Opinião

A Covid-19 e a falta de noção de responsabilidade individual

Filomeno Manaças

O Presidente João Lourenço inaugurou terça-feira, na Zona Económica Especial, em Viana, um hospital de campanha com capacidade para 1.200 camas, na previsão de que a Covid-19 possa vir a conhecer uma evolução diferente da que até agora tivemos, conseguida graças aos esforços de prevenção e combate empreendidos.

O balanço de 86 casos positivos, 18 recuperados e quatro mortes registados até às 18h00 de ontem é testemunho eloquente da forma perspicaz como as autoridades angolanas trataram de lidar com a pandemia, o que permitiu conter ao máximo a sua propagação descontrolada pelo país e evitar o caos sanitário que vimos instalar-se noutros países.
A multiplicação de contágios locais e os comportamentos de risco que levaram a impor a cerca sanitária à província de Luanda, em primeiro lugar, e que posteriormente inscreveu localidades e instituições específicas, obrigam a olhar com realismo para a forma menos séria como a população está a encarar a enfermidade.
A noção de responsabilidade individual que deve pautar a conduta dos cidadãos parece estar totalmente ausente em muitas circunstâncias. A declaração de Situação de Calamidade Pública parece ter caído como um passaporte para as pessoas relaxarem no cumprimento das medidas de prevenção e combate ao novo coronavírus. O distanciamento físico não é respeitado nos grandes aglomerados populacionais e o uso da máscara tornou-se aleatório.
Não há sequer uma assunção de que a doença ainda não tem vacina, que o seu tratamento é demorado e doloroso quando acontece com sucesso, e que ela ainda está para durar um bom tempo e que, por isso, o melhor é seguir as recomendações médicas.
Os ingredientes para que haja circulação comunitária da Covid-19 estão potencialmente presentes. Por mais esforços que as autoridades do sector da Saúde desenvolvam, não é seguro que não se verifique a propagação do vírus se cada pessoa não interiorizar sobre a necessidade imprescindível de observar as medidas sanitárias. O que menos se quer é que haja um cortejo de doentes em direcção ao hospital de campanha, que a população ganhe consciência da gravidade da doença só quando constatar que um grande número de pessoas estão infectadas e internadas e outras tantas tiverem resultado em óbitos.
Precisamos todos de nos engajar para dar a volta à pandemia, um evento que veio alterar de forma dramática o modo de vida em todo o mundo e as projecções que cada país fez para o seu desenvolvimento económico a curto e médio prazo.
A pandemia surgiu num momento em que Angola estava na senda de firmar as bases de uma nova realidade política, económica e social. As reformas encetadas seguiam a bom ritmo e as perspectivas de relançamento da economia, apesar do ambiente de crise resultante da baixa do preço do petróleo, infundiam relativo optimismo, assente na estabilidade da realidade então existente. Entretanto com a pandemia os preços do crude afundaram ainda mais, em razão da disputa por receitas entre a Rússia e a Arábia Saudita para fazer face ao contexto surgido, que obrigou a retracção do consumo no mercado mundial.
De um modo geral, todos os países viram-se obrigados a redireccionar recursos para enfrentar a Covid-19. Vários projectos tiveram de ser adiados e os planos económicos estão todos, praticamente, também a ser reelaborados, tendo em conta as novas prioridades que os efeitos da pandemia vieram colocar como sendo de primeira linha. Essa é uma realidade que está a acontecer na Europa, na Ásia e mesmo nos Estados Unidos. A situação não podia ser diferente em Angola. As medidas já tomadas de incentivo fiscal para oxigenar as empresas falam por si.
Paradoxalmente, se há ganhos a apontar com o surgimento da pandemia, são, no imediato - pelo menos um deles -, os investimentos feitos no sector da Saúde, com a aquisição de equipamentos diversos, a contratação de médicos cubanos e a compra de meios de biossegurança. Em termos de infra-estruturas e equipamentos, que são bens duráveis, o país fica guarnecido de unidades que vão, seguramente, contribuir para a melhoria da qualidade da assistência médica à população.
A visão de construir unidades idênticas à de Luanda em Cabinda e no Dundo, na Lunda-Norte, revelam a grande preocupação que as autoridades angolanas têm em continuar a implementar uma estratégia de prevenção e de combate à pandemia a partir dos postos migratórios de entrada de cidadãos e mercadorias. As duas localidades fazem fronteira com a República Democrática do Congo, país que já ultrapassou a barreira dos três mil casos de contágio pela Covid-19 (3.644, até ontem, com 495 pessoas recuperadas e 78 mortos).

 

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