruta que tudo molda, o renascimento africano está pensado, justamente, para dar particular enfoque à cultura da paz no continente africano.
Angola, que conheceu vários conflitos internos sangrentos; que saiu de um período de vários anos de guerra e que tem consciência do trabalho árduo que ainda precisa de desenvolver para sarar as chagas, conhece bem da importância de se fundar uma cultura de paz e de partilhar a sua experiência com os países e povos ainda mergulhados em hostilidades, que só atrasam o seu desenvolvimento económico e social.
Era suposto que, ao fechar-se o ciclo da luta pela independência da maior parte dos países africanos, a conquista desse lugar ao surgimento de novos Estados em ambiente de estabilidade e de progresso económico e social. O surgimento de novos focos de conflitos e a sua persistência impedem a plena aplicação dos princípios da União Africana de promover a cooperação mutuamente vantajosa entre os Estados, da valorização dos direitos humanos e da necessidade de fortalecer as economias e o comércio entre os países africanos, de modo a torná-los competitivos e menos dependentes de factores externos.
Em matéria de resolução de conflitos são ainda grandes os desafios que África tem de enfrentar, não havendo garantias de se concretizar a nobre iniciativa da União Africana de ver o silenciar das armas em 2020.
O continente precisa de se libertar dessas maleitas, se quiser dar o passo de gigante que se espera, tendo em conta os recursos de que dispõe, e não conseguirá fazê-lo se não unir esforços para reduzir o campo de manobra dos potenciais focos de conflito e dos interesses que se movem no sentido de os manter latentes e sempre prontos a eclodir.
Um projecto que tem como parceiros o Governo angolano, a UNESCO e a União Africana, a Bienal de Luanda - Fórum Pan-Africano para a Cultura de Paz afirma-se, desde já, como uma plataforma que propõe-se trabalhar para gerar reformas profundas ao nível do pensamento africano, que se compromete a valorizar as soluções positivas que existem e que não são devidamente aproveitadas, num contexto em que as mudanças vertiginosas que ocorrem no mundo exigem que África acerte o passo com o desenvolvimento.
Para isso, a paz é im-pres-cin-dí-vel. Como disse o Presidente João Lourenço, na cerimónia de abertura do evento, “só com paz o continente poderá atingir o desenvolvimento e implementar a Zona Livre de Comercio Africano”. Essa é uma condição indispensável para que se possa combater de forma eficaz a fome, a miséria, as doenças, o analfabetismo, as desigualdades sociais, o desemprego, o terrorismo, o tribalismo e a xenofobia, questões para as quais o Chefe de Estado angolano concitou os demais participantes na Bienal a encontrar soluções sustentáveis.
O presidente da Comissão da União Africana, Moussa Faki, tratou de sintetizar parte das preocupações que afligem o continente. Ao dizer que “a ambição é, agora, alcançar uma África íntegra, próspera e em paz, e que o calar das armas deve ser um projecto que a todos nos toque, numa altura em que o Sahel continua a gerar preocupação, mas também a situação no Lago Tchad e o movimento Boko Haram, a perpetuação de grupos extremistas, jiadistas e o crescente movimento de xenofobia mortífera que continuam a pôr em causa a paz”, Moussa Faki apontou aspectos que estão a contribuir de forma séria para uma regressão que pode anular conquistas básicas no campo da saúde, da educação e da prestação de serviços por parte das administrações nos locais onde essas situações ocorrem.
Um quadro geral que levou o Prémio Nobel da Paz 2018, o médico Denis Mukwege, a alertar para a necessidade de o continente despertar, sob pena de sofrer uma nova colonização. E não é - sublinhe-se - um pensamento alarmista. O médico congolês não é o único preocupado com essa perspectiva. É uma realidade que o novo pensamento africano deve ter em conta e trabalhar arduamente para evitar que isso aconteça.
Os desafios que se colocam ao continente exigem mudanças profundas na forma de pensar e agir.

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